domingo, 8 de agosto de 2010

pascoaes, imortal

Uma das primeiras leituras, possíveis, de Pascoaes, entre muitas outras, a descoberta de nós mesmos! Leituras de outrora, leituras de sempre!


PASCOAES, Teixeira de
Senhora da Noite. Pref. Eugénio de Andrade. Lisboa: Assírio & Alvim, 1986. 45 p. (Gato Maltês; 16)
Chora por mim,
A dor, nas cousas mortas, encantada.
E chora, como as árvores sentindo
Esse orvalhado alívio das manhães.
Gotas de fogo líquido, sorrindo,
Ó doce orvalho! Ó lágrimas pagãs!
Aí vem a meia noite... Olhai, olhai,
Seu vestido nupcial que a lua fez.
Que lindo! Vinde ver como lhe cai,
Num castro alvor de neve, sobre os pés.
Aí vem a meia noite, caminhando,
A murmurar...
Música d`entre névoas ondulando,
Sinfonia de sombra, aéreo mar...
Olhai o vento enamorado e preso
Da sua trança que finda em oiro aceso
E os remotos países alumia.
E vinde ver,
Nas ondas espectrais do seu cabelo,
Como divina jóia, resplender,
O sete-estrelo.
Pôs-lhe, no brando peito, a bela tarde
Sombras de lírios.
E, em seus dedos de anéis, crepita e arde
A esbraseada pérola de Sírius. (22-23)

sábado, 7 de agosto de 2010

crónica do tempo

Hoje nem República, nem realidade, apesar dos jornais de fim-de-semana, especialmente, e como sempre, o "Público" e o "Jornal de Notícias" (ah, e agora a República já não existe para o "Jornal de Notícias", como se não bastasse os "Roteiros", que ainda hoje grande publicidade faz...), terem algumas notícias bem curiosas, mas este tempo repleto de calor (quantas banhocas de água fresca não tomei hoje!), não me apeteceu fazer grandes recortes de imprensa. Foi a sesta, sempre estendido no sofá e nada mais, claro, e lanchar, como não podia deixar de ser, o cafézinho(s) da praxe, e já não foi mau. E então apeteceu-me, antes do jantar, ir ao Teixeira de Pascoaes, tanto livro dele, alguns sobre ele, e vamos lá ver se encontro alguma novidade curiosa e até encontrei: no livro "São Paulo" tinha lá uma dedicatória de António Pedro Vasconcelos! E ambos somos aficcionados por Pascoaes, conforme se pode ver na dedicatória. Pedro Vasconcelos, que por várias vezes já tem a vindo a Famalicão, nesse ano longínquo de 1995 a Biblioteca Municipal organizava então um ciclo de cinema, com filmes escolhidos por várias personalidades. O realizador português escolheu então "Laura" de Otto Preminger, e, concerteza, então, na altura levei o livro de Pascoaes, já que tem a apresentação feita de Vasconcelos, e pedi-lhe uma lembrança: aqui está ela para a posteridade. E da introdução de Pascoaes ao seu livro transcrevo um sublinhado (eles são tantos!):







Nós somos o universo, indivíduo e multidão, árvore e floresta. A nossa imagem, nitidamente recortada, emana uma expressão interior, que a envolve e prolonga, no Infinito; mas é sempre a nossa imagem, ou aqui, neste núcleo concentrado, ou, além, como esparsa numa auréola. / Nesta íntima auréola é que vivemos e tocamos as cousas exteriores. Interiormente é que tocamos o exterior. (19)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

a imprensa famalicense e a república

Para o Dr. Sá da Costa
  • O "Notícias de Famalicão", O "Novidades de Famalicão" (periódicos regeneradores) e o "Estrela do Minho" (republicano) foram os jornais que então falaram da República em Vila Nova de Famalicão, e, como sempre, já tardio, conforme se pode ver pelas notícias (aliás, mais do que notícias, comentários ao novo regime que então se implantava em Portugal) e nos respectivos cabeçalhos dos jornais. O "Estrela do Minho" a 9 de Outubro, em letras fortes carregadas a negrito, logo a seguir ao cabeçalho,escreve e proclama o seguinte: "Após uma luta heróica, travada na capital do País, acaba de triunfar a Democracia e de implantar-se a República em Portugal. / Este Ideal, que para muitos se afigurou uma longínqua miragem, é hoje um facto consumado. Sobre as ruínas dos erros políticos do velho regime que acaba de baquear, uma nova era se iniciou prometedora de um ressurgimento da Pátria. Oxalá as esperanças dos que ainda têm fé num futuro de prosperidade para a nação portuguesa se mantenham à altura das suas crenças, e o pais entre, com as novas instituições políticas, num caminho de ordem, de moralidade e de justiça. / Do alto deste lugar saudamos o advento da República, e fazemos votos para que ela execute a sua obra de saneamento, e se imponha à admiração e respeito de estranhos e de naturais pela honradez e nobreza do seu procedimento, culto à liberdade e acerto na governação política." O jornal dá destaque a Bernardino Machado, eleito Ministro dos Negócios Estrangeiros, e à proclamação da República em V. N. de Famalicão, com a tomada de posse da nova comissão administrativa, chefiada por Sousa Fernandes. O que aqui apresento é o aperitivo sobre o trabalho que o Dr. Sá da Costa irá publicar no próximo "Boletim Cultural" da autarquia famalicense, o qual comemora os seus trinta anos de existência, preparando-se, assim já de antemão, um colóquio que ficará na história da cultura famalicense.

  • NOTÍCIAS DE FAMALICÃO. Vila Nova de Famalicão, 1910.Notícias de Famalicão: órgão do Partido Regenerador Local. Propr. da Empreza do Noticias de Famalicão; Dir. Guilherme da Costa e Sá; Adm. António Maria Pereira. Anno 1, n.º 1 (20 Jul. 1910)-Anno 1, n.º 14 (19 Out. 1910). V. N. de Famalicão: [s. n.] (Santo Thyrso: Typ. da «Semana Thyrsense»), 1910.




  • NOVIDADES DE FAMALICÃO. Vila Nova de Famalicão, 1910.Novidades de Famalicão: periódico regenerador. Dir., red. principal Manoel José Rodrigues. Anno 1, n.º 1 (27 Jul. 1910)-Anno 2, n.º 50 (27 Jul 1912). V. N. de Famalicão: [s. n.] (Typ. Alliança, 1910-1912.














terça-feira, 3 de agosto de 2010

crónicas de agosto

Portugal é um país que se revela, cada vez mais, igual a si próprio. Hoje, de manhã, ao ler o "Jornal de Notícias" algo espantoso: dois jovens mortos! As circunstâncias são fantásticas, porque o primeiro, vítima de um acidente de viação, não tendo sido ainda o responsável capturado pelas autoridades, é visto pelo amigo em tal situação. Isto faz-me lembrar quando Fernando Pessoa recebeu a última carta do amigo Mário de Sá-Carneiro, o qual já se tinha suicidado, sem o primeiro saber ainda... Como se não chegasse, o amigo, luso-francês, decidiu ir "arejar" a um café, este é assaltado e morto a tiro!!! Aliás, o primeiro, já tinha reparado que Portugal era um país violento, dando um exemplo, quando viu duas mulheres zangadas, ficando admirado com os gritos e as agressões. Bom, também já cheguei a ver duas mulheres engalfinhadas, e, neste caso, a luta era com os cabelos e os insultos! Portugal não é, nem nunca foi, um país de brando costumes: basta ver, por exemplo, "O Século" entre finais do século XIX e princípios do XX (assim como também "O Mundo"´, que surge em 1900): sempre houve homicídios, violência doméstica e crimes passionais! O "Jornal de Notícias" é o exemplo mais concreto disso mesmo na nossa contemporaneidade. Mas mais do que os actos, depois, ao fim do dia, ao comer o meu geladinho bem fresquinho no Casal, como ainda não tinha dado uma vista de olhos ao "Público", e logo nas primeiras páginas, fica-se espantado com a crise algarvia da saúde, mas mais ainda, com o que um responsável autárquico (da Câmara de Loulé) afirma, chegando ao cúmulo de ser tal afirmação o título da notícia: "Como é possível um turista de luxo ficar numa maca de corredor de hospital?" Mas a saúde não é para todos? Como se não bastasse as horas intermináveis que o cidadão, seja português ou estrangeiro, fica há espera, tinha de aparecer este título fantástico! Como se não chegasse, o presidente da Administração Regional de Saúde do Algarve questiona "Não querem esperar? Há as clínicas, os consultórios". Como se os portugueses ganhassem riso de dinheiro para tratarem a saúde nas clínicas privadas! Como se não chegasse ainda, mais um inquérito sobre um outro inquérito... e assim roda Portugal, igual a sí próprio!!! E como ontem falei em Georges Minois, lembrei-me de ir até há minha bancada filosófica e de lá retirei estes livros, os quais podem ajudar um pouco a perceber as mentalidades sociais contemporãneas, tão absurdas, como complexas.












segunda-feira, 2 de agosto de 2010

cartazes republicanos




  • Hoje, após um excelente almoço, imaginem só, e até porque o tempo agora está até mais calmito, um arrozito de cabidela, pois então, com aquele vinho branco fresquinho que ainda não consegui perceber qual a marca, não aquele vinho verde gazeificado, mas um verde bem suave, que escorrega muitíssimo bem, resolvi dar um pulo até à Livraria Fontenova, até porque a minha colega e amiga Paula, que regressava das férias, ou de uma pequena parte delas, tinha-me dito que lá viu um livro sobre os cartazes republicanos, quando foi comprar os livros escolares para os seus filhotes. Aventurei-me, pois, então, a ir até à Livraria do burgo famalicense, que continua ainda a ser única, graças a Deus, e lá fui parar, nas calmas, tinha tempo, hora do passeio e da digestão antes do café. Antes de mais, o preço: caro! O que se tem notado nas edições não só da Comissão do Centenário Para a República, como também nos livros patrocinados pela mesma, os livros atingem preços exorbitantes! E, depois, por outro lado, num caso ou noutro, falta um critério objectivo e científico. Mas o escândalo que estamos a assistir é, particularmente, nos tão afamados "Roteiros Republicanos", distribuídos pelo "Jornal de Notícias" e "Diário de Notícias", dando a respectiva Comissão de que Portugal é apenas Lisboa e o resto continua a ser paisagem!!! Como se os livros não bastassem ter um preço elevado, o que até não é o caso dos roteiros (nem mesmo já pedidos no quiosque habitual eles ainda não chegaram!), a Comissão gastou rios de dinheiro, através dos periódicos citados, na publicidade dos mesmos roteiros e estes nem vê-los! E depois, algo que nunca percebi em Portugal, diz respeito aos livros patrocinados institucionalmente: caros! Estou a lembrar-me, por exemplo, dos livros de Georges Minois. Acaba por ser um escândalo! A respectiva Comissão Nacional Para as Comemorações do Centenário da República continua na mesma órbita. Parece que brincam com os dinheiros dos contribuintes, não acham? E alguns até gostaria de ter... Bom, afinal de contas, hoje lá se abriu uma excepção, até porque o almoço correu bem, um luxozinho, e comprei "Os Cartazes na Primeira República", de Maria Alice e Tiago Baptista, aqui reproduzindo a capa e dois documentos de Bernardino Machado, os quais, por sinal, existem no Museu com o seu nome, em Vila Nova de Famalicão... E mais não digo!








domingo, 1 de agosto de 2010

literatura e cultura famalicão 1901

  • Bernardino Machado - "Pela Liberdade".


  • Duas forças, sobretudo, dominam o mundo, maiores que todas as outras, a liberdade, que é a maior força singular, e a sociabilidade, que é a maior força colectiva. Harmonizá-las, eis o problema. Unidas, dão a propseridade e grandeza das nações e da humanidade; separadas, em conflito, a sua decadência e ruína.
Bernardino Machado


  • Bernardino Machado - "A Associação Liberal de Coimbra".
  • Bernardino Machado - "Portugal e Espanha".
  • São inauguradas as Escolas Conde de S. Cosme do Vale. Foi um dos beneméritos, brasileiros de torna-viagem, em Famalicão, na educação e na instrução. O número único (de oito páginas) de homenagem que aqui apresento (algumas páginas) é do espólio de Vasco de Carvalho, o qual pode ser visto na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco/FundoLocal, de Vila Nova de Famalicão. Vasco de Carvalho colocou no jornal, conforme se pode ver, muitas notas pessoais.





  • É colocado no Liceu de Macau Manuel da Silva Mendes.









quarta-feira, 28 de julho de 2010

abílio de magalhães brandão (1860-1930)

Famalicense por adopção, afectividade social, vivência literária e de residância, este hábil etnógrafo nasceu na freguesia de São Sebastião, concelho de Guimarães, falecendo na freguesia de S. Tiago da Cruz, concelho de V. N. de Famalicão, onde residiu na casa da Quinta de Ribela. No ano do seu falecimento, o jornal famalicense Estrela do Minho fazia-lhe o seguinte elogio público: "Descendente de uma família muito distinta de Guimarães, aqui constitui familia e pelo mseu correctíssimo porte conquistou a simpatia de todos os famalicenses. / Espírito culto e de clara inteligência, colaborou em várias publicações literárias e económicas, sendo um entusiasta dos modernos processos agrícolas nas suas propriedades." Se, por um lado, profissionalmentefoi Recevedor e Resoureiro Municipal em paços de Ferreira, por outro lado, no plano cívico pertenceu à Comissão Regional da Agricultura de Santo Tirso, tendo sido vogal da respectiva comissão.






Publicou em 1896 o "Manual do Recebedor do Concelho ou Bairro". O livro é dedicado a João Franco, entao Ministro do Reino, que o tinha nomeado para o cargo referido em 1890. Quem fará a recepão a este livrinho será Sousa Fernandes no jornal famalicense, e órgão dos republicanos, O Porvir, em 21 de Outubro de 1896. A actividade cultural de Magalhães Brandão ficou notabilizada com os seus curiosos estudos e recolhas de documentos etnográficos, nas suas próprias palavras, o folclore, passando pelas adivinhas, os jogos populares infantis, as tradições populares na prática da agricultura, etc. Rompe, desta forma, com o cientismo do século XIX, na medida em que este considerava o folclore (cultura popular) como algo de inútil. Os seus estudos detectam já a antropologia cultural contemporânea, a qual recorre à tradição, à pedagogia e à psicologia. Publicou os seus trabalhos na Revista de Guimarães, da Sociedade Martins Sarmento, na Nova Alvorada, de V. N. de Famalicão, e, a nível de jornais, nos de Famalicão Lavoura do Minho e Estrela do Minho, no Jornal de Paços de Ferreira, e, para além da amizade que manteve com José Leite de Vasconcelos, foi um dos seus colaboradores na Etnografia Portuguesa, relativamente aos costumes e às tradições do Baixo-Minho, e, em especial, de V. N. de Famalicão.




Em plena época de efervescência republicana (1912), não só devido à lei da Separação da Igreja e do Estado, mas também devido à ruptura do Partido Republicano, aparecendo o Partido Republicano Evolucionista, de António José de Almeida, e o Partido União Republicana de Brito Camacho, surge envolvido na polémica da Fonte Santa de Mouquim, que se deu na sua propriedade. As considerações simpáticas de Sousa Fernandes ao livrinho que Magalhães Brandão publicou em 1896, serão, agora, de perseguição. Toda esta polémica mereceu, já no seu fim, uma longa reflexão crítica no jornal famalicense Desafronta, em 23 de Novembro de 1912, jornal que, aliás, era o órgão do partido Republicano Evolucionista em V. N. de Famalicão. Nesta mesma longa reflexão pretende justificar cientificamente as qualidades termais da água existente na propriedade, descrevendo que o seu conhecimento é simplesmente ignorânica por parte dos poderes políticos e públicos, reflectindo, igualmente, sobre a história da casa da Quinta de Ribela, como dialogando a sua defesa pessoal das acusações que era alvo, principalmente no aproveitamento económico. Politicamente, o atingido foi o seu filho, António Magalhães Brandão, farmacêutico, e estava filiado no Partido Republicano Evolucionista.



A polémica foi não só vivida na imprensa famalicense, como também surgiu na imprensa nacional. É o caso da Ilustração Portuguesa (1 de Julho de 1912) num artigo de Sousa Martins ou no Mundo Ilustrado, de 30 de Junho de 1912. Reproduzo aqui o texto de Sousa Martins, a longa reflexão de Magalhães Brandão publicada no jornal Desafronta, em 25 de Novembro de 1912, as capas das duas revistas em que colaborou e o primeiro texto intitulado Eucaliptos que publicou no jornal famalicense A Lavoura do Minho, em Setembro de 1913, assim como o cabeçalho do primeiro número do mesmo jornal.