segunda-feira, 29 de agosto de 2011

lei da separação




para o dr. manuel sá marques
com um abraço de fraternal amizade



fui visitar, na semana passada, a exposição "a lei da separação: estado e igrejas na república", a qual se encontra ainda patente no arquivo contemporâneo do ministério das finanças, até 31 de agosto. é uma exposição a não perder, pela sua simplicidade e pelo seu conteúdo informativo. pena não haver um catálogo, como em muitas outras exposições que visitei no âmbito das comemorações do centenário da implantação da república. do tema em questão, fica como sugestão de leitura o livro "a separação do estado e da igreja: concórdia e conflito entre a primeira república e o catolicismo", de luís salgado matos. em contrapartida, o respectivo arquivo publicou um desdobrável informativo, bastante elucidativo, da respectiva questão, publicando a cronologia patente na exposição, desde 1911 até 2005. desta forma, a cronologia encontra-se assim estabelecida: i) 1910-1911 - a caminho da lei; ii) 1911-1917 - concórdias e conflios - aplicação da lei da separação de 1911; iii) 1918 - a «nova» lei da separação; iv) depois de 1919 - divergências e convergências na longa execução da separação. por seu turno, a exposição encontra-se dividida perante a própria lei, nomeadamente: 0 - decreto de 20 de abril de 1911 - a lei da separação; 1. da liberdade de consciência de cultos; 2 - das corporações e entidades encarregadas do culto; 3) da fiscalização do culto público; 4) da propriedade e encargos dos edifícios e bens; 5) do destino dos edifícios e bens; 6) das pensões aos ministros da religião católica; 7) disposições gerais e transitórias. apresento um filme da referida exposição.





de afonso cruz, o mundo





ficamos sempre na expectativa com o título. só que o título é um pequeno nada quando se lê esta história, o último livro do escritor português afonso cruz, e que se chama "o pintor debaixo do lava-loiças". entre o que poderá ser a realidade, o espaço geográfico do mundo do pintor josef soers, isto é, ivan soers, e o espaço geográfico da infância do escritor afonso cruz, há um ponto em comum: a estética. se em ivan soers nos surgem reflexões estéticas à volta do que poderá ser a arte, em afonso cruz, através da personagem wilhelm, surgem-nos reflexões sobre o que poedrá ser a literatura. se logo no início nos surge a justificação desta história, na medida em que "as histórias não podem ser engarrafadas sem que se estraguem rapidamente", até porque elas "têm de andar ao ar livre como os animais selvagens", o que se deve fazer com as histórias é que "temos de as soltar para que possam correr todas nuas, digamos, libertas, sem preconceitos"; e, para além das reflexões estético-literárias, perante a ironia e o humor, afonso cruz oferece-nos reflexões éticas e existenciais, seja sobre o amor, a guerra, a morte, a interioridade do humano, sobre o tempo, transmite-nos uma ideia de portugalidade, enfim, a transcendência do mundo em nós, melhor, aquela in-transcendência para além daquele projecto de soers e que se chamava "museu das coisas inúteis". neste livro nada é inútil. há frases e pensamentos que podemos não concordar com eles, mas, como soers, reinventa-se o mundo, nós mesmos podemos reinventar e redesenhar esteticamente o mundo em nós para sermos outros nele. na mensagem de soers-cruz, de que "a felicidade é quando nos esquecemos da infelicidade em que vivemos", vai precisamente ao encontro do que acabo de dizer. reproduzo num pequeno filme a capa e três desenhos de afonso cruz, com a sua devida permissão, outra riqueza deste livro, cheio de olhos, abertos e fechados, para vermos melhor o mundo, diga-se, a escrita enquanto mundo de uma in-transcendência que se eleva.




domingo, 21 de agosto de 2011

100 anos constituição da república

Hoje comemoram-se os 100 anos da Constituição da República em Portugal. Encontrava-se dividida em sete títulos, conforme assim designaram os respectivos capítulos. estavam assim estabelecidos: TI) Da Forma do Governo e do Território da Nação Portuguesa; TII) Dos Direitos e Garantias Individuais; TIII) Da Soberania e dos Poderes do Estado. Este Título III encontrava-se subdividido em três secções: SI) Do Poder Legislativo; Do Senado; Das Atribuições do Congresso da República; Da Iniciativa, Formação e Promulgação das Leis e Resoluções; SII) Do Poder Executivo; Da Eleição do Presidente da República; Das Atribuições do Presidente da República; Dos Ministros; Dos Crimes de Responsabilidade; SIII) Do Poder Judicial; TIV) Das Instituições Locais Administrativas; TV) Da Administração das Províncias Ultramarinas; TVI) Disposições Gerais; TVII) Da Revisão Constitucional e, finalmente, Disposições Transitórias. O Presidente da Assembleia Nacional Constituinte era Anselmo Braaancamp Freire. Transcrevemos uma entrevista de Bernardino Machado então concedida ao jornal "O Mundo" e publicada em 20 de Julho de 1911, sendo o assunto em foco a Constituição da República. Antes, Bernardino Machado tinha concedido uma outra sobre a mesma temática, precisamente em 11 de Maio de 1911.





O Sr. Dr. Bernardino Machado, pelos seus vastos conhecimentos de direito público e pelas suas incontestáveis capacidades de estadista, estava naturalmente indicado para dar-nos a sua opinião acerca do futuro código político por que há-de fundamentalmente dirigir-se a República Portuguesa. O parecer do ilustre homem público seria deveras interessante e, neste momento, pela sua situação especial, de um grande alcance político. O Sr. Dr. Bernardino Machado, como todos sabem, é um republicano que, como ministro, com dedicação e inteligência raras tem defendido a segurança da República e o prestígio do País. A sua opinião, pois, revestiria um carácter de exclusivo patriotismo. Por isso, procurámo-lo nos Passos Perdidos, mas o eminente ministro da República, sempre affairê, e, ao mesmo tempo, não querendo abandonar a discussão parlamentar por interesse público e por gentileza com os oradores, era difícil de deter durante os minutos indispensáveis para ouvi-lo sobre o assunto. Conseguimos, porém, no Ministério dos Negócios Estrangeiros obter de S. Ex.ª uma meia hora de palestra. Principiamos logo por esta pergunta, a mais indiscreta de todas:



- Que me diz V. Ex.ª da discussão parlamentar acerca do projecto da Constituição?

- Que tem sido elevada e consciente, confirmando os dotes parlamentares de uns oradores, e revelando brilhantemente os de outros, que se estrearam agora. A Constituinte está decidida, segundo me parece, a aceitar do projecto as duas câmaras e a presidência, mas desejando que os ministérios tenham voz no Parlamento e que haja um poder judicial independente. Pela minha parte, não julguei necessário, como ministro, intervir na discussão; mas como deputado e cidadão, é claro que não tenho dúvida alguma em expor a minha opinião.



- V. Ex.ª entende que no nosso País existem sentimento e tradição parlamentares?

O Sr. Dr. Bernardino Machado confia mansamente o bigode branco e farto, e acaricia com a palma da mão direita a testa alta e larga, e diz:

- Sem dúvida!

E, depois de uns segundos de silêncio, acrescenta e explica:

- Com a Revolução de 5 de Outubro, o povo português afirmou, mais uma vez, vitoriosamente o direito de se governar por si. O regime republicano, desde a sua proclamação, não existe só de facto, mas também de direito. Por isso, quando os governos estrangeiros pensaram em entrar em relações connosco, eu não podia aceitar nem aceitei que nos tratassem apenas com um regime de facto. De facto, fora, por exemplo, o Governo de João Franco, porque tinha contra si a grande maioria do País. Nós, ao contrário, fizemos desde a primeira hora o Governo da Nação pela Nação quase sem opositores de valia. Não tivemos que nos impor pela ditadura, não! O Governo cumpriu no poder o programa que verdadeiramente não era só republicano, mas nacional, e que não era só de agora, mas que vinha dos tempos iniciais da nossa nacionalidade. Porque esse programa era de emancipação religiosa e outro não foi o da Nação logo durante a primeira dinastia, assinada pelas lutas contra o poder clerical. Era de emancipação económica, e tal foi o da Nação durante a segunda dinastia, em que as lutas se travaram contra o poder da nobreza feudal. E era de emancipação política, pleiteada de 1580 a 1640 contra a tirania estrangeira, e desde 1820 até 5 de Outubro de 1910 contra a opressão absolutista da Monarquia brigantina. E a prova de que nós, os do Governo Provisório, não fizemos ditadura, é que nenhum dos seus membros pensou em pedir e nenhum dos membros da Constituinte pensou em conceder-lhe um bill de indemnidade. A Constituinte deu-nos logo um voto de plena adesão e aprovação à obra governativa, a qual pode e deve ainda ser discutida no seu valor e perfeição técnica, mas não no seu sentido e alcance moral, que ficou desde esse voto solene da Constituinte fora de toda a questão, terminando com ele as nossas responsabilidades políticas perante o País.


- Mas sobre a Constituição, sobre parlamentarismo...

- Lá vamos, meu amigo, lá vamos.


AS TRADIÇÕES PARLAMENTARES

Houve côrtes que elegeram reis e que lhes recusaram obediência - Negar o parlamentarismo é negar o poder do espírito público em Portugal


Há muitos cidadãos no salão de espera que desejam falar com o ministro - este, aquele, mais aqueloutro, informa o contínuo.

- Peça-lhes que esperem mais uns momentos - diz o ministro.

E o contínuo parte.


- É isto, observa-me o sr. dr. Bernardino Machado. A Monarquia deixou pendentes, sem solução, muitos assuntos. Pouco ou nada se importava com o País, nem com os interesses legítimos dos cidadãos, das corporações, etc. Proclama-se a República e deseja.se tudo resolvido, pelo melhor e o mais rapidamente possível, de chofre. Eu compreendo muito bem; mas é que não há forças materiais para tudo! Não basta só a boa vontade do Governo em atender a quaisquer reclamações justas e dignas; é necessário tempo, ocasião...


Mas o ministro, quase sem transicção, prossegue:

- Esse direito republicano e nacional, de que foi depositário o Governo Provisório, é que se trata agora de formular. Quanto melhor o formularmos, na nossa Constituição, tanto mais demonstraremos que o compreendemos. Essa fórmula é antiga como o nosso direito constitucional. É a fórmula parlamentar. Temos côrtes desde os alvores da nossa vida pública. Elas elegem reis em 1315 e 1641. Declaram ao eleger D. João VI, que têm o direito de recusar obediência ao Rei, quando ele se torne tirano e indigno; acusam em 1642 de traidor o secretário de Estado, Lucena, e em 1668 depõem Afonso VI. Com elas, pelo seu engrandecimento, atingimos a nossa grandeza histórica, e quando elas declinam, decai também a Nação. A prova de que somos antigos parlamentares é que um dos grandes mestres de direito público parlamentar, conhecido e lido em todo o mundo, é o sábio português Silvestre Pinheiro Ferreira. Para as côrtes apelamos em 1820 e 1834, e foi pelos progressos do parlamentarismo que chegamos a ter quase o sufrágio universal para a eeleição da Câmara dos Deputados e a introduzir também o elemento electivo na organzição da Câmara dos Pares. Através de muitos erros e incertezas, o período de 1852 a 1885 foi, incontestavelmente, não só de fomento, mas também de tolerância e liberalismo. Basta lembrar as leis tantas vezes citadas, a lei eleitoral de Fontes, a lei administrativa de Sampaio, a lei de imprensa de Barjona de Freitas, leis promulgadas por ministros conservadores, mas reclamadas da oposição pelos partidos mais avançados de então, reformistas, históricos e progressistas - tal era então a intensidade da vida pública entre nós. Para não falar de outros mais recentes, os nomes de Garrett, José Estêvão e Rodrigo da Fonseca, esses três eminentes parlamentares reunidos no mesmo elogio pelo nosso grande Latino Coelho, mostram quanto foi modernamente gloriosa a nossa tribuna parlamentar. E quem esqueceu os oradores republicanos dos últimos tempos, que tanto a dignificaram?

- O Mundo já defendeu essa opinião, que muito folgo ver tão eruditamente desenvolvida e confirmada por V. Ex.ª...

- É a verdade. Bem sei que se objecta com as dissoluções repetidas em dois reinados de D. Luís e D. Carlos; mas que provam elas se não a luta do poder contra o parlamentarismo, que, ainda mesmo viciado pelo regime, o amedrontava e não era nunca, afinal, um morto? Negar o parlamentarismo é negar o poder do espírito público em Portugal, atacando não só a Monarquia, que o pretendeu sufocar, mas o próprio País, que se não deixou nunca esmagar pro ela; é sustentar a tese de João Franco, desenvolvida no célebre decreto da ditadura administrativa relatado pelo ministro Martins de Carvalho, que para a fundamentar não duvidou asseverar que em Portugal só ditatorialmente se tinha governado e se podia governar. Se nunca tivéssemos tido vida cívica, se no-la houvesse destruído a Monarquia, como é que sem nenhuma preparação eramos capazes de exercitar os nossos direitos livremente, dentro do regime republicano? Não! A República é o corlário legítimo e necessário de todo o nosso passado de povo livre, muitas vezes oprimido, mas incessantemente redivivo pelo esforço indomável da nossa hombridade patriótica. Tais são as nossas tradições constitucionais.



OS PONTOS CAPITAIS

Presidência, duas câmaras, representação associativa e corporativa - Ministros no Parlamento! - A união dos republicanos deu-nos a vitória, e só ela pode consolidá-la


E pusemos claramente a questão:

- Na opinião de V. Ex.ª, devemos assegurar e manter o regime parlamentar...

- Incontestavelmente. E como organizá-lo? Quantos órgãos deve ter? Um, dois ou mais? Depende isso da própria organização social. Dantes, quando a Nação se divida em três Estados - clero, nobreza e povo - havia rigorosamente três câmaras, porque cada braço das côrtes discutia e votava sobre si; hoje, não há já castas, divisões profundas da sociedade, mas há duas formas de sociabilidade: uma, associativa, a das associações de classe; outra, corporativa, que é a dos municípios, paróquias, distritos e províncias. Daí, duas câmaras: a Câmara dos Deputados, que cada vez mais tende a ser o coroamento da vida corporativa, representa das forças vivas da Nação, já entre si equilibradas e harmónicas. Como elegê-las? A Câmara dos Deputados deve ser eleita pelo sufrágio universal, cada vez mais e melhor disciplinada pela organização associativa, e o Senado deve ser eleito por todas as nossas corporações, desde a paróquia até à província, senão mesmo até também pela Câmara dos Deputados, como sucede em França. Por isso, não convém dar à Câmara Alta exlusivamente o nome de Conselho de Municípios.


- E quanto ao Presidente e sua eleição?

- O Parlamento é o representante da soberania da Nação e, como tal, tem todos os poderes e todos pode reassumir. Felismente, ao que parece, ninguém, tentado pela prosperidade da grande República da América do Norte, pretende fazer ressurgir, entre nós, as lutas entre o Chefe do Estado e o Parlamento, substituindo a um Rei dinástico de origem parlamentar um presidente eleito fora do Parlamento, com uma força igual à dele, podendo, portanto, defrontá-lo e vencê-lo. Chama-se a esse regime presidencial, como sabe, porque predomina nele o presidente sobre o parlamento. É o regime republicano que mais se presta aos golpes de Estado e às revoluções. O presidente eleito pelo sufrágio directo, com uma câmara só, deu em França o segundo império e Sédan. Sempre é melhor um chefe eleito do que um Rei hereditário, não há dúvida; mas é ainda uma forma jurídica de constituição inferior. Basta à direcção do Governo um Presidente do Conselho ou é precisa uma autoridade que presida à alternação dos partidos no poder e que dê continuidade à política externa da Nação? À Suíça basta um presidente do conselho federal, mas esta é uma das formas anárquicas do Governo que provam um alto grau de educação cívica nos cidadãos daquela Nação. Assim como não precisam de autoridade que presida aos movimentos dos partidos, assim também chegam a dispensá-la para a elaboração das leis, votando-as directamente por meio do direito de iniciativa e do direito de referendum. Lá mesmo, porém, algumas vozes de homens públicos notáveis têm reclamado para o presidente da conferederação a magistratura do Chefe do Estado. E, na Suíça, a vida pública tão intensa administrativamente, não tyem quase nunca grande intensidade política. Entre nós é, sobretudo, neste momento, ainda muito ardente a nossa vida política. Podemos e devemos contar com a fácil disciplina social do nosso povo; mas a dos dirigentes é bem mais difícil e penosa. Em parte alguma se dá uma separação profunda entre os poderes, nem nos Estados Unidos, onde o Presidente da República exercita até o veto e onde ao Parlamento competem as mais altas nomeações. Os ministros, que são os mais cotados representantes da maioria parlamentar, adquirem pelo seu trato directo dos negócios a prerrogativa no exercício do direito da inciativa das leis e os deputados e senadores não legislam só, fiscalizam a execução das leis, e actos legislativos seus são ao mesmo tempo executivos, como a votação dos tratados internacionais, e das chamadas leis constitucionais, isto é, a lei de meios e a da fixação das forças de terra e mar.


- E a respeito do direito da dissolução, é contra ou a favor?

- Sou contra, por mais ponderosos que sejam os argumentos com que esse direito foi defendido. Para mim, o poder moderador está na opinião pública, que é indispensável que as maiorias e opsições agitem incessantemente. E, por isso mesmo, eu quero os ministros no Parlamento, no seu posto discutindo, conduzindo a opinião. Não aceito, sequer, a sanção e o veto do Chefe do Estado. Compete-lhe a ele, unicamente, a promulgação das leis. Quanto à sua reeleição, tenho sustentado sempre que o Parlamento não deve restringir os seus poderes, impossibilitando-se de votar em quem quiser, que ese alguém tenha sido ou não ainda Chefe do Estado. Penso mesmo não ser sem perigo a clásula da não reeleição, porque é quase um convite ao Chefe do Estado para se não importar com a opinião, alimentando-lhe ou criando-lhe, precisamente, as tendências ditatoriais que se pretendiam coarctar.


[OS VENCIMENTOS]


- V. Ex.ª tem tratado, nesta nossa palestra, de todos os pontos capitais da Constituição ou de uma Constituição. Permita-me que indague de V. Ex.ª o que pensa a respeito de duas questões análogas, e que se tem ventilado - a dotação do Presidente e o subsídio aos deputados...

- Penso que, na verdade precisamos de ser uma economia rigorosa, porque todos temos responsabilidades graves perante o espectáculo da miséria em que se encontram as classes trabalhadoras entre nós, miséria que urge remediar. Por isso, os vencimentos dos representantes da Nação, como os de todos os seus funcionários, devem ser modestos, mas faça-se também por que não sejam insuficientes, para que todos possam democraticamente desempenhar os cargos públicos, quaisquer que sejam os seusmeios pessoais de fortuna. Sobre este, como sobre todos os pontos capitais, creio não haver sensíveis divergências na maioria da Constituinte. E oxalá ela efectivamente vote uma Constituição que seja quanto possível a expressão unânima das aspirações do partido Republicano e da Nação. Presicamos de fundar solidamente a autoridade republicana, para que ela possa assegurar eficazmente todas as liberdades públicas. A autoridade deixou de ser o inimigo, para ser o amigo do povo e, como tal, deve vir a ser considerada e respeitada. Organizem-se os poderes públicos, traçando-lhes as suas órbitas de acção, mas com toda a confiança neles, dadno-lhes forças e prestígio para afzerem uma política que tem de ser de coesão e pacificação nacional, mas que ambém tem de ser de uma enérgica e inquebrantável defesa da República, seja contra quem for que a afronte ou ataque, tentando romper os nossos laços cívicos, separando-nos uns dos outros, aqui e no ultramar, numa palavra, pondo em risco a unidade e o destino histórico da nossa nacionalidade. O grande mal do país proveio das divisões e dissolução dos partidos e governos monárquicos. A sua regeneração e engrandecimento não há-de provir da fraternal união republicana, tornando-se absolutamente necessário que seja tão estreita e disciplinada no Governo, quanto o foi na oposição. Ela nos deu a vitória, só ela nos pode consolidar para sempre!



segunda-feira, 15 de agosto de 2011

portuguesia 5.ª edição



"A diferença é dizer, é revelar, é haurir o tesouro da eloquência a riqueza da palavra."


"Grande há ser o merecimento da poesia, personalizada, deixem dizer assim, no poeta para resistir à negligência sisuda dos que, fartos das suas, prescindem de assistir às lástimas alheias! Esse grande merecimento há-de consistir em três preciosas qualidades: primor da linguagem, conhecimento do coração, e elevada filosofia, tão elevada filosofia, tão elavada que a personalidade do autor desapareça nela, e fique a humanidade."


Camilo, O Nacional, 1856




PORTUGUESIA


FESTA DA POESIA DE LÍNGUAS PORTUGUESAS E ESPANHOLAS


5.ª EDIÇÃO


3 SETEMBRO 2011


CASA-MUSEU CAMILO CASTELO BRANCO


S. MIGUEL DE SEIDE


VILA NOVA DE FAMALICÃO




O autor do projecto desta festa da poesia lusófona, agora voltada para a língua espanhola, é wilmar silva, tendo como curadores o próprio wilmar e luís serguilha. tem o apoio da câmara municipal de vila nova de famalicão e da casa-museu de camilo castelo branco-centro de estudos camilianos, com poetas, artistas e ensaístas convidados do brasil, da espanha, da finlândia, do méxico, de moçambique e de portugal.






abertura


arq. armindo costa, presidente da câmara municipal de vila nova de famalicão


apresentação "portuguesia" por wilmar silva e luís serguilha




09h30


audição instalação "tropofonia"


a lírica de camilo castelo branco


jardins da casa de camilo




10h30


perfomances "guesas livres"


com carlos vinagre, luísa raposo, maria elisa ribeiro, rita dahl




11h30


provocação a poesia em transe: transversalização


medulas de diálogo: imersão e emersão da palavra


com amadeu gonçalves, marília lopes e sara canelhas


provocador: josé pego




12h45


perfomance "guesas livres"


com elza ramos amaral, francesco napoli, jorge melícias, jorge velhote




15h00


perfomance "guesas livres"


com joão rasteiro, camila vardarac, olga valeska, victor sosa




15h45


provocação a poesia em transe: imaginários de resistência


medulas de diálogo: koa`e de luís serguilha


com luís serguilha


provocador victor sosa




16h45


perfomance "guesas livres"


com beatriz ramos do amaral, carlos poças falcão, domingos mazzilli, ignacio martínez-castignani




17h30


provocação a poesia em transe: des-territorialização da língua


medulas de diálogo: geografias, línguas, linguagens


com josé manuel mendes, graça capinha, helena vasconcelos


provocador paulo nogueira




19h15


perfomance "guesas livres"


com camila buzelin, delmar gonçalves, gisela gracias ramos rosa, tábata morelo




20h00


exposição e leitura cartas de amor enviadas a camilo


com regina melo




20h30


liberdade livre







xosé vázquez pintor

Considerado uma das vozes mais originais da literatura galega, herdeiro cultural e literário de Rosalía de Castro, Xosé Vázquez Pintor nasceu em Melide (1946) e é o criador de uma obra literária repartida pelos mais variados géneros: desde a poesia, a narrativa, o ensaio de carácter antropológico, passando pelo teatro e até pela literatura infanto-juvenil. Ganhou vários prémios, nomeadamente Eduardo Pondal, Cidade de Ourense, Esquío, Uxío Novoneyra, Carvalho Calero, Torrente Ballester (que é exemplo o livro que aqui se destaca, A memoria do boi) e Premio da Crítica Española. Relativamente ao teatro, fundou os grupos Ancoradouro e Casa da Bola em Cangas, onde reside. Colabora frequentemente na rádio e na imprensa, tendo sido membro fundador do semanário A Nosa Terra. O jornalismo tem sido a sua grande paixão de sempre, tendo colaborado em jornais como El Ideal Gallego, Faro de Vigo, La Voz de Galicia, SER-Galicia, participando num programa televisivo semanal na televisão de Morrazo. Do livro que leio, deste escritor galego que já foi homenageado em 2008 pela Associação de Escritores da Língua Galega, de leitura apaixonante, cito: "Non hai silencio, porque o silente aquí tamén é culpa das lembranzas... a estima está e segue a vida, o alimento, o futuro." O silente em silêncio de si próprio. Agradável esta palavra: silente! somos seres em silente, somos seres do silente sem silêncio.








terça-feira, 9 de agosto de 2011

entre a monarquia e a república



para o dr. manuel sá marques, com um forte abraço de amizade fraterna



"... a revolução deve ser mais um acto político do que um movimento militar e que politicamente o seu triunfo será tanto maior quanto menos violenta e menos dilacerante ela for militarmente."


Bernardino Machado




A Capital (27 Ago. 1910).




I - O último fôlego

II - No meio da turbulência

III - Males de longe e de perto

IV - A via liberal

V - Tempo de acalmação

VI - Um «banho de sangue»

VII - Ao almoço, na Estrela

VIII - Três comensais

IX - Afonso Costa entra em acção

X - Com o conhecimento do Rei

XI - O livre-pensamento

XII - Condições de paz

XIII - Conversa acabada

XIV - O fracasso do Pacto

XV - Cai Amaral

XVI - Operação socialista

XVII - Actos finais

XVIII - Cronologia


Apêndice

Primeiro discurso de Afonso Costa

Segundo discurso de Afonso Costa


"O Pacto Liberal de tréguas, concebido numa manhã de Abril de 1908, em casa de Bernardino Machado, em Lisboa, foi negociado entre republicanos e monárquicos, comunicado ao Rei, discutido com o primeiro-ministro e com vários dirigentes dos principais partidos políticos da Monarquia e, por fim, objecto de intervenções no parlamento. Numa dessas intervenções, em 19 de Maio, Afonso Costa enunciou claramente as condições sob as quais os republicanos se comprometiam a abdicar da revolução e a adoptar uma via estritamente legalista e eleitoralista. / Rejeitada a proposta de Afonso Costa, que ele já com dificuldade fizera aprovar pelo Congresso republicano, regime fechava-se sobre si mesmo." (17)


Jorge Morais





segunda-feira, 8 de agosto de 2011

slavoj zizek



pensar o cristianismo, sempre, entre a ortodoxia e a heterodoxia. a viagem é sempre fascinante.


O Livro dos Saberes Práticos








domingo, 7 de agosto de 2011

slavov zizek



"Este livrinho trata da maneira como a postura ideológica hoje predominante - o liberalismo multicultural e tolerante - participa em pleno neste despolitização da economia; para o reumir em termos consisos, a tolerância multicultural é a ideologia hegemónica do capitalismo global. A oposição entre o fundamentalismo étnico-sexista-religioso e a tolerância multicultural é, em última análise, uma falsa oposição: a neutralização política da economia é o postulado comum aos dois extremos. A única via de saúde deste beco, e o primeiro passo, portanto, a caminho de uma renovação da esquerda, é a reafirmação de uma crítica virulenta, fortemente intolerante da civilização capitalista global."


I - A hegemonia e os seus fantasmas

II - Por que razão as ideias dominantes não são as ideias dos dominantes?

III - O político e as suas denegações

IV - A pós-política...

V - e a suas violência

VI - Existirá um eurocentrismo progressista?

VII - Os três universais

VIII - A tolerância repressiva do multiculturalismo

IX - Para uma suspensão de esquerda da lei

X - A sociedade do risco e os seus inimigos

XI - O Unbehagen na sociedade do risco

XII - A sexualidade hoje

XIII - É a economia política, imbecil!



slavoj zizek o novo livro










Público / Ípsilon (5 Ago. 2011)








sexta-feira, 5 de agosto de 2011

camilo e os seus mistérios de lisboa



"Tentar fazer um romance é um desejo inocente. Baptizá-lo com um título pomposo é um pretexto ridículo. Apanhar uma nomenclatura, estafada e velha, insculpi-la no frontispício de um livro, e ficar orgulhoso de ter um padrinho original, isso, meus caros leitores, é uma patranha de que eu não sou capaz. / Este romance não é meu filho, é meu afilhado. / Se eu me visse assaltado pela tentação de escrever a vida oculta de Lisboa, não era capaz de alinhavar dois capítulos com jeito. O que eu conheço de Lisboa são os relevos, que se destacam nos quadros de todas as populações, com foro de cidades e de vilas. Isso não vale a honra do romance. Recursos de imaginação, se eu os tivera, não viria consumi-los aqui em uma tarefa inglória. E, sem esses recursos, pareceu-me sempre impossível escrever os mistérios de uma terra, que não tem nenhuns, e, inventados, ninguém os crê.




Público/P2 (5 Ago. 2011), p. 12.



Enganei-me. É que eu não conhecia Lisboa, ou não era capaz de calcular a distância da imaginação de um homem. Cuidei que os horizontes do mundo fantástico se fechavam nos Pirinéus, e que não podia ser-se peninsular e romancista, que não podia ser-se romancista sem ter nascido Cooper ou Sue. Nunca me contristei desta persuasão. Antes eu gostava muito de ter nascido na terra dos homens verdadeiros, porque, peço me acreditem, que os romances são uma enfiada de mentiras desde a famosa Astreia de Urfé, até ao choramingas Jocelyn de Lamartine.





Por consequência, diz o circunspecto leitor, vou-me preparando para andar à roda em um sarilho de mentiras. / Não, senhor. Este romance não é um romance: é um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado."




quinta-feira, 4 de agosto de 2011

john rawls e a filosofia moral



"A razão é vista como algo que prescreve incondicionalmente certas ações, ou ainda com referência a algum fim ulterior. Contudo, diz Sidgwick, é possível ver o ideal moral antes como algo que atrai, que determina um bom ideal a ser buscado, do que como um preceito, ou um imperativo, da razão. A acção virtuosa, ou a retidão na ação, é vista não como um preceito de uma razão imperativa, mas como algo bom em si mesmo, e não meramente como um meio para um bem ulterior."


Rawls






John Rawls - História da Filosofia Moral. org. Barbara Herman; Trad. Ana Aguiar Cotrim. São Paulo: Martins Fontes, 2005.


Introdução

A Filosofia Moral Moderna


Hume

A moralidade psicologizada e as paixões

A deliberação racional e o papel da razão

A justiça como virtude artificial

A crítica do intuicionismo racional

O espectador judicioso


Leibniz

O seu aperfeiçoamento metafísico

Os espíritos como substâncias ativas: sua liberdade


Kant

Fundamentação: Prefácio e Parte I

O imperativo categórico: a primeira formulação

O imperativo categórico: a segunda formulação

O imperativo categórico: a terceira formulação

A prioridade do justo e o objecto da lei moral

O constutivismo moral

O fato da razão

A lei moral como a lei da liberdade

A psicologia moral da Religião, Livro I

A unidade da razão


Hegel

Sua Rechtsphilosophie

Vida ética e liberalismo

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

da educação e da felicidade ii

Ophelia - "Litteratura. A Felicidade do Homem Comparada com a da Mulher". In Diário Ilustrado (26 Nov. 1892).

da educação e da felicidade


J. Severiano Pereira - "A Felicidade do Homem Comparada com a da Mulher". In Diário Ilustrado (26 Maio 1893).

josé saramago



JRS - Há uma faceta da sua escrita que é pouco explorada nas conversas que tiveram consigo, que é a questão da tradução - um tradutor é também, de certo modo, um escritor. E o senhor traduziu mais de sessenta obras. Escrever a ficção dos outros ajudou-o a tornar-se melhor escritor?


Saramago - Não, não ajuda nada! Ou tens a tua própria voz ou então não é o tempo que estás ocupado com uma voz alheia, o tempo que dura uma tradução, que te vai influenciar. Não, não é. Podes admirar aquilo que estejas a traduzir: o texto, o romance, o conto ou o que quer que seja. Mas não ao ponto de dizeres: vou fazer disto o meu modelo. Isso nunca me aconteceu.


JRS - Quando estamos a ler uma obra traduzida, estamos a ler o autor ou o tradutor?


Saramago - Eu creio que antes que chegue a essa tradução, já houve outra coisa que é a do próprio autor. O autor é um tradutor.


JRS - Em que sentido?


Saramago - Em que sentido? É alguém que traduz um sistema de sinais: emoções, pensamentos, eonhos, devaneios. Isso é um trabalho de tradução, porque tudo isso constitui uma linguagem que, se não encontrar uma forma comunicável de transmissão, fica cá dentro da cabeça de cada um de nós.