quarta-feira, 19 de agosto de 2009

portugal

i)
São áridos e tristes os dias que vão decorrendo. Chega às vezes a parecer que não há em Portugal lugar para os homens de bem, e que eles se acham para aí reduzidos a um ignominioso proletariado da virtude, condenado também, por falta de trabalho, a emigrar ou a morrer.
ii)
...ainda mal se ensina a ensinar.
iii)
O ensino é uma direcção, um governo.
iv)
Um ensino sem elevação patriótica, jurídica, falta à sua missão; assim como um governo que se impõe pela violência e corrupção, e não pela confiança que inspira, pelos serviços que presta e pela propaganda da verdade dos seus princípios, é indigno de tal nome.
v)
... ensinar é uma função social, é obra de assistência, de dedicação, de sacrifício. O magistério é um sacerdócio; o professor, o sacerdote.

Bernardino Machado

terça-feira, 18 de agosto de 2009



i)
... interessa reter o mais simples entendimento da genealogia, recorrendo para o efeito a uma entrevista em que Michel Foucault a designa enquanto «forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios de objecto, etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimentos, seja perseguindo sua identidade vazia ao longo da história». Neste livro procuro estudar processos de formação de «saberes», de «discursos» e de «domínios de objecto» - numa expressão rude e demasiadamente sintética, processos de formação de imagens. O objecto deste livro não é um, dois, três, quatro ou cinco sujeitos, mas as imagens que se constituem - que circulam - nas ligações que os sujeitos estabelecem entre si. Estas ligações formam várias redes, redes que comunicam entre si graças ao facto de cada sujeito pertencer a mais do que uma delas.

ii)
As imagens que perseguimos são aquelas que surgem na forma de texto.

iii)
... a primeira parte do livro aborda a questão do desenvolvimento da «sociedade» em Portugal, a segunda foca o problema da localização em Portugal na geopolítica mundial, a terceira debate os processos de invenção de um «povo português» e a quarta analisa a imaginação de uma História de Portugal.

José Neves

Neo-Realismo, Armando Bacelar...

portuguesia

às vezes, a pretensão da originalidade pode sair cara...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

um ar de frescura




















AGG









In Memoriam, Nuno de Carvalho



Foi indiscutivelmente com grande surpresa que li pela imprensa famalicense o falecimento de Nuno de Carvalho. As nossas relações, diga-se, antes de mais nada, de origem familiar, principalmente paternas, que tanto orgulhosamente gostava de referir, foram-se mantendo ao longo dos anos, unindo-nos, paralelamente, a cultura. As conversas, quando nos encontrávamos, a sair do seu escritório, ou na hora do café, na afamada Casa do Café, na Rua Adriano, ou mesmo quando nos víamos nesta rua, eram simplesmente fantásticas, sempre fascinantes, sendo um interlocutor nato. Falava-me muito, desde os tempos em que estava na Biblioteca, aproximando-nos ainda mais a Exposição dos Autores Locais e a Antologia, do espólio do seu tio-avô, Sebastião de Carvalho, e que, um dia, desafio-o a ceder-mo para o estudar e, se fosse caso disso, publicar o estudo, o que tal veio a acontecer (1999) com o livro “Manuscritos de um Espólio”. Aliás, ainda recentemente, cantou os famosos epigramas do famoso poeta famalicense e autor do livro “Rosas da Minha Terra” (1915), em Seide, na Portuguesia. Mas não era só de Sebastião de Carvalho que me contava histórias: também do seu avô Avelino de Carvalho, médico, e das suas andanças pela Maçonaria e como teve de sair dela. Ainda recentemente tinha-me oferecido um exemplar do livro do avô “Um Caso de Miséria Moral” (1921).
Advogado, músico e cantor, foi nesta sua última actividade que se revelou como pessoa destinada à cultura e às artes, particularmente, e neste caso, ao fado coimbrão, tendo sido já considerado que com ele o fado de Coimbra ressuscitou das cinzas. Desta forma, e quando a autarquia famalicense decidiu organizar um “Dicionário de Gente Ilustre de V. N. de Famalicão”, que se encontra a ser dirigido pelo Prof. Dr. Norberto Cunha, tendo sido então convidado por este e pelo Dr. Sá da Costa a ficar responsável pelas áreas temáticas da literatura, artes e imprensa, Nuno de Carvalho não podia ficar de fora. Ainda há uns meses, não tantos quanto isso, tinha-me enviado o seu curriculum! Nele reparei então a sua intensa actividade através da Tertúlia do Fado de Coimbra (TFC), da qual foi um dos seus fundadores, contendo uma discografia relevante já publicada, para além de outras actividades cívicas por ele realizadas através da TFC, tal como, por exemplo, o 1.º Seminário do Fado de Coimbra (1978). Pelo país e pelo mundo, nunca esquecendo Famalicão, e através da TFC, realizou serenatas de Coimbra, concertos, espectáculos televisivos e radiofónicos, etc. Esta a sua intensa paixão.
Outros dos seus mais vivos interesses era Camilo. Deteve na sua posse, até meados dos anos setenta do século passado, o espólio da correspondência de Gertrudes a Costa Lobo, oferecendo-as, enquanto estudante, ao INA. Nesta época, aluno de Manuel Simões (falávamos do Mestre com intensidade), incentivou-o a realizar um estudo sobre esse mesmo espólio, até então á guarda da família (via Sebastião de Carvalho), resultando o texto “Um Importante Espólio Camiliano” e publicado no “Boletim da Casa de Camilo” (1983). Quem, contudo, publicará essa correspondência, com o incentivo de Nuno de Carvalho, será Manuel Tavares Teles que publicará o livro “Os Manuscritos de Camilo” (2007). Aliás, Teles, conta-nos detalhadamente o quanto Nuno de Carvalho o estimulou, cedendo-lhe as fotocópias dos manuscritos que então tinham ficado na sua mão. E com que satisfação Nuno de Carvalho viu os resultados, revelando-me a faceta camiliana de Teles. Até que um dia, contava-me que Manuel Teles andava intrigado com problemas camilianos relativos a Famalicão, colocando-me em contacto com ele. “Fale com ele, fale com ele!”
As palavras são poucas… fica na minha memória grata a sua amizade, que será eterna.




Amadeu Gonçalves


Oliveira Bente, Homenagem

1942
Esta foi uma das últimas cartas que recebi de Oliveira Bente. Algumas dúvidas foram tiradas, novos conhecimentos literários foram adquiridos e algumas perplexidades, principalmente o seu relacionamento com Armando Bacelar e o Neo-Realismo. Esta situação que Bente descreve, não se lembrando de Bacelar, é paradoxal e enigmática, o qual devia conhecer vivamente, não só pelas andanças políticas do MUD, como pela participação de Bacelar não só no "Estrela do Minho", como também pela colcaboração de Bente no "Comércio dos Novos", dirigido por Bacelar. Contudo, esta carta é riquíssima pelo conteúdo cultural e literário que nos revela dos anos quarenta em Famalicão.


Adicionar imagem

2002