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quarta-feira, 30 de março de 2011

bernardino machado fragmentos políticos



apresento alguns pensamentos de bernardino machado, a propósito da publicação levada a efeito da câmara municipal de vila nova de famalicão, do museu bernardino machado e das edições húmus, do III volume, Tomo I da sua obra política, recentemente apresentado no mesmo Museu. Acima de tudo, o que seleccionei, reflecte o pensamento de Bernardino Machado em três frentes: por um lado, o ideário republicano - caso concreto do sufrágio universal, a lei do descanso semanal (que tanta polémica deu já no período republicano) ou ainda a lei da separação da igreja do estado, reflectindo machado, muito antes da existência da própria lei, sobre a independência da liberdade religiosa; por outro lado, o inimigo de sempre das ditaduras, aqui reflectindo o valor da liberdade em todos os seus aspectos, económico, religioso, cultural ou cívico. O terceiro aspecto que gostaria de focar é a relação que efectua entre a pedagogia, caso concreto da instrução, com a política, encontrando assim Machado a possível resolução de muitos problemas pedagógicos da sociedade portuguesa na política. Finalmente, nada como ler este Tomo dedicado à política de Bernardino Machado, que reflecte essencialmente a sua independência moral, em alguns textos que seleccionei podemos ler isso mesmo, e aqui está bem patente a sua coerência de pensamento, e, ao mesmo tempo, reflecte o grande projecto republicano, reescrevendo, ao lado dos seus pares, o mito de prometeu para uma sociedade melhor: podemos ler isso memso no texto que dedica ao descanso semanal. muito ainda há para se dizer e escrever; ficará para uma próxima oportunidade. finalmente, o que aqui se coloca hoje dedico inquestionavelmente ao dr. manuel sá marques, não poderia ser a mais ninguém, com um forte abraço de amizade fraterna.







  • "A corrupção política cada vez mais exaspera a paciência pública com os escândalos que sucessivamente vêm à supuração." (O Governo do Engrandecimento do Poder Real, 1894).



  • "A virtude também precisa de instituições que a celebrem, que a propaguem e defendam, e a Maçonaria é a grande ordem secular onde comungam quantos, sem distinção de crenças religiosas ou de opiniões políticas, lhe rendem um culto livre. / não somos um partido, nem uma seita. / Respeitamos todos os crentes sinceros. O sacrário em que cada um abriga o seu ideal de amor e de abnegação, é para nós inviolável. Queremos realizar o bem neste mundo, sem inibir alguém de crer na existência de um mundo melhor. O nosso templo não se levanta sobre os escombros de nenhum outro." (A Maçonaria Portuguesa, 1895).



  • "Duas forças sobretudo dominam o mundo, maiores que todas as outras, a liberdade, que é a maior força singular, e a sociabilidade, que é a maior força colectiva. Harmonizá-las, eis o problema. Unidas, dão a prosperidade e grandeza das nações e da humanidade; separadas, em conflito, , a sua decadência e ruína. E tão cindenável é a selvajaria licenciosa que atente contra os laços sociais, como a escravatura corporativa que sufoque as livres aspirações das almas. / Veja-se como o nosso tempo lhes presta indiviso culto. / O socialismo é um dos seus motes. É o termpo da maior sociabilidade. A sociedade tem estendido a sua assistência a todos, até aos mais miseráveis. Pode mesmo dizer-se que é o tempo dos infinitamente pequenos, tanto do mundo físico como do mundo moral. Da mais íntegra integração geral de todas as classes e de um imenso amor pelos fracos, pelos infelizes - povo, mulher e criança, enfermos e degenerados -, é que tem sido feita a arte, a indústria e a ciência, a moral e o direito, toda a riqueza e toda a bondade que se encerra nos tesouros da civilização hodierna. / Mas o nosso tempo é, conjuntamente, o tempo da liberdade. O liberalismo é o seu outro mote. Por toda a parte se arvora neste momento o pendão liberal. " (Pela Liberdade, 1901).



  • "Liberdade e sociabilidade são inseparáveis, uma é a condição e a lei suprema da outra. O progresso é, sobretudo, obra de cordialidade, mas é antes de tudo obra de independência, de hombridade. SEm liberdade, não há verdadeira sociabilidade. A tirania justapõe; mas recalca, destece, não socializa. O socialismo, revista a forma que revestir, leigo ou religioso, seja qual for o seu escopo, ou há-de ser liberal, organizar-se, liberrimamente, ou, mentindo ao seu nome, não passará de um absolutismo, condenado pelo seu vício orgânico a não atingir fim algum elevado e nobre. Os meiso não são indiferentes ao fim. Justiça, riqueza, poderio, só podem firmar-se inabalavelmente sobre a liberdade." (Pela Liberdade, 1901)







  • "Para que queremos, portanto, o descanso semanal? Para que o trabalhador possa robustecer-se, instruir-se, elevar-se, ser alguém, alcançar a plenitude da sua personalidade, para que deixe de padecer este martírio de conhecer que tem dentro de si a semente da verdade, do belo e do útil, e não poder vingá-la e não poder convertê-la em frutos que lhe deixem prelibar ao menos os prazeres da ciência, da arte e da indústria, que são os maiores que podemos sentir, depois do prazer supremo de fazer o bem. / Porque é, sobretudo, para que o homem possa fazer o bem, que reclamamos o descanso semanal." (O Descanso Semanal, 1904).



  • "Nenhuma causa mais justa do que o descanso semanal. Defendendo-o, as classes laboriosas defendem a sua vida, e não só a sua vida física, mas também a sua vida espiritual e, sobretudo, a sua vida moral." (O Descanso Semanal, 1904).



  • "O nosso tempo distingue-se de todos principalmente pelo seu humanismo. Nunca como durante o século XIX o homem foi tão humano para com todos, até mesmo para com os criminosos." (O Descanso Semanal, 1904).



  • "O descanso semanal aproveita não só a saúde do corpo, mas também a do espírito; queremo-lo no interesse do próprio trabalho, para se poder trabalhar mais e melhor. / Não há profissão nenhuma que ponha em jogo, em perfeito equilíbrio, desenvolvendo-as completamente, todas as nossas faculdades; todas as profissões mais ou menos as mutilam. E, se as faculdades feridas de abandono reagem quando pedem pela vida, sempre afinal acabam por se atrofiar." (O Descanso Semanal, 1904).



  • "Que vida espiritual levam as nossas classes trabalhadoras? Hão-de repetir incessantemente o mesmo trabalho, torturando, consumindo, mortificando não só oc orpo, mas o espírito também. / É indispensável que o empregado do comércio, como todo o operário, tenha horas e dias feriados, em que possa ir ver o nosso mar, as nossas montanhas, os nossos campos e arvoredos, em que possa pegar num microscópio ou num telescópio para admirar as maravilhas do mundo dos infinitamente pequenos ou dos infinitamente grandes, e, sobretudo, em que possa comunicar com as outras almas, frequentando uma aula, assistindo a uma conferência, lendo um livro, visitando os museus, indo a um teatro, a um concerto, etc. / São divertimentos? São exercícios espirituais igualmente necessários a todos." (O Descanso Semanal, 1904).



  • "Desde 1880, em que se celebrou o centenário de Camões, ao lado da velha liturgia eclasiástica, começou a formar-se entre nós uma nova liturgia cívica [...], uma nova religião foi despontando, humana, toda feita de cordialidade e de amor." (Os Actuais Partidos Políticos, 1904).



  • "Nada pior do que a ignorância em que os membros duma Nação estejam dos seus direitos e dos seus deveres. Nada mais necessário do que formar a opinião para que a opinião governe. Eis o auto intuito da educação cívica." (Formas de Governo, 1903).



  • "Sobre a ignorância e a miséria, a teocracia ergue-se então ousadamente contra o amor. Rompe todos os laços afectivos. Separa o homem da natureza, da família e da Pátria. Os laços de família são carnais, os laços da Pátria são mundanos, e a carne e o mundo, com o diabo, são os três inimigos da alma. E não se contenta de extinguir o amor, aonde os ódios dos seus sectários contra todos que não comunguem no mesmo credo, principalmente contra os bons, contra aqueles que pela virtude da sua atracção moral possam fundar sobre a terra uma nova religião, melhor, mais humana." (A Psicologia da Reacção, 1905).



  • "A maneira de operarmos a solidariedade e a paz na sociedade e operando o equilíbrio das nossas faculdades pela implantação, logo, no ensino, da tríplice liberdade, de amar, de trabalhar e de pensar." (A Psicologia da Reacção, 1905).



  • "O povo sente a necessidade de mar, de festejar os seus contemporâneos ilustres." (A Reforma, 1905).



  • "Entre os dirigentes, ninguém se importa com ideias. Não é isso que os liga." (A Reforma, 1905).




  • "Desde muito novo que trato as questões públicas sem ataques pessoais a ninguém, ressalvando sempre as intenções de todos; e expressamente o fiz outro dia no Salão da Porta do Sol. As discussões não são para se irritarem as dissidências, mas sim para as atenuarem e resolverem. Não julgo mal dos meus adversários, nem quando mais vivamente censuro os seus actos. Não levo mesmo o ardor das minhas convicções até ao absolutismo de pensar que sou eu só que tenho razão em tudo. Acima das opiniões partidárias ou individuais, há uma verdade humana superior, a que é preciso render culto." (Carta Dirigida ao Presidente da Associação Industrial do Porto, 1904).



  • "Nunca como nos últimos tempos o naturalismo foi tão dominante. Mas nem por isso a vida se materializou, antes hoje mais do que nunca a civilização é generosa, espiritual e idealista. Exemplo relevante da influência humanista e moralizadora do naturalismo é a higiene, cujos ditames cada dia mais se vão convertendo nas nações cultas em códigos de direitos e de leis." (Protecção às Mulheres e às Crianças, 1904).



  • "... defender a liberdade, porque só ela é a ordem, a paz e a segurança de todos os direitos." (O Neo-Liberalismo da Monarquia, 1906).



  • "A liberdade não é um dom de ninguém, conquista-se." (O Neo-Liberalismo de Monarquia, 1906).



  • "Seria um contra-snso que a lei de atracção, que é a lei dominante dos corpos brutos, não fosse também a dos que pensam e sentem. / Felizmente que não há acto das classes trabalhadoras que o não ateste. / As classes dirigentews, pelo contrário, afirmam em toda a parte o prestígio e a força dominadorta da lei da luta pela existência. / Essa luta afirmam-no elas no campo religioso, no campo económico e no campo social. / Uma religião que enlaça e prende corações, a religião da vida e do amor, bem conmtrária dessa outra de trevas e de morte." (Discurso na Associação dos Carpinteiros, na Figueira da Foz, 1904).



  • "E só nós, que somos a liberdade, somos também conjuntamente a ordem, porque a ordem, só pode comentá-la a justiça, que é a igualdade na liberdade, isto é, a liberdade recíproca para todos." (Aos Eleitores, 1906).



  • "Estudar, trabalhar, temperar o carácter, quem se importará com isso numa sociedade onde não são o saber e a dedicação, onde não são os méritos que seleccionam e elevam os homens no conceito dos seus cidadãos? (Ao País, 1906).



  • "... a paciência não é só a alma do saber, é também, quase sempre a alma da política. paciência não quer dizer tibieza. Pelo contrário, quer dizer pertinácia, esforço de todos os instantes. A paciência, a prudência, a união de todas as forças assegurar-nos-ão a vitória." (O Civismo do Povo Português, 1907)







  • "Não há senão um modo de aprender a vida política, é vivê-la; senão um de aprender a servir, é defendendo-a sempre em todas os lances, ainda os mais arriscados, de todos os postos, desde os mais humildes até aos mais elevados." (França e Portugal, 1906).



  • "... agravarem e multiplicarem ainda os desmandos que tanto já oprimem e angustiam a vida da Nação, se da lei de 13 de Fevereiro de 1896 continuarem a fazer na aplicação uma lei ainda mais acelerada do que ela é, se, contra lei, continuarem proibindo o direito de reunião, se continuarem igualmente a impor a censura prévia à imprensa e a apreender os jornais sem dar conta alguma das apreensões ao poder judicial, se continuarem a sindicar e a dissolver sem motivo as câmaras municipais, se continuarem a falsificar o recenseamento e a defraudar e a violar a urna eleitoral, se continuarem, contra a constituição, a encerrar e até a não convocar e reunir o parlamento, e continuarem, em suma, desafordamente a sobrepor a tudo o arbítrio, o capricho, a demência pessoal - Ai! - então tenham por certo que a revolução virá." (Aos Eleitores, 1906).

  • "... quem assim terá desafiado a revolução, não somos nós, são so nossos adversários." (Aos Eleitores, 1906).


  • "Só a liberdade é a paz, disse eu há tempos. Se amo a liberdade com tantoi fervor, é mesmo, sobretudo, por ser ela a única força de ordem e de paz, a única força verdadeiramente fraternizadora. E, por isso, nem no mais acesso das refregas, a minha cordialidade pelos princípios deixa de ser nunca a minha cordialidade pelos homens. Porque é que eu propago e defendo a causa republicana? Porque só a República é capaz, no actual momento histórico, de nos reconstituir uma Pátria, reunindo-nos a todos irmamente como numa só família." (A Discplina, 1907).


  • "Não pretendemos impor a ninguén a liberdade. O nosso ideal não é uma República imposta, amanhã pela força, pelo exército." (A Disciplina, 1907).




  • "Não há partido mais tolerante. Aqui têm o meu exemplo. Vim da monarquia. não solicitei do Partido Republicano nada, nem a inscrição do meu nome nos seus cadastros; mas tanto me identifiquei com ele, que todas as considerações ele me tem dispensado, até me elevar ultimamente à suprema dignidade de membro do seu directório. E não precisei para isso de quebrar a minha personalidade moral por quaisquer complacências. Continuo a ser o que sempre fui, um homem de ordem, de paz, a quem repugnam todas as violências, que quer o respeito de todos os direitos, e respeita no fundo de todos eles o direito de viver, mas decidido a caminhar sempre e ir sempre para a frente, custe o que custar, sem ódios,s em ameaças, mas também sem desfalecimentos, inexoravelmente, até à última extremamente aonde seja necessário ir para defender a liberdade, porque só ela é a ordem, a paz e a segurança de todos os direitos. Eu que, em monárquico, combati tantas vezes não só os meus adversários monárquicos, mas também os meus próprios correligionários e até colegas meus do ministério, eu que me esforço por ser bom, mas não à custa da minha independência, nem à custa de ninguém, e sou muito mais intransigente com aqueles a quem mais quero, adversários ou correligionários..." (O Neo-Liberalismo da Monarquia, 1906).


  • "Eleger ou não eleger, eis o problema político. Sobre a eleição se funda o governo liberal, como sobre o arbítrio se funda o governo despótico. Eleição e liberdade são irmãs. Por isso, de todos os governos o mais liberal é o republicano, que é o mais electivo. / Com o progresso do sufrágio, cresce a liberdade, com o retrocesso, decresce." (Eleições, 1906).


  • "Um povo indiferente pela eleição é um povo indiferente pela liberdade. / A questão religiosa, a questão económica e a questão política são fundamentalmente questões de eleição. / Que pretendemos em religião? Pretendemos que todos tenham o direito de escolher o seu culto; e, dentro do culto católico, que é o nosso culto tradicional, a que todos queremos muito, porque, ainda quando não seja o de alguns de nós, foi o dos nossos apis e é o de quase todas as nossas mulheres, pretendemos que à nossa igreja matriz e ao nosso seminário diocesano, governados pelos nossos párocos e bispos, da nossa escolha, porque são da escolha da nação, se não substituam as capelas e os noviciados de propaganda romana, , que as nossas misericórdias, irmandades e confrarias, de nossa eleição, se não substituam as congregações religiosas, adscritas passivamente à obediência de Roma, e não mesmo da Roma do papa branco, mas da Roma do papa negro. / Que pretendemos economicamente? Pretendemos que não os ricos, mas todos tenham direito à vida económica, podendo unir-se, associar-se cooperativamente para escolherem livremente os seus chefes, os seus mestres e directores; e que os que não tenham meios de trabalhar por sua conta, possam solidariamente debater pelos seus representantes os seus contratos de trabalho e por meio deles assegurar em tribunais de arbitragem o exacto cumprimento desses contratos. / Que pretendemos politicamente? Que todas as corporações até o estado sejam francamente electivas, dando-se a cada uma das nossas divisões administrativas, tanto da metrópole como nas colónias, a mais liberal autonomia." (Eleições, 1906).



  • "Custa a ter a liberdade política, porque é preciso ter primeiro a liberdade económica e a liberdade religiosa. / Mas, se é certo que, nos indivíduos como nas sociedades, a nossa opinião depende muito dos nossos interesses como das nossas paixões, não é menos certo recirpocamente que, desde que a razão se desenvolve, tende a ser predominante. O poder político vai cada vez mais regulando e garantindoa liberdade económica e a liberdade religiosa das nações. A questão económica e a questão religiosa têm de ser decididos superiormente por ele. Daqui a suprema importância da eleição política. É necessário que todos, não só os que têm uma opinião sobre as coisas públicas s sustentar, mas também os que têm interesses gerais a defender e sentimentos de fraternidade a salvaguardar, apelam para ela." (Eleições, 1906).



  • "Tomemos, republicanos, todos nós, sem excepção de ninguém, o nosso posto de combate. / primeiro de tudo, a reivindicação do sufráfio universal." (Eleições, 1906).


  • "A constituição define a nação, a associação política de todos os cidadãos portugueses. Sem o sufrágio universal, é falso." (Eleições, 1906).



  • "Nós queremos a plena liberdade de cultos, portanto, a liberdade de associação religiosa, mas sem que dentro de nenhuma se professem votos que sejam a anulação da própria liberdade. E, como respeitamos todas as crenças, não queremos que nas nossas escolas se obriguem os nossos filhos a nenhum catecismo nem a nenhum juramento confessional, e tão pouco queremos que se desnature a missão civilizadora, moralizadora, que nos compete sobre as raças incultas das possessões ultramarinas confiadas à nossa guarda, convertendo-a numa missão sectária, fanática, de propagação da fé ultramontana de nenhuma igreja. O estado, que é a grande associação onde se reúnem todos os crentes da nação, das mais diversas confissões, a todos deve respeito e protecção, mas só uma religião pode e deve ter sua própria, que é a do bem, da fraternidade, da assistência pelos humildes e pelos infelizes." (Aos Eleitores, 1904).





  • "... eu não estou passivamente dentro do Partido Republicano, deixando-me arrastar pela onda que passa, eu luto e lutarei sempre dentro dele, contra o mal - que, sejam quais forem as formas que revista, é sempre a ditadura, o desmancho dos chefes - porque não é só na sociedade portuguesa que os dirigentes valem muito mais que os dirigidos, também no partido Republicano, apesar de todo o meu apreço por tantos seus dirigentes, que são os grandes mestres da democracia, as virtudes cívicas brilham para mim, sobretudo, no povo republicano. A superioridade mesmo do nosso partido vem disso, de ser o único partido do povo." (O Neo-Liberalismo da Monarquia, 1906).

domingo, 28 de março de 2010

Bernardino Machado

Não queria deixar passar esta data (o nascimento de Bernardino Machado) sem deixar de dar por aqui um grande abraço fraterno e de amizade ao Dr. Manuel Sá Marques com esta notícia das comemorações do centenário do seu avô em Famalicão, a conferência de António Ramos de Almeida no Olímpia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

obras bernardino machado, república centenário


A Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, o Museu Bernardino Machado e as Edições Húmus, sob a coordenação científica do Prof. Dr. Norberto Cunha, vão apresentar brevemente ao público o II tomo de Pedagogia, incorporado nas Obras de Bernardino Machado, sendo este volume o terceiro. Este II Tomo, dedicado uma vez mais à pedagogia de Bernardino Machado, é composto pelas "Notas dum Pai", texto publicado inicialmente na revista do Instituto de Coimbra entre 1896 até 1903 (Oliveira Marques dá-nos até ao ano de 1899), a 1.ª edição, que é de 1896 (as "Notas dum Pai" tiveram cinco edições!) e a introdução da 3.ª. Não resisto em aqui transcrever algumas frases de Bernardino Machado. Pretendo elaborar um texto que tem como título "a Temporalidade e o Catálogo das Virtudes e dos Vícios na Filosofia Prática de Bernardino Machado".



A ciência universal é a filosofia.


Parece que seria ocioso proclamar a educação real.


A educação prática ainda se abandona mais do que a real!


O mesmo indivíduo ou o mesmo povo pode mudar com o tempo: é o resultado da educação.


Há que fazer a sua educação real.


A vida, que para muitos se afigura de descanso, sem trabalho exterior, é um martírio.


Lembromo-nos de que o bem é preciso fazê-lo.


As propriedades do espírito chamam-se faculdades e, sendo de carácter, qualidades.


A educação intelectual deve ser, a um tempo, intuitiva e discursiva. Não se prejudique uma por outra. O excesso de erudição cria os eruditos.


A instrução intuitiva ainda mal chegou ao nosso ensino geral primário e secundário; e pouco mesmo ainda se dá no ensino superior.


À falta de instrução é que muitas pessoas, pelo gosto de pensar, se entretêm com frivolidades.


Ter um ideal é ter a paixão, a ambição, gerada por uma ideia.


A curiosidade é uma espécie de simpatia: volta-nos com benevolência para tudo e todos.


A serenidade é própria só dos previdentes.


Quem tem um ideal, faz dele um destino.


A educação deve acelerar a emancipação individual.


A harmonia dos espíritos é a mais delicada obra da civilização e da cultura.


Não se pode fazer moral sem convivência, sem sociabilidade. O isolamento é um mal.


A virtude transmite-se sob a forma de instinto da ordem e do bem.



Bernardino Machado



rogério fernandes amigo de bernardino machado

Público (5 Mar. 2010), p. 32

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

o caso da secretária de bernardino machado


para o dr. manuel sá marques (neto) e o eng. antónio luís (bisneto), ambos descendentes de bernardino machado. com um grande abraço de amizade. a secretária encontra-se actualmente em casa do bisneto de bernardino machado, eng. antónio luís. a fotografia com bernardino machado foi-me enviada pelo dr. sá marques, tirando a foto da 1.ª secretária.







terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

a bengala oficial de bernardino machado

para o sr. eng. antónio luís, bisneto de bernardino machado, esta simples homenagem














segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

rocha peixoto e bernardino machado

para o coordenador da biblioteca municipal rocha peixoto, póvoa de varzim, com um abraço de amizade eterna, manuel costa



1. Por decreto de 21 de Dezembro de 1893 foi afinal determinada a criação de um Museu Etnográfico Português, compreendendo uma secção arqueológica.

Rocha Peixoto - "Antiguidades Nacionais". In A Terra Portuguesa: crónicas científicas. 2.ª ed. Introd. João Francisco Marques. Póvoa de Varzim: Câmara Municipal, 2009, pp. 54-55.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

os republicanos famalicenses e bernardino machado: 1915 - I

Para o Exmo Sr. Dr.º
Manuel Sá Marques
com admiração, cordialidade, respeito e amizade

Introdução

1915

O ano de 1915 é, fundamentalmente, um ano crucial para Famalicão e os famalicenses devido a dois acontecimentos: um, pela eleição de Bernardino Machado ao mais alto cargo da nação portuguesa, o de ter sido nomeado Presidente da República; o outro, por uma tragicidade, o incêndio na Casa de Camilo. Indiscutivelmente. Foram dois acontecimentos que marcaram, de uma forma ou de outra, o presente e o futuro da então vila de Famalicão.
Paralelamente à eleição de Bernardino Machado, e da sua visita a Famalicão, como bem o demonstra e salienta o jornal "Estrela do Minho" do republicano famalicense adoptivo Manuel Pinto de Sousa, a vila de então ía recebendo a visita de outros não menos ilustres famalicenses, uns por adopção, outros por naturalidade. Neste último caso, destaco inquestionavelmente o único artista circense de Famalicão, o mais do que famoso Serafim da Silva, que então preparava na Boa Reguladora a construção de um novo aparelho para um novo trabalho, denominado Velódromo Aéreo, de Augusto Soucasaux, famoso fotógrafo barcelense, mas com raízes famliares ligadas a Famalicão, chegando a realizar a primeira colecção de postais famalicenses editados pela Tipografia Minerva. Gonçalves Cerejeira, então "distinto académico", o futuro cardeal, também por cá andou, Joaquim Pacheco, na época co-proprietário do jornal portuense "O Primeiro de Janeiro, tal como o senador Daniel Rodrigues também para cá vinha para a sua quinta de Santa Cristina, em Requião. 1915 é também um ano fulcral para Álvaro de Castelões, na medida em que é nomeado Director dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro.
Na cultura, enquanto que Emília de Sousa Costa iniciava a sua colaboração no jornal "Estrela do Minho", acentuando-se esta mesma colaboração nos anos quarenta e cinquenta, Vicente Arnoso publicava "Cantigas... Leva-as o Vento", Sebastião de Carvalho publica um dos livros já mais do que canonizado na literatura famalicense "Rosas da Minha Terra", Nuno Simões "Gente Risonha", Eduardo José da Silva Carvalho "Questões e Julgamentos". Por seu turno, enquanto que por terras do oriente Manuel da Silva Mendes, o "anarquista" famalicense, que se encontrou no taoísmo, publicava na imprensa macaense "A Pintura Chinesa", o então nomeado Presidente da República Bernardino Machado oferecia aos seus leitores, nada mais nada menos, do que três títulos: "O Exército e a Nação", "Nas Vésperas da República" e "Contra a Ditadura", referindo-se particularmente à ditadura de Pimenta de Castro, o qual tinha convidado para o seu ministério o famalicense Júlio Brandão, que recusaria, possivelmente, mais do que por razões pessoais ou de saúde, pela amizade que tinha com Machado.
Finalmente, não menos importante, foi o ampliamento do Salão Olímpia para a realização da actividade teatral, enquanto que nas festas populares o S. Pedro primava, em detrimento de S. António...


Fonte: Museu Bernardino Machado


“Eleição Presidencial”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1035 (1 Ago. 1915), p. 2.

Dentre os nomes dos candidatos à Presidência da República, cuja eleição se realizará em sessão conjunta do Congresso no dia 6 do próximo mês de Agosto, de novo se citava ontem com bastante insistência o do sr. Duarte Leite, actual embaixador de Portugal no Rio de Janeiro. / Não pode prever-se, é claro, o resultado da eleição presidencial, que bem pode dar-nos uma surpresa, à última hora; mas pelo que é lógico supor-se, são os nomes do dr. Bernardino Machado e Duarte Leite os que até agora se presume com maiores probabilidades de serem eleitos.


“Presidente da República”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1036 (8 Ago. 1915), p. 1.

Acaba de ser eleito presidente da República Portuguesa o sr. Dr. Bernardino Luís Machado Guimarães, egrégio professor, que à causa da República prestou o mais inteligente esforço. / É o eminente estadista quase nosso conterrâneo, pois em casa de seus pais aqui residiu e passou o melhor tempo da sua mocidade. Por isso Famalicão se orgulha desvanecidamente por ver um seu filho ilustre ascender às culminâncias de primeiro magistrado da nação. / Saudamos o grande cidadão português a quem nos quatro anos futuros estão confiados os destinos da pátria. / Mas não pode negar-se que o país tem disso enormemente prejudicado com as incursões realistas, pelas intentonas, e ainda pelas dissidências deploráveis entre os próprios republicanos. / Por isso nestes cinco anos tem estado entravado o programa da República. / Agora é indispensável que a lição dos factos passados traga a todos os espíritos intuitos de política serena para tratarmos todos do rejuvenescimento do país pelo trabalho. / Tem sido de sobressalto e de incertezas os cinco anos decorridos das instituições republicanas. Explica-se, é certo, o facto. Seria óptimo, que após o advento da República, todos os portugueses esquecessem divergências e se dessem as mãos para a obra pacificadora, iniciando esta […] as grandes reformas económicas que as necessidades da nação reclamam. Todas as revoluções deixam, por muito tempo ainda, os rastos dos dissídios políticos que provocavam o choque revolucionário. / Ao Dr. Bernardino Machado está destinada a honrosa mas difícil missão de pacificar a família portuguesa. / Se o eminente cidadão o não conseguir, conhecidos os seus grandes recursos conciliatórios e diplomáticos, a ninguém, por certo, será dado o prazer de prestar à família portuguesa o mais alto benefício que na hora histórica que atravessamos é lícito ambicionar. / Exigem-no o progresso e felicidade da nação e também o prestígio e consolidação da República.

“Hóspedes Ilustres”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1036 (8 Ago. 1915), p. 2.

Estão há dias na sua quinta de Rorigo a Exma. Esposa do sr. dr Bernardino Machado, seu filho Miguel Machado, distinto engenheiro, com alguns dos seus irmãos. /É esperado também ali, com alguns dias de demora, o exmo. sr. dr. Bernardino Machado, ilustre Presidente da República, que hoje conta seguir para a estância de Pedras Salgadas.

Fonte: Museu Bernardino Machado

“Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1037 (15 Ago. 1915), p. 1.

É esperado na sua casa desta vila, em Rorigo, o ilustre Presidente da República eleito sr. dr. Bernardino Machado. / Famalicão orgulha-se com a presença do seu iminente conterrâneo, que em Outubro vai tomar o honroso lugar de Chefe da Nação Portuguesa. / No estrangeiro, como em todo o país a eleição do novo Presidente da República tem disso recebida com agrado. / Segundo consta, no dia em que o sr. dr. Bernardino Machado tomar posse do cargo do Presidente da República, o que será feito com toda a solenidade, no dia 5 de Outubro, haverá parada militar, um grande jantar no palácio de Belém, para o qual será convidado o corpo diplomático, um grande bodo a todas as crianças pobres protegidas pelas juntas de paróquia, e uma tourada nocturna.

“Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1038 (22 Ago. 1915), p. 1.

Honra Famalicão com a sua presença, há alguns dias, o nosso ilustre conterrâneo e prestigioso presidente da República eleito, Sr. Dr. Bernardino Machado. / Tem vindo cumprimentado grande número de pessoas de Lisboa, que andam em excursão pelo Minho, outras do Porto, Braga e de Barcelos. / O sr. Marquês de Palamares, presidente da «Institucion Libre de Enseñanza», escreveu de Santander ao sr. dr. Bernardino Machado, em nome da mesma corporação, uma carta de calorosas felicitações pela sua eleição à presidência da República. Nessa carta lê-se o seguinte: / «Ao felicitar v. ex.ª, felicitamos também o país irmão que soube, em ocasião tão crítica, eleger para o representar quem, como v. ex.ª, reúne as maiores qualidades. Para nós, alunos da «Institucion», recordando sempre e em todos os momentos o nosso amado mestre D. Francisco Giner, a eleição de v. ex.ª para a direcção moral desse país a que ele tanto queria, traz-nos inúmeras recordações e faz-nos pensar no imenso prazer que ele teria sentido ao conhecer este facto.» / O sr. dr. Bernardino Machado também recebeu um telegrama de felicitações do sr dr. Ferreira Botelho, director e proprietário do «Jornal do Comércio» do Rio de Janeiro.
“Trabalhar… Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1038 (27 Ago. 1915), p. 1.

Está em Famalicão há alguns dias, o presidente eleito da República Portuguesa, o que nos apraz registar com desvanecimento. / Em Famalicão brincou a sua mocidade o professor eminente da Universidade de Coimbra, em cuja cátedra conquistou a admiração de nacionais e estrangeiros.
Deputado e ministro da monarquia, o Dr. Bernardino Machado descrente por essa instituição do levantamento do povo português, abraçou o partido republicano, do qual foi um dos apóstolos mais inteligentes e entusiastas, constituindo decisivamente para a implantação da República em 1910. / Fez parte do governo provisório, por ser um dos republicanos mais queridos do povo e todos conhecem a forma inteligente e patriótica como o grande estadista soube fazer reconhecer e respeitar pelas grandes nações a nascente República Portuguesa. / Foi o primeiro embaixador de Portugal na grande nação irmã do outro lado do Atlântico, O Brasil, por ser a mais autêntica figura para o entendimento entre os dois povos da mesma raça. / Quando os partidos, em acesa luta, menos se entendiam, foi o Dr. Bernardino Machado chamado a Lisboa para tomar conta do poder, conseguindo acalmar os dissídios políticos que tanto estavam prejudicando a nação. / Finalmente, na eleição presidencial deste mês, quase por unanimidade de votos é o Sr. Dr. Bernardino Machado eleito Presidente da República, o primeiro magistrado da nação portuguesa.
Felicitando a nação pela acertada escolha dos seus representantes, Famalicão muito se ufana com orgulho, por ser o berço do Sr. Dr. Bernardino Machado.


“Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1039 (29 Ago. 1915), p. 1.

O sr. dr Bernardino Machado, presidente eleito da República, recebeu de sir Artur Hardinge, antigo ministro de Inglaterra em Lisboa e actualmente embaixador em Madrid, a seguinte carta:
«É com uma viva satisfação que recebi a notícia da eleição de v. ex.ª à presidência da República, e peço-lhe que aceite por esta ocasião as minhas cordeais felicitações. Conservarei sempre a mais grata lembrança do acolhimento que v. ex.ª me dispensou logo após a minha chegada como ministro a Lisboa, e das horas tão agradáveis e cheias de interesse que tive o prazer de passar no seio da sua família. Desejo de todo o coração que o belo país onde v. ex.ª acaba de ser chamado a desempenhar a suprema magistratura, e do qual trouxe para sempre uma indelével recordação, goze dias felizes e prósperos e que as relações que há tantos séculos o unem ao meu se vejam cada vez mais estreitas e solidárias.»
O sr. Dr. Bernardino Machado tem continuado a receber felicitações das câmaras municipais de todo o país, tanto do continente como das colónias, além de muitas cartas do estrangeiro.
Fonte Museu Bernardino Machado

“Noticiário. Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1039 (29 Ago. 1915), p. 2.

Partiu segunda-feira para Paredes de Coura o sr. Dr. Bernardino Machado, que tem estado na sua casa desta vila. / O ilustre presidente eleito da República tenciona seguir dentro de poucos dias para as Pedras Salgadas ou Vidago.

Fonte Museu Bernardino Machado

“Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1040 (5 Set. 1915), p. 2.

Está em Melgaço, para onde partiu há dias, o ilustre Presidente eleito da República e nosso distinto conterrâneo sr. dr. Bernardino Machado. / A família do nosso eminente patrício partiu há dias para a sua casa de Paredes de Coura.

“Presidente da República”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1041 (12 Set. 1915), p. 1.

Dizem os jornais que as Câmara Municipais de muitos concelhos do país tencionam ir a Lisboa assistir à posse do eminente estadista eleito para a suprema magistratura do país. / Tudo merece o grande cidadão; e sendo Famalicão a sua terra, a nossa Câmara não deixará também de prestar esta homenagem ao sr. dr. Bernardino Machado, cujas altas qualidades muito honram a nossa terra, onde o iminente cidadão passou o melhor tempo da sua mocidade.

“Noticiário. Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1042 (19 Set. 1915), p. 2.

Está em Moledo, de onde parte muito breve para Lisboa, o sr. dr. Bernardino Machado, presidente eleito da República, de cujo elevado cargo vai tomar posse em 5 de Outubro próximo.

Fonte Museu Bernardino Machado

“Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 19, n.º 1043 (26 Set. 1915), p. 2.

Passou sexta-feira da sua Casa de Moledo, em direcção a Lisboa, onde vai em 5 de Outubro tomar posse da presidência da República, o sr. dr. Bernardino Machado, nosso ilustre conterrâneo.
Maria Feyo – “O Sr. Dr. Bernardino Machado”. In Estrela do Minho. Ano 21, n.º 1044 (3 Out. 1915), p. 1.

Dentro em dois dias, vai assumir o melindroso cargo de chefe do Estado o sr. dr. Bernardino Machado. E ser chefe duma Nação, é o mesmo que investir-se das graves responsabilidades de chefe de uma família numerosa, com todos os deveres de zelar pelas garantias do seu bem-estar moral e material. Não apreciarei o sr. dr. Bernardino Machado através da política. Sou uma revoltada contra todos os efeitos dessa praga desordeira das sociedades. Se em tese concordo que ela é um meio próprio ao funcionamento da constituição social das sociedades de hoje, na prática observo e deploro a sua acção destruidora, armada de mentira e adulação, aviltando caracteres, degradando consciências e incensando ídolos que muitas vezes são os Judas da Pátria e as sanguessugas do povo. É pois somente como chefe de família que me referirei ao futuro chefe da Nação, porque é essa a feição mais simpática e que mais admiro no sr. dr. Bernardino Machado. Muitas vezes tenho tido ocasião de me enternecer diante do espectáculo, que às horas da refeição frugal e precipitada que sua Ex.ª tomava quando Presidente do Conselho, toda a família o rodeava numa efusão de sugestiva ternura. As filhas do sr. dr. Bernardino Machado, que uma graciosidade modesta e simples reveste de atraente e especial encanto, abraçavam e beijavam à porfia, numa tocante expressão de amor, o Pai que, a seu turno, distribuía carícias e carinhosas palavras a esse bando alegre que representa a gentileza da mocidade em flor. Era então que, liberto do contacto dissolvente das paixões políticas, sobressaía a nobre feição do patriarca, e que entre o bafejo imaculado da candura, da bondade e da graça espontânea e juvenil a sua figura de ancião, viril e insinuante, incarnava a mais bela expressão da vida que se condensa no santo e puro amor da família.
Michelet

Michelet dizia que todos os estadistas, ou dirigentes de uma Nação, deviam ter uma família bem organizada e onde reinasse a paz e a alegria, a delicadeza de sentimentos que exercesse o seu influxo retemperante e suave no carácter do homem em contacto com as asperezas rudes e violentas dos combates políticos. / […] /A família é afinal o reflexo da sociedade. Mas para que ela seja o que deve ser, é preciso que a mulher seja na família o que tem sido a Esposa do sr. dr. Bernardino Machado. Respeitada e amada como senhora de pensamento e acção, ela tem sido a direcção da casa administrada com o tino e a energia que dispensam seu marido de agravar as fadigas políticas com outros encargos domésticos. Estas circunstâncias deve prender a atenção do chefe de Estado para o grave problema da reabilitação feminina. Napoleão 1.º afirmava que os males da França provinham da falta de educação da mulher, ocasionando a falta de boas mães. Mas não pode haver boas mães enquanto não se pense a sério no papel importante que a mulher tem de exercer na sociedade e se lhe reconheçam e respeitem as qualidades de valor, que não se revelam porque uma desumana repressão a converte em revoltada. Que o chefe do Estado assim o compreenda. E que na atmosfera doce e criadora do amor de família, o seu espírito se ilumine de generosos reflexos para ser dentro de uma obra de concórdia, de bondade e de progresso. Um bom chefe de Estado como tem sido bom chefe de família.



quinta-feira, 1 de outubro de 2009

bernardino machado e a pedagogia


Apresentação pública do 2.º volume das Obras de Bernardino Machado, Pedagogia, Tomo 1, no próximo dia 5 de Outubro às 18h00 no Museu Bernardino Machado (V. N. de Famalicão), numa co-edição da Câmara Municipal de Famalicão/MBM com a editora Húmus. Integra-se a apresentação no âmbito das Comemorações da Implantação da República.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

os monárquicos famalicenses e bernardino machado



"Novo Presidente". In A Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 63 (9 Out. 1915), p. 1.


Está o sr. dr. Bernardino Machado investido na Chefia do Estado. / Isso não nos supreende, como de resto não supreender ninguém. / Era de esperar que S. Ex.ª visse, afinal, satisfeitas as suas aspirações de sempre, e só admira que o sr. dr. Manuel de Arriaga tivesse subido primeiro do que ele à Suprema Magistratura do país, quando a S. Ex.ª chamavam já El-Presidente in ello tempore, naqueles tempos felizes de propaganda, porque tantos republicanos suspiram já, e em que os apóstolos tratavam de construir a torre de bogalhos das suas fantasias, que o sopro da realidade tão depressa lançou por terra e pôs em farrapos. / E melhor seria para o sr. dr. Bernardino que a sua vez não tivesse ainda chegado. Bem preferível lhe seria continuar a viver de ilusões, do que ter de conhecer as dificuldades do lugar, os espinhos da missão. / Por en quanto tudo são festas, os acordes suaves da Portuguesa a embalá-lo num sonho de quimeras; o fogo, as iluminações, os cumprimentos, os abraços, as chapeladas, os sorrisos e as felicitações que surgem de todo o lado; as palmas, os vivas e as aclamações; o brilho dos cristais, o espumar do champagne e o entusiasmo dos brindes nos banquetes, todas essas homenagens de que tem sido alvo, em que haveria certamente muita sinceridade mas a que não faltamrem também muito beijos de judas, muita hipocrisia, , dando-lhe certamente a impressão, neste momento, de que tudo caminha num mar de rosas, que a sua felicidade e a do país, a paz, a ordem e a tranquilidade, o equilíbrio das finanças e o progresso nacional, está tudo ali fechadinho na palma da sua mão. / Já sucedeu o mesmo com o sr. dr. Manuel de Arriaga, que recebeu as mesmas provas de consideração e respeito, os mesmos protestos de sujeição e obediência, quando subiu. E o resultado viu-se. A breve trecho as flores da festa tinham murchado e os espinhos principiaram a surgir, vivos como punhais, rasgando o coração do pobre velho, que esgotados todos os meiosmde conciliação, amargurado e desiludido, teve de renunciar, por entre o desprezo e as ingratidões dos mesmos que o tinham aclamado. /Por enquanto vem vai o novo Chefe do Estado. São tudo ovos da Páscoa. Estão, por asim dizer, nos primeiros dias da lua de mel. / O pior é o reverso da medalha quando as desilusões vierem, as flores murcharem e os espinhos surgirem, as desinteligências partidárias romperem de novo e a desarmonia social voltar a manifestar-se. / O povo, aquele povo que cerca o novo Presidente, e que há-de ser o que mais lhe há-de aguar a sua gerência, assemelha-se aos criados de servir. A princípio fazem todas as vontadinhas dos amos, obedecem-lhes cegamente, não há ordem que não cumpram alegres, desejos que não satisfaçam de sorriso nos lábios. Mas, a confiança vem, o respeito desaparece, e às duas por três principiam os criados a falar mais alto do que os amos, a contrariá-los, a desgostá-los, a indispô-los, e quem até aí se julgava senhor passa muitas vezes a ser escravo da vontade dos outros, até que a paciência se esgota e se põe termo a semelhante situação. / E lá se perdem, lá se vão por a´gua abaixo os melhores propósitos, os mais patrióticos desejos de acertar. / O sr. dr. Bernardino Machado pode ser um espírito conciliador, com a maior vontade de modificar a situação da República. Há-de sucumbir, como sucedeu ao sr. dr- Manuel de Arriaga, certamente animado dos mesmos propósitos e revestido das mesmas qualidades. / A educação do povo rfepublicano não é hoje melhor do que há quatro anos. Antes pelo contrário. Por isso, quanto mais baixo lhes falar e mais manso se lhes mostrar o sr. dr. Bernardino Machado, mais eles lhe falarão e mais arrogantes os terá ver.




"Novo Presidente". In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 54 (7 Ago. 1915), p. 1.


Está eleito o novo Chefe de Estado. Entre todos os que se propunham ao sufrágio venceu o sr. dr. Bernardino Machado, que já vinha fazendo tirocínio para o lugar desde os tempos da monarquia. / Para nós, a quem o facto nada interessa, pouco importa que tivesse saído eleito Pedro ou Paulo, Sancho ou Martinho, e nem sequer registaríamos o resultado se o caso se nos não prestasse à maravilha para sobre ele bordarmos ligeiras consideraçoes. / Não iremos na corrente dos que despejam sobre o novo Presidente toda a casta de insultos, vendo na sua escolha um perigo para a Pátria, como se o Chefe do Estado, que preside mas não governa, pudesse influir ou modificar a situação política, concorrer para que a República, arripiando caminho, deixasse o beco sem saída em que se meteu, para entrar na estrada larga do Direito e da Justiça de que se desviou logo ao nascer, como criança que, perdida num deserto, se vê cercada de feras que acabam por a devorar. O povo, numa daquelas sentenças que a lição dos tempos lhe ensinoi, como dizer. como máxima infalível, que quem torto nasce tarde a mal se endireita. / Não salientaremos também a incoerência dos que, não gostando do sr. dr. Bernardino, ajudaram, no entanto, a elegê-lo com o seu voto, só porque essa era a vontade do sr. Afonso Costa, tornado cacique política numa eleição que afinal já nasce com os mesmo defeitos que têm desmoralizado o sistema constitucional, que seria realmente o melhor se os homens o não estragassem. Quando oe xemplo vem assim do alto, aparecendo vontades que se impõem, opiniões que se fazem respeitar e homens que para não desobedecerem às ordens dos chefes, para cumprirem os desejos ou os caprichos dos seus senhores, calcam os ditames das sua consciência e vão votar no candidato que mais prjudicial acham aos interessas da nação; quando para a eleição de Chefe de Estado, em que só têm votado os grandes da política. se procede desta maneira, nós queremos que nos digam que juízo podem fazer de tudo isto os pequenos, os que, pelas suas condições de vida ou pela sua pouca cultura não podem ou não sabem firmar a sua opinião, e se eles amanhã não têm razão para se deixarem ir com quem mais lhes der ou prometer. / E nós podíamos perguntar aqui ao senador local, sr. Sousa Fernandes, se o homem que agora ajudou com o seu voto a elevar à suprema magistratura do país, não será o mesmo que há um ano, o máximo, o fez quebrar a pena com que vinha defendendo a República para se refugiar ferido e amado ma sua quinta de Mões. / Mas o resultado da eleição, bom ou mau - os republicanos que o digam - não nos interessa, co mo não interessa ao país. / Quando muito, pode ser uma festa de família, se não for antes um motivo de novas cisões, de mais lutas, talvez de novas revoluções. / Para os interesses da Pátria, para a paz interna, para a consolidação da República, tanto vale a cordealidade do sr. dr. Bernardino, como valeria o génio de Guerra Junqueiro, a diplomacia de Duarte Leite, a aristocracia de Braamcamp Freire ou a democracia de Correia Barreto. / Se levar até ao fim o seu mandato, não lhe sucedendo como ao sr. Arriaga que o não pode concluir, ao abandonar o lugar há-de reparar que deixa tudo como dantes, ou mais baralhado do que dantes, em política, como em finanças, em ordem como em administração. / Ora, sendo assim, como é, traduzindo a eleição a vontade do país, mas os desejos do sr. Afonso Costa, e não podendo o chefe de Estado influir na vida política e financeira do país, sempre queríamos que nos dissessem onde está a vantagem de termos um Presidente em vez dum Rei. As desvantagenshá-de mostrá-las esta eleição.



"Retalhos. O Mais Ilustre Filho de Famalicão". In Gazeta de Famalicão. V. N. de Famalicão, Ano 2, n.º 64 (16 Out. 1915), p. 1


Era assim que a Câmara chamava ao sr. dr. Bernardino Machado, nos convites que fez distribuir para a manifestação de segunda-feira. / Quanto a ilustre, que não é propriamente a mesma coisa que ilustrado, não foi ainda ressalvado aquele problema que «À Nação» propôs sobre a linhagem de S. Ex.ª, nbem nos parece que um regime democrático deve preocupar-se com o sangue azul dos seus chefes: quanto a ser filho desta terra, lembramos à Câmara que S. Ex.ª é tanto nosso conterrâneo como o seu presidente, pois segundo documentos autênticos que os próprios jornais republicanos têm trasladado, o chefe do Estado de Portugal nasceu no Rio de Janeiro em 28 de Março de 1851 e, quando já aluno da Universidade de Coimbra, ainda S. Ex.ª se considerava carioca, tendo nessa qualidade, assinado uma mensagem de congratulação que os estudantes brasileiros a entregavam ao monarca do seu país, quando D. pedro II visitou Coimbra. / A não ser que a Câmara queira concluir como a «Estrela do Minho» que S. Ex.ª é nosso conterrâneo porque passou a sua mocidade em Famalicão./ De maneira que o director da «Estrela», que veio também em rapaz para Famalicão, deixou por esse facto de ser natural de Vilar de [Macada] para passar a ser nosso conterrâneo também! / E ele fala como se realmente o fosse... Ele o o sr. presidente da Câmara...


quarta-feira, 19 de agosto de 2009

portugal

i)
São áridos e tristes os dias que vão decorrendo. Chega às vezes a parecer que não há em Portugal lugar para os homens de bem, e que eles se acham para aí reduzidos a um ignominioso proletariado da virtude, condenado também, por falta de trabalho, a emigrar ou a morrer.
ii)
...ainda mal se ensina a ensinar.
iii)
O ensino é uma direcção, um governo.
iv)
Um ensino sem elevação patriótica, jurídica, falta à sua missão; assim como um governo que se impõe pela violência e corrupção, e não pela confiança que inspira, pelos serviços que presta e pela propaganda da verdade dos seus princípios, é indigno de tal nome.
v)
... ensinar é uma função social, é obra de assistência, de dedicação, de sacrifício. O magistério é um sacerdócio; o professor, o sacerdote.

Bernardino Machado

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bernardino Machado, Pedagogo

A Educação deve ser rasgadamente liberal.

A Educação deve acelerar a emancipação individual.

O amor da liberdade é a forma sublime do amor-próprio; porque é o amor da nossa integridade para o bem.

Bernardino Machado
I


Retomo, em parte, o título que Joaquim de Oliveira (professor, colaborador assíduo no Estrela do Minho, principalmente nos anos quarenta e princípios dos cinquenta do século passado e um dos divulgadores do Neo-Realismo em V. N. de Famalicão) no citado jornal famalicense publicou em 8 de Abril de 1951 (ano do Centenário de Nascimento de Bernardino Machado), a propósito do pensamento pedagógico do republicano famalicense, o qual, em muitos aspectos, é pioneiro. Veja-se dois casos concretos: o primeiro que posso salientar diz respeito à descentralização educativa, na qual Machado pretende promover a responsabilidade educativa para as autarquias, ao nível do ensino infantil, primário e secundário; por seu turno, o segundo diz respeito a algumas das suas ideias, aqui mais teóricas do que organizativas (como é o caso do primeiro exemplo), particularmente no ensino social, retomado este por este António Sérgio.


Vem isto a propósito da publicação da Obra Pedagógica que a Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e o Museu Bernardino Machado (dirigida e coordenada pelo Prof. Dr. Norberto Cunha, coordenador científico do mesmo Museu) prepara para este ano. Compreendida em três tomos específicos, o primeiro terá textos publicados por Machado entre 1882 a 1896, o segundo será constituído pelas Notas Dum Pai, principalmente com a Introdução da 3.ª edição, o referido texto que publicou na revista de Coimbra O Instituto entre 1896 a 1903 (aliás, Oliveira Marques refere-se apenas à colaboração de Machado até 1899), e, finalmente, o terceiro, que compreende textos publicados entre 1897 a 1930.


Refira-se igualmente que no espaço temporal de 1896 a 1903 Bernardino Machado publicou, nada mais nada menos, do que cinco edições das Notas Dum Pai (1896, 1897, 1899, 1901, 1903), refundindo-as, acrescentando ou emendando-as. No caso das emendas, não só numa perspectiva gramatical ou formal do sentido dos aforismos, só por curiosidade, Machado dá conta do erro que comete com um aforismo na 2.ª edição, o qual reflecte a sua teoria do bem, não tendo até então sentido programático e


teórico. Dizia-nos até então Machado, até ter detectado o erro, que Fazer o bem é realizar a imoralidade, substituindo imoralidade por imortalidade, assim fazendo mais sentido.
O que pretendo com este texto é essencialmente divulgar o pensamento pedagógico de Bernardino Machado, inserindo-me particularmente nas Notas Dum Pai que publicou em O Instituto entre 1896 a 1899.


II

Antes de apresentar o que Bernardino Machado pretende nesses três anos com as Notas Dum Pai, gostava de salientar duas fazes relativamente ao seu pensamento pedagógico: o antes e o depois do Congresso Pedagógico Hispano-Português-Americano realizado em Madrid em 1892, tendo sido ele o seu Vice-Presidente.


Antes de 1892, Machado já tinha publicado O Estado da Instrução Secundária (1882), O Discurso Comemorativo do Marquês de Pombal (1882), a Necessidade de um Ministério de Instrução Pública (1886), Afirmações Públicas: 1882-1886 (1888), Instrução Pública (1890), Introdução à Pedagogia (1892), A Conservação do Ministério da Instrução Pública (1892); e depois do Congresso publica A Crise Política e Financeira e o Ensino (1893), Afirmações Públicas: 1888-1893 (1896), a 1.ª e a 2.ª edição das Notas Dum Pai (1896, 1897), A Socialização do Ensino (1897), O Ensino (1898), O Ensino Profissional e Secundário (1899) e O Ensino Primário e Secundário (1899). À parte destes títulos desta fase, temos os textos e os relatórios de Machado enquanto esteve no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, relativamente à indústria (1898) e à agricultura (1899), os quais reflectem a base prática da sua teoria pedagógica.


Se, como tal os títulos evidenciam, existe no primeiro momento uma preocupação organizativa em Bernardino Machado de um Ministério da Educação e Instrução Pública em Portugal, no segundo momento surge, de uma forma mais


consistente, a teorização educativa, senão mesmo já antes, promulgando já algumas ideias base. Ora, esta alteração deve-se particularmente à sua participação no Congresso já referido. No seu discurso de encerramento salienta, então, “a necessidade da existência dum Ministério de Instrução Pública, para que o serviço do ensino não corra o risco de ser sacrificado a qualquer outro”, como também evidencia quatro pontos essenciais e reinvindicativos que saíram desse mesmo Congresso. Cito:

i)
"Proclamou a necessidade de que todos os funcionários da administração, do ensino possuam a competência pedagógica; de que a qualquer professor, ainda ao da mais humilde escola, seja lícito ascender por promoção até aos mais altos postos do ensino; e de que se franqueiem as carreiras do magistério não só ao homem mas também à mulher. E, assim constituídos os quadros do ensino, proclamou a necessidade de se reconhecer a legítima autonomia interna das corporações docentes, entregando-lhes a iniciativa na regulamentação dos exercícios escolares e concedendo-lhes uma discreta interferência na organização dos serviços e na distribuição dos fundos que lhes são consignados."


ii)
"Proclamou a necessidade de se ministrar por igual a educação a ambos os sexos; a necessidade de se multiplicarem e diversificarem as formas e os ramos de ensino, de se diversificar mesmo o horário, para que a nenhuma classe social se falte com o pão do espírito, e em especial de. se preparar o magistério por meio de escolas normais, bem como da acentuação do carácter pedagógico das universidades e escolas profissionais; e a necessidade de se acudir com pensões aos talentos deserdados da fortuna para assim se alargar o campo de recrutamento das classes dirigentes, e conjuntamente a de se acudir não apenas com pensões, mas com escolas especiais, aos deserdados da natureza, cegos, surdos-mudos e imbecis."


iii)
"Proclamou a necessidade de se dar um sentido liberal ao ensino, de tornar pessoal e viril o trabalho do aluno, desde a instrução elementar até à superior, e de não cultivar só o seu engenho, o seu gosto ou a sua habilidade oral ou manual, mas


desenvolver-lhe por completo todas as faculdades formá-lo integralmente para o desempenho das suas múltiplas obrigações sociais, de tal modo que não resulte um rotineiro, um diletante ou um ideólogo, mas sim venha a ser um colaborador consciente,. independente e eficaz da obra civilizadora da humanidade. E proclamou a necessidade de se coordenarem os vários graus da instrução o mais perfeitamente possível, para que um indivíduo da classe popular possa, sem desaproveitar a educação que fez, transitar para as escolas de ensino médio, e esse mesmo ainda, ou um indivíduo da classe média, possa, com igual economia de forças, chegar a frequentar as escolas de alto ensino."

iv)
"Proclamou, finalmente, a necessidade de se estreitarem as relações entre professores, entre discípulos e entre professores e discípulos, dum e de outro sexo, para que a escola seja a imagem idealizada da sociedade; e, ao mesmo tempo, a necessidade de se vincular organicamente a vida escolar à vida social para que a escola receba os influxos salutares da sociedade e reciprocamente nela influa; a necessidade, em suma, de se nacionalizar o ensino, de fazer passar pela escola um sopro de ardente patriotismo que tempere as almas juvenis para os rasgos das mais nobres acções."



III

O que as Notas Dum Pai têm representado no contexto do pensamento pedagógico de Bernardino Machado são, particularmente, duas ideias principais, as quais se podem interligar, diferentes entres si e que alguns teóricos têm propugnado. É o caso de Rogério Fernandes, que nos diz “a obra de Machado apresenta afinidades doutrinais com o movimento da “Escola Nova”. Claparède aponta as Notas Dum Pai entre os primeiros contributos para o estudo da criança, mediante a observação directa dos seus


comportamentos, à semelhança do que fizera Darwin na obra a que chamou “Biografia de uma Criança”. Nesta linha, temos também António Figueirinhas, pedagogo, o qual, no princípio do século passado realça nas Notas Dum Pai a “razão clara, a conclusão lógica e natural de toda uma série de reflexões pessoais”, salientando o “produto de uma profunda intuição de psicólogo.” E já no final do século XIX (1899), Severo Portela vai não só na mesma linha, como também salienta que tal livro é útil para os psicólogos.


Em 1897 surge, contudo, uma opinião bem diferente com Gonçalves Cerejeira, famalicense, avô de Armando Bacelar, num texto que publica no jornal de Famalicão O Porvir (4 Ago. 1897), na sua rubrica mais do que famosa Palavras Vermelhas, na recepção que então efectua à 2.ª edição das Notas Dum Pai. Salientando inicialmente o papel de Machado enquanto lutador pela “causa da instrução popular e da educação cívica portuguesa”, salienta, e foco, o seguinte:


"… que muitas daquelas pequenas notas tão grande e original é o seu alcance de actualidade e interesse social, que dariam, desenvolvidas e esplanadas, volumosos tratados relativos aos mais variados ramos da ciência e da filosofia. Porque as Notas dum Pai, metodicamente deduzidas e concatenadas, tratam de tudo em poucas palavras, fazem um livro, por assim dizer, enciclopédico, mas visando singularmente a este objectivo supremo – a educação. O seu autor, porém, evidenciando as suas poderosas faculdades de análises e observação e concomitantemente o seu poder de generalização e síntese, elaborou uma espécie de filosofia da educação, em pequenas notas tão simples, tão claras, tão surpreendentes mesmo pela sua flagrante realidade prática, duma leitura tão atraente, que se torna acessível a todas as inteligências e constituiria uma bela cartilha popular de educação. "(itálicos meus)



Destaco de Cerejeira duas ideias principais: filosofia da educação e realidade prática. Assim, o que pretendo evidenciar, em traços gerais, é particularmente essa mesma filosofia da educação para o civismo da sociedade portuguesa. Neste aspecto, o que encontramos nas Notas Dum Pai entre 1896 a 1899 publicadas na revista coimbrã é, não só, com a observação da psicologia infantil, como também, ao mesmo tempo, desta


evidência prática a elaboração de uma teoria do carácter e da personalidade. Desta forma, preconizando Bernardino Machado vários tipos de educação (real, prática, oral, intelectual, estética (artística, física, cívica e económica), vai estabelecendo uma espécie de um catálogo das virtudes (curiosidade, serenidade, esperança, confiança, simpatia, vontade, esforço, harmonia, cordealidade, bondade, patriotismo, afectividade, etc.) e de vícios (frivolidade, exagero, idiotice, egoísmo, estupidez, preguiça, fraqueza, etc.) para a concretização dessa mesma educação.
Se elabora, paralelamente, e desenvolve três grandes temas, a educação feminina, a educação social e a sua filosofia política, critica Machado a educação humanista dos finais do século XIX, considerando-a egoísta, proclamando uma educação geral nos seguintes termos:


"A concepção reinante da educação, que a divide em duas fases, a da educação humanista e a da educação profissional, é profundamente viciosa. / Assim, como se reconheceu que, para apreender seja o que for, ciência, arte ou indústria, hão-de envidar-se todas as energias do espírito, e à chamada educação progressiva, que amputava o indivíduo, reduzindo-o a cada época do seu crescimento ao exercício exclusivo da faculdade então predominante, sucedeu uma mais bem entendida organização pedagógica, que, sem prejuízo, da evolutiva diferenciação das faculdades, não deixa nenhuma esterilizar-se ao abandono; assim também é necessário compreender que ciência, arte e indústria se devem fundir sempre superiormente na acção moral do homem, e que ninguém virá alcançá-la perfeitamente fazendo ora uma educação humanista que dispense e adie todo e qualquer serviço social, ora uma educação profissional tão estreita que cerre o entendimento e o coração às benéficas influências mútuas dos progressos da civilização. Nem a educação geral deve acabar nunca, nem é nunca cedo para principiar a profissional. Cultura e ofício são inseparáveis."


Neste sentido, surge o papel do professor, o qual se caracteriza para Machado “pela sua capacidade de observação e sugestão dos outros espíritos, isto é, pela capacidade de os sentir e de agir sobre eles. Não é um sábio, nem um artista; mas um industrial. A sua matéria-prima é a alma humana.” Perante a educação profissional e geral e com professores assim preparados, pretende então Machado uma reforma, a qual consiste “em sair-se das escolas para as profissões e só destas para a vida pública”, sendo a educação profissional “mais do que humanista”.
Neste cenário e ideário sócio-educacional e ético, pretendia Bernardino Machado a edificação do cidadão ideal.
AGG