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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

camilo e os seus mistérios de lisboa



"Tentar fazer um romance é um desejo inocente. Baptizá-lo com um título pomposo é um pretexto ridículo. Apanhar uma nomenclatura, estafada e velha, insculpi-la no frontispício de um livro, e ficar orgulhoso de ter um padrinho original, isso, meus caros leitores, é uma patranha de que eu não sou capaz. / Este romance não é meu filho, é meu afilhado. / Se eu me visse assaltado pela tentação de escrever a vida oculta de Lisboa, não era capaz de alinhavar dois capítulos com jeito. O que eu conheço de Lisboa são os relevos, que se destacam nos quadros de todas as populações, com foro de cidades e de vilas. Isso não vale a honra do romance. Recursos de imaginação, se eu os tivera, não viria consumi-los aqui em uma tarefa inglória. E, sem esses recursos, pareceu-me sempre impossível escrever os mistérios de uma terra, que não tem nenhuns, e, inventados, ninguém os crê.




Público/P2 (5 Ago. 2011), p. 12.



Enganei-me. É que eu não conhecia Lisboa, ou não era capaz de calcular a distância da imaginação de um homem. Cuidei que os horizontes do mundo fantástico se fechavam nos Pirinéus, e que não podia ser-se peninsular e romancista, que não podia ser-se romancista sem ter nascido Cooper ou Sue. Nunca me contristei desta persuasão. Antes eu gostava muito de ter nascido na terra dos homens verdadeiros, porque, peço me acreditem, que os romances são uma enfiada de mentiras desde a famosa Astreia de Urfé, até ao choramingas Jocelyn de Lamartine.





Por consequência, diz o circunspecto leitor, vou-me preparando para andar à roda em um sarilho de mentiras. / Não, senhor. Este romance não é um romance: é um diário de sofrimentos, verídico, autêntico e justificado."




segunda-feira, 18 de julho de 2011

camilo e o porto iii

Que é o Porto? / Não deparei ainda com esta pergunta filosófica e de rigorosa necessidade no formigueiro de crónicas e revistas, que ressaltam, luxuriosas de vida e esperanças dos tipos para os botequins. / Que é um caixeiro sem uma luva amarela? / O que é uma revista sem uma definição do Porto? Nada! - Um trabalho sem lucro; uma obra caduca, efémerae morredoira - uma incoerência literária e artística, uma pobreza de génio, uma desarmonia. / Então: que é o Porto?





O Porto é a tábua da lei das quatro operações aritméticas. É uma grande tabuada levada ao infinito da multiplicação das casas. É o dois e dois são quatro, convertido no balcão do probo e honradíssimo bacalhoeiro de miríades de caras todas típicas, idênticas e como o total de côvados aferidos e carimbados no Município da cidade da Virgem. É o carroção de Manuel José de Oliveira. É a companhia do Alba-Cosido, com o sr. Galliani e a sr.ª Gambardella e os despeitados da sr.ª Gambardella. É o teatro de Camões com o seu Zacarias, o avarento. É uma sr.ª de distinção vinculando a ária do Átila à sua laringe, aliás preciocíssima. É o administrador do concelho prendendo e enviando para o Carmo dois... o quê?... dois senhores que pateavam um cantor. É o Braz Tisana do Pobres. É a Maria, não me mates que sou tua mãe. É a Cantiga do passarinho e o Testamento do galo a gemer pela vigésima vez nos prelos incansáveis. É a cozinha dos herdeiros do chapelinho a crepitar de sardinhas fritas, toda ela uma alface, e tudo isso para honestíssimas famílias do gordo e sério mercador de fígados do Algarve, vassouras e abanos, que leva ao domingo de tarde a muito copiosa e enfezada prole a espairecer fora da cidade. É a matrona, casada defresco,que vai ao teatro de mantilha, que a depõe ao baixar do pano para, em completa harmonia conjuugal, devorar o nédio coixão de carneiro, fumegando odorífero açafrão dentre o pulento bojo duma caçarola de arroz de formo. É o riso escancarado duma plateia inocente que palmeia alegre um equívocoimundo das Luvas Amarelas. O Porto é tudo isto, e ainda mais. / ... Aqui tudo o que não for isto, é alvo de sátira traiçoeira, suja e mal-amanhada; e, se tem a franqueza de prestar consideração a esta estupidez orgulhosa, é posto à irrisão dos linheiros e dos pregueiros e dos outros todos que passaram do soco de Guimarães e da jaqueta de ganga para o casaco de veludilho e chinela de ourelos. / ... Tudo isto é verdade.






E é por isto mesmo que o Porto, espremido desde o vasto estabelecimento de Simão Duarte de Oliveira até ao tabuleiro de lumes pronto de reportórios do garoto da Porta de Carros, não transpira uma revista. Nos bailes está a filha do burguês, tipo degenrado de espadaúda minhota a fingir-se compleição nervosa e estremecida. No teatro é a mesma mulher, sempre deslocada, artificial e sonolenta. Na missa dos Congregados é a beata que pretende alinhar-se com um relicário Angélico meditado, decorado e repetido em casa pela mãe com várias explicações ricas de erudição das Horas Marianas. / A mulher do Porto, por consequência, vive só do seu vestido, do seu bracelete e do seu chapelinho de sol vermelho com grandes franjas amarelas. Groseeiramente requestada com cartas do estilo sirva-se vmc. entregar por esta minha ordem, a mulher daqui ignora rudemente as subtilezas do ideal, as preguiças amorosas que - diga-se aqui a própria verdade - são e serão sempre a douradoura das afeições. Aqui namora-se para casar: casa-se para ter filhos, que ordinariamente são as caras dos pais. Benza-os Deus!




De vez em quando, aparece uma cabeça de fogo a querer sevar-se de chamas no meio deste glacial reservatório das cabeças de pedra. Homens que não estudam o valor específico desta sociedade portuense metem-se a tratá-la com o coração viçoso e anelante: morrem na alma ou matam-se no corpo. É por isso que na semana passada um homem desespera dos recursos íntimos da coragem, não pode esquecer a mulher que o enganam não pode mesmo perdoar-lhe - e, para memória eterna de vingança de homem, rasga a artéria radial, derrama sangue até às agonias da morte, e vai morrer silencioso como o Chatterton, quando a mão do acaso, identificada à mão dum médico, lhe estanca o resto do sangue, e o salva dum suicídio de Séneca inimigo de semicúpios. / A sociedade está assim encaminhada. Honrosas excepções - homens incapazes de magoar um calo por causa do abandono da mulher, eu vos saúdo, como a tais patuscos se deve!


Camilo, O Nacional (25 Fev. 1850)

sexta-feira, 15 de julho de 2011

camilo e braga



"Emalámos, e partimos para Braga.

Dentro do carro, fomos rodados de modo que o regurgitamento cedeu aos choques.

Entrámos na cidade ao lusco-frusco.

Desde a entrada até ao campo de Sant`Ana fomos recebidos com assobios e guinchos e mugidos de garotos, aprendizes de chapeleiro, que vinham às portas das oficinas ganir. Os nossos antigos descobridores quando saltavam em praia de bárbaros eram assim recebidos. O mais é que os patrões das oficinas pareciamfolgarnaquele alaridoda canalha. Que terra! Aquilo poderá ser gente? O que lhes vale é o terço depois que uivam. Para que quererá Deus lá em cima semelhantes alarves?

Chegámos à hospedaria da Estrela do Norte.

Vimos um par de grossas pernas de uma redonda marrona que se estirava o mais comodamente que se pode sobre uma cama, e dava grátis o espectáculoaos que lhe passavam diante da sua porta. Pareceu-nos bastante ingénua a nossa vizinha de quarto! os comentários às pernas foram interrompidos por um robusto «aqui d`el-rei» que vinha da rua.

Saiba-se o que é isto. E. B. desceu à rua, e nós fomos à janela. Vimo-lo emolar-se na mó do povo que se apinhava em redor da vítima lamuriante.

Depois lá de baixo cá para o segundo andar, E. B. com roda a força dos seus pulmões, exclamou:

. Foi o fidalgo que lhe bateu.

Apenas proferida a palavra «fidalgo!» todo aquele gentio escoou-se pelas travessas laterais, e o cidadão bracarense, desamparado, achou que era queda sobre o couce do fidalgo enrouquecer gritando pelo rei, que valia menos ali que o cabo de polícia.

A história era simples. Um homem do povo ousou murmurar do fidalgo que atropelara com o cavalo uma velha. O fidalgo apeia, desencrava um estadulho dumc arro, e fá-lo ir a terra. O espancado grita, o povoléu escorre em tropel das betesgas vizinhas, quer saber quem é o facinoroso. Diz-se que é o fidalgo; a corja dos vilões despeja o forum, e vai exercer a sua dignidade de homens rezando o terço, e assobiando aos forasteiros que entram, ou apedrejando o incauto que se não descobre.

Vou concluir.

Passámos uma noite atormentada. A legião dos eprcevejos lá de cima tinha destacamentos cá em baixo. L. B. e E. B. abdaram três horas com os enxergões às costas. Eu descobri na minha cama um animal novo; não era bem insecto nem molusco; repeli-o com toda a força da minha indignação, e adormeci.

Às três horas da manhã estávamos em marcha."







quinta-feira, 14 de julho de 2011

camilo e o porto ii

visões do então jornalista camilo sobre a cultura social portuense, neste caso sobre o carnaval. estas "coisas que só eu sei" foram publicadas no jornal "o portuense" em 1853. esta crónica social, de amores que se encontram socialmente, conta-nos uma festa de carnaval no teatro s. joão, foi, depois, republicada no jornal "a concórdia" e mais tarde inserido na miscelânea "cenas contemporâneas". o alvo da crónica é "um dominó de cetim". são so primeiros exercícios literários de camilo sobre a intertextualidade metaliterária, caracterizando as personagens através dos escritores que então leu e lidos.






"... em Portugal, um dominó em corpo de mulher, que passeia «sozinha» num teatro, permite umas suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisonjeiam a vaidade de quem lhe recebe o conhecimento."




"... é mais fácil descobrir um mundo novo que uma mulher ilustrada. É mais fácil ser Cristóvão Colombo que Emílio Girardin´."




"Como o poeta se chama não sei, nem importa. Imagina tu que és um poeta, fantástico como lamartine, vulcânico como Byron, sonhador como MacPherson e voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina tédio desta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonisa descabelada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes passatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinária de espírito, um anjo de eloquência, um demónio de epigrama, enfim, uma destas criaturas miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa no coração mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma ofensa ao bom senso anatómico, não é verdade? Pois, meu caro dominó, há corações de toucinho estreme. São os corações, que ressumam óleo em certas caras estúpidas..."




"O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgência não só para as grandes afrontas, mas até para os grandes narizes. / - Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão de generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido."




"Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor-próprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma inocente a quem possas fazer feliz, enquanto a enganas..."




"As rosas purpurinas dos vinte anos tinham-lhe sido crestadas pelo hálito abrasado dos salões. A placides extemporânea de uma vida agitada via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade de um sexo que não pode acompanhar com a matéria as evoluções desenfreadas do espírito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi daquelas feições! que projeccção de uma sombra azulada lhe descia das pálpebras! Era uma mulher em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade."










camilo e o porto




"... entre mim e o Porto, há duas mil léguas de ar livre. Tentei-o lá, mas não sei que prestigioso terror me encadeava ao porte das conveniências! / É coisa que está na atmosfera do Porto."



"Por esses tempos, era eu, moço de coração, de fantasia, sonhava, poetizava, carpia, exagerando-as, as dores alheias, interessava-me em saber os segredos das mágoas misteriosas e imaginava-me dotado de tanta sensibilidade e condão de consolar que, se acontecia aproximar-me da pessoa sofredora, a minha maior glória era enxugar-lhe as lágrimas, com não sei que expressões de alívio, esquecidas hoje."




Camilo, O Filósofo da Trapeira