quinta-feira, 21 de julho de 2011

major miguel ferreira

dr. artur sá da costa e dr. artur coimbra




ontem, o meu caro amigo dr. artur coimbra, de fafe, teve a amabilidade de vir até famalicão e de me oferecer pessoalmente, assim como ao dr. sá da costa, o seu último livro, com o título "major miguel ferreira: uma lição de liberdade". o livro, que já vai na sua 2.ª edição, terá amanhã a sua apresentação pública na biblioteca municipal de fafe, pelas 21h30, a cargo do dr. sá da costa. pois lá estarei também para o abraço fraternal de amizade que a cultura nos uniu, e já lá vão muitos anos.








I - Mais político que militar


II - Activista político na 1.ª República


Vereador ´da Câmara de Fafe


Deputado às Constituintes de 1911


Combatente na 1.ª Grande Guerra Mundial


Governador Civil de Braga


III - Após o 28 de Maio, o exílio


IV - O resistente a Salazar


Aos Portugueses


V - Homenagem em Braga aos 80 anos (1958)


VI - A morte, com a PIDE a vigiar


VII - Miguel Ferreira na toponímia de Fafe


VIII - Depoimentos



"16 anos após a primeira edição, honramo-nos reeditar esta obra marcante de simbolismo, Miguel Ferreira - Uma Lição de Liberdade". / A oportunidade não poderia ser mais adequada: estamos em plena comemoração do centenário das Constituintes de 1911, que legaram ao país a primeira Constituição saída da Revolução de 5 de Outubrto de 1910. De igual forma, passou há pouco o cinquentenário do falecimento (1961) desta personalidade maior da história recente desta terra e do próprio país."




Artur Coimbra

quarta-feira, 20 de julho de 2011

pascoaes e espanha

"Sabíamos que Pascoaes tinha viajado por espanha e que tinha amigos espanhóis, mas não imaginávamos a extensão deste volumoso epistolário. São várias dezenas os interlocutores, uma boa parte dos intelectuais espanhóis da época, com o resultado de mais de trezentas cartas (entre o mais nutrido elenco contam-se as cinquenta e quatro de Maristany e as dezanove de Unamuno) ao longo de quase meio século de correspondência. Começam cronologicamente em 1905 com as cartas de Unamuno, e pensamos que foi este quem o introduziu no círculo de amizade dos outros espanhóis. / Até 1913 não conhecemos o segundo interlocutor, um destacadíssimo iberista catalão, Ribera i Rovira. Depois, ininterruptamente até 1952, vão aparecendo mais e mais interlocutores, mais de setenta. É meio século de correspondência, na qual se destacam os intelectuais da periferia, galegos e catelães, como uma temática bastante monocórdica: nacionalismo, saudade-anyorança, paisagem, união cultural, atlantismo com a Galiza. Por outro lado, com a cortesia mais requintada impera o vaidoso interesse de ver publicadas, traduzidas ou comentadas as obras respectivas (quando é o caso). Um aspecto que subjaz a esta correspondência é a profunda admiração e respeito de todos os interlocutores que conheceram Teixeira de Pascoaes, destacando-se aqueles que o visitaram em Amarante (é o caso de Unamuno e Eugenio D`Ors, por exemplo). / Há nomes importantes entre os seus interlocutores: Unamuno, D`Ors, Ribera i Rovira, Noriega Varela, Díez-Canedo, Eugenio Montes, Cases-Carbó... (para não mencionar já Garcia Lorca ou Leopoldo Panero, ainda que minimamente representados neste epistolário."


Ángel Marcos de Dios


"Nós reproduzimos todas as cartas dos intelectuais galegos, mesmo que já tinham sido publicadas. No entanto, são cerca de duzentas cartas, de muitos outros intelectuais espanhóis ilustres, com sabor a inédito, e são também muitos os poemas que procurámos divulgar neste nosso volume. Estamos certos de que, ao fazê-lo, não só homenageamos o nosso autor como todos aqueles que, movidos pelo anseio de uma união espiritual ibérica, se dedicaram ao estudo e conhecimento da Literatura e Cultura portuguesas, permitindo, desta forma, não só uma maior aproximação cultural e fraterna entre Portugal e Espanha, como uma maior projecção do valor literário e humano do poeta Teixira de Pascoaes."


Lurdes Cameirão

terça-feira, 19 de julho de 2011

pascoaes em espanha

já aqui se fez referência a um outro iberismo, o iberismo da reforma educacional de ambos os países, de espanha e de portugal, pelas ideias de francisco giner de los rios e de bernardino machado. aqui destaco a federação espiritual ibérica na óptica de pascoaes. aliás, ángel marcos de dios destaca três tipos de iberismo: o primeiro pretendia englobar os dois países de forma a construírem um só, debaixo da mesma coroa; o segundo, baseando-se numa federação ibérica, a qual advoga a união depois de destruir o centralismo castelhano, sendo defendido tanto por portugueses como espanhóis. da parte dos portugueses temos antero, teófilo, filipe nogueira, malgalhães lima; da parte dos espanhóis, ribera i rovira, nido y segalerva, vicente gay e cases-carbó. oliveira martins encontra-se ligado ao federalismo ibérico, mas numa perspectiva que tem que ver com a unidade de pensamento e de acção, mas independência política. martins é apresentado como o mentor das ideias iberistas, quer por parte dos espanhóis, quer por parte dos portugueses. no terceiro caso, surge o iberismo espiritual, que solicita um entendimento e uma acção espiritual comum. neste último, marcos dias inclui, por parte dos portugueses, antónio sardinha, moniz barreto, teixeira de pascoaes e vitorino nemésio, e, por parte dos espanhóis, miguel de unamuno, joan maragall, ángel ganivet, ramiro de maeztu, calvo sotelo e marqués de quintanar. o "iberismo" educacional de giner de los rios e bernardino machado é bem diferente de todos estes iberismos, ficando fora dos três iberismos apontado por marcos de dios.






"O trabalho é constituído por três partes. Na primeira, pretendemos destacar algumas atitudes ideológicas e culturais, sobretudo as que ocorreram nos últimos anos do séc. XIX e princípios do séc. XX, procurando, desta forma, não só uma justificação para o problema do afastamento que tanto parecia preocupar os intelectuais de ambos os países, como também para uma melhor compreensão de alguns dos ideais estéticos-doutrinários que enformam o pensamento da «Geração de 70» portuguesa, e da «Geração de 98» espanhola, fruto de todo um ambiente e clima social, político e literário em que os escritores destas gerações se moviam. [...] A segunda parte do trabalho procurará traçar e distinguir os pontos principais do iberismo do poeta luso, através do seu universo poético. Este merecerá a nossa especial atenção e será possível duma análise textual que nos permitirá destacar mitos e símbolos relacionados com o seu conceito de ideal ibérico e com o seu profundo humanismo. / [...] A terceira parte, tendo como fulcro o epistolário ibérico de Pascoaes, incidirá sobre o olhar crítico de espanha face à sua obra e ao seu pensamento: o fascínio que ele despertou nos meiso cultos do país vizinho; a correspondência trocada com galegos, catalães e, principalmente, com Unamuno, de cujos ideais ibéricos se fez arauto, enobrecendo-os com a sua preclaríssima visão."(18-20)






I - Iberismos e Idealismos



Alguns aspectos do Iberismo dos finais do século XIX, princípios do século XX.



A «Geração de 70» portuguesa e a «Geração de 98» espanhola: suas afinidades.



O neogarretismo, o mito sebástico e o Saudosismo.



Aproximação ao pensamento de Pascoaes.



A Saudades sentimento da raça lusíada, em Teixeira de Pascoaes.



Teixeira de Pascoaes. A «Renascença Portuguesa». A Águia: reacções críticas.






II - O Iberismo na Obra de Teixeira de Pascoaes.



A palavra poética e o ideário ibérico de Pascoaes.



A expressão do sentimento rácico e do exaltado patriotismo nacional e peninsular em Pascoaes.



A literatura peninsular: os mitos, os arquétipos e os símbolos na via do iberismo espiritual.



A revelação da paisagem e da alma dos povos ibéricos.






III - A recepção de Pascoaes em Espanha e o seu epistolário ibérico



Pascoaes e a geração galega de Nós.



Pascoaes e os interlocutores da Catalunha.



Pascoaes e Unamuno: obreiros da Ibéria «celestial»



As Sombras, o São Paulo e a crítica: Unamuno e o despontar de uma projecção peninsular, europeia e hispano-americana.



Fernando Maristany e o seu contributo na projecção do pensamento e obra de Pascoaes.



Francisco Luis Bernárdez e António Noriega Varela: dois discípulos e amigos do poeta de Amarante.



Valentín de Pedro: o tradutor de Terra Proíbida.



A tradução, em espanhol, do Regresso ao Paraíso, e a internacionalização do nome de Teixeira de Pascoaes.



Outras manifestações de fraterna admiração dos intelectuais espanhóis por Pascoaes.






segunda-feira, 18 de julho de 2011

camilo e o porto iii

Que é o Porto? / Não deparei ainda com esta pergunta filosófica e de rigorosa necessidade no formigueiro de crónicas e revistas, que ressaltam, luxuriosas de vida e esperanças dos tipos para os botequins. / Que é um caixeiro sem uma luva amarela? / O que é uma revista sem uma definição do Porto? Nada! - Um trabalho sem lucro; uma obra caduca, efémerae morredoira - uma incoerência literária e artística, uma pobreza de génio, uma desarmonia. / Então: que é o Porto?





O Porto é a tábua da lei das quatro operações aritméticas. É uma grande tabuada levada ao infinito da multiplicação das casas. É o dois e dois são quatro, convertido no balcão do probo e honradíssimo bacalhoeiro de miríades de caras todas típicas, idênticas e como o total de côvados aferidos e carimbados no Município da cidade da Virgem. É o carroção de Manuel José de Oliveira. É a companhia do Alba-Cosido, com o sr. Galliani e a sr.ª Gambardella e os despeitados da sr.ª Gambardella. É o teatro de Camões com o seu Zacarias, o avarento. É uma sr.ª de distinção vinculando a ária do Átila à sua laringe, aliás preciocíssima. É o administrador do concelho prendendo e enviando para o Carmo dois... o quê?... dois senhores que pateavam um cantor. É o Braz Tisana do Pobres. É a Maria, não me mates que sou tua mãe. É a Cantiga do passarinho e o Testamento do galo a gemer pela vigésima vez nos prelos incansáveis. É a cozinha dos herdeiros do chapelinho a crepitar de sardinhas fritas, toda ela uma alface, e tudo isso para honestíssimas famílias do gordo e sério mercador de fígados do Algarve, vassouras e abanos, que leva ao domingo de tarde a muito copiosa e enfezada prole a espairecer fora da cidade. É a matrona, casada defresco,que vai ao teatro de mantilha, que a depõe ao baixar do pano para, em completa harmonia conjuugal, devorar o nédio coixão de carneiro, fumegando odorífero açafrão dentre o pulento bojo duma caçarola de arroz de formo. É o riso escancarado duma plateia inocente que palmeia alegre um equívocoimundo das Luvas Amarelas. O Porto é tudo isto, e ainda mais. / ... Aqui tudo o que não for isto, é alvo de sátira traiçoeira, suja e mal-amanhada; e, se tem a franqueza de prestar consideração a esta estupidez orgulhosa, é posto à irrisão dos linheiros e dos pregueiros e dos outros todos que passaram do soco de Guimarães e da jaqueta de ganga para o casaco de veludilho e chinela de ourelos. / ... Tudo isto é verdade.






E é por isto mesmo que o Porto, espremido desde o vasto estabelecimento de Simão Duarte de Oliveira até ao tabuleiro de lumes pronto de reportórios do garoto da Porta de Carros, não transpira uma revista. Nos bailes está a filha do burguês, tipo degenrado de espadaúda minhota a fingir-se compleição nervosa e estremecida. No teatro é a mesma mulher, sempre deslocada, artificial e sonolenta. Na missa dos Congregados é a beata que pretende alinhar-se com um relicário Angélico meditado, decorado e repetido em casa pela mãe com várias explicações ricas de erudição das Horas Marianas. / A mulher do Porto, por consequência, vive só do seu vestido, do seu bracelete e do seu chapelinho de sol vermelho com grandes franjas amarelas. Groseeiramente requestada com cartas do estilo sirva-se vmc. entregar por esta minha ordem, a mulher daqui ignora rudemente as subtilezas do ideal, as preguiças amorosas que - diga-se aqui a própria verdade - são e serão sempre a douradoura das afeições. Aqui namora-se para casar: casa-se para ter filhos, que ordinariamente são as caras dos pais. Benza-os Deus!




De vez em quando, aparece uma cabeça de fogo a querer sevar-se de chamas no meio deste glacial reservatório das cabeças de pedra. Homens que não estudam o valor específico desta sociedade portuense metem-se a tratá-la com o coração viçoso e anelante: morrem na alma ou matam-se no corpo. É por isso que na semana passada um homem desespera dos recursos íntimos da coragem, não pode esquecer a mulher que o enganam não pode mesmo perdoar-lhe - e, para memória eterna de vingança de homem, rasga a artéria radial, derrama sangue até às agonias da morte, e vai morrer silencioso como o Chatterton, quando a mão do acaso, identificada à mão dum médico, lhe estanca o resto do sangue, e o salva dum suicídio de Séneca inimigo de semicúpios. / A sociedade está assim encaminhada. Honrosas excepções - homens incapazes de magoar um calo por causa do abandono da mulher, eu vos saúdo, como a tais patuscos se deve!


Camilo, O Nacional (25 Fev. 1850)

suroeste

En el aspecto cultural, los artistas fueron excelentes voceros de estos cambios que se produjeron a una velocidad inusitada para los tiempos. Esta «aceleración histórica», en palabras de Octavio Paz, llegó a las artes plásticas y a la literatura e la mano del simbolismo finisecular (que en el ámbito hispano se conoció con el término «modernismo») y las vanguardas históricas de los primeros años del siglo XX. El simbolismo se extendió como uma mancha de aceite por Europa y América, dando pie a que, algunos años después, las vanguardias históricas ecçlisonaran en el conjunto de las artes y en todo Occidente de forma simultánea. / [...] Cien años después, la Sociedade Estatal de Conmemoraciones Culturales (SECO) y el Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC) recuerdan aquella estética, ese gran movimiento artístico internacional, como lo denominaría el poeta portugués Fernando Pessoa, que transformó para siempre la concepción de la cultura. A exposição Suroeste acerca al publico el amplio período estético que compreende cronológicamente desde 1890 a 1936, con el objecto de iluminar mejor las raíces de la cultura actual y la forma de entender el mundo de las nuevas generaciones. / [...] Suroeste oferece una visión panorámica de los inícios de esa red de contactos, algo así como una colección de fotogramas que resalta cómo en la literaturam la plástica, el cine, la fotografía, la música el diálogo fue posible y fecundo entre los primeros modernistas y el primer simbolismo luso, por un lado y entre los miembros del 27 y los autores del segundo modernismo portugués, por otro.


Soledad López





Eduardo Lourenço - "O Mundo sem Saber", pp. 21-27

António Sáez Delgado - "Suroeste: el universo literario de un tiempo total em la Península Ibérica (1890-1936)", pp. 28-43.

JUan Manuel Bonet - "Portugal-España 1900-1936: artes plásticas", pp. 44-57.

José-Carlos Mainer - "Entre dos Siclos: la incertidumbre de la modernidad", pp. 58-69.

Gabriel Magalhães - "O Remorso Romântico: um ensaio sobre as desfocagens do romantismo no espaço peninsular", pp. 70-81.

Elena Losada Soler - "Una Historia Intermitente: Eça de Queirós en España", pp. 82-93.

Carlos Reis - "A Falência da Palavra Realista: antes do modernismo", pp. 94-105.

Eloísa Álvarez - "Eugénio de Castro y España", pp. 106-127.

Ángel Marcos de Dios - "Unamuno y la Literatura Portuguesa", pp. 128-141.

António Cândido Franco - "Pascoaes Ibérico", pp. 142-155.

Maria Jorge, Luís Manuel Gaspar - "Miren Ustedes: Leal da Câmara em Espanha", pp. 156-161.

Elias J. Torres Feijó - "Relacionamento Literário Galego-Português: legitimação e expansão com Sísifo ao fundo", pp. 162-187.

Victor Martínez-Gil - "Portugal y Cataluña ante la Modernidad: intercambios artísticos y literarios", pp. 188-203.

Antonio Franco Domínguez - "La Extremadura Portuguesa y la Estremadura Espanhola: los imaginarios del oficialismo", pp. 204-211.

Jordi Cerdà Subiraches - "Mouvement de Nouveauté", pp. 212-229.

Fernando Cabral Martins - A Obsessão da Identidade (Pesoa e a Ibéria do Século XX)", pp. 230-240.

Jerónimo Pizarro - "Otros Vestigios", pp. 240-249.

Antonio Sáez Delgado - "Adriano del Valle y Rogelio Buendía: los interlocutores ultraístas", pp. 250-255.

Eloy Navarro Domínguez - Ramón Gómez de la Serna, Carmen de Burgos y el «Descubrimiento» de Portugal", pp. 256-281.

Sara Afonso Ferreira - "Alamda e Espanha: os embaixadores desconhecidos», pp. 282-311.

João Paulo Cotrim, Luís Manuel Gaspar - "António Ferro: um cometa a sudoeste", pp. 312-317.

Andreia Galvão - "«De Braço Dado com Almada: Madrid, um «momento» determionante para Segurado e para a arquitectura portuguesa", pp. 318-323.

Ana Berruguété - "Vázquez Díaz y Portugal", pp. 324-339.

José Luís Porfírio - "Memórias de Vázquez Díaz", pp. 340-343.

António Apolinário Lourenço - "A Geração de 27 e o Segundo Modernismo Português", pp. 344-355.

Fátima Freitas Morna - "Vitorino Nemésio e a Espanha", pp. 356-373.

Javier Herrera - "Presencia de Portugal en el Cine Español: 1895-1936", pp. 374-385.

Salvato Telles de Menezes - "Relações Cinematográficas entre Portugal e Espanha: 1895-1936", pp. 386-394.

José de Matos Cruz - "1896-1936: Espanha / Portugal" ", pp. 395-399.

"Música na Exposição", pp. 400-403.

Hipólito de la Torre - "Cronologia Histórica", pp. 405-422.

Luís Manuel Gaspar - "Cronologia Literária e Artística", pp. 423-431.

Perfecto E. Cuadrado - "De Silêncios, Diálogos y Monodiálogos: surrealismo en España y Portugal", pp. 432-445.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

camilo e braga



"Emalámos, e partimos para Braga.

Dentro do carro, fomos rodados de modo que o regurgitamento cedeu aos choques.

Entrámos na cidade ao lusco-frusco.

Desde a entrada até ao campo de Sant`Ana fomos recebidos com assobios e guinchos e mugidos de garotos, aprendizes de chapeleiro, que vinham às portas das oficinas ganir. Os nossos antigos descobridores quando saltavam em praia de bárbaros eram assim recebidos. O mais é que os patrões das oficinas pareciamfolgarnaquele alaridoda canalha. Que terra! Aquilo poderá ser gente? O que lhes vale é o terço depois que uivam. Para que quererá Deus lá em cima semelhantes alarves?

Chegámos à hospedaria da Estrela do Norte.

Vimos um par de grossas pernas de uma redonda marrona que se estirava o mais comodamente que se pode sobre uma cama, e dava grátis o espectáculoaos que lhe passavam diante da sua porta. Pareceu-nos bastante ingénua a nossa vizinha de quarto! os comentários às pernas foram interrompidos por um robusto «aqui d`el-rei» que vinha da rua.

Saiba-se o que é isto. E. B. desceu à rua, e nós fomos à janela. Vimo-lo emolar-se na mó do povo que se apinhava em redor da vítima lamuriante.

Depois lá de baixo cá para o segundo andar, E. B. com roda a força dos seus pulmões, exclamou:

. Foi o fidalgo que lhe bateu.

Apenas proferida a palavra «fidalgo!» todo aquele gentio escoou-se pelas travessas laterais, e o cidadão bracarense, desamparado, achou que era queda sobre o couce do fidalgo enrouquecer gritando pelo rei, que valia menos ali que o cabo de polícia.

A história era simples. Um homem do povo ousou murmurar do fidalgo que atropelara com o cavalo uma velha. O fidalgo apeia, desencrava um estadulho dumc arro, e fá-lo ir a terra. O espancado grita, o povoléu escorre em tropel das betesgas vizinhas, quer saber quem é o facinoroso. Diz-se que é o fidalgo; a corja dos vilões despeja o forum, e vai exercer a sua dignidade de homens rezando o terço, e assobiando aos forasteiros que entram, ou apedrejando o incauto que se não descobre.

Vou concluir.

Passámos uma noite atormentada. A legião dos eprcevejos lá de cima tinha destacamentos cá em baixo. L. B. e E. B. abdaram três horas com os enxergões às costas. Eu descobri na minha cama um animal novo; não era bem insecto nem molusco; repeli-o com toda a força da minha indignação, e adormeci.

Às três horas da manhã estávamos em marcha."







quinta-feira, 14 de julho de 2011

camilo e o porto ii

visões do então jornalista camilo sobre a cultura social portuense, neste caso sobre o carnaval. estas "coisas que só eu sei" foram publicadas no jornal "o portuense" em 1853. esta crónica social, de amores que se encontram socialmente, conta-nos uma festa de carnaval no teatro s. joão, foi, depois, republicada no jornal "a concórdia" e mais tarde inserido na miscelânea "cenas contemporâneas". o alvo da crónica é "um dominó de cetim". são so primeiros exercícios literários de camilo sobre a intertextualidade metaliterária, caracterizando as personagens através dos escritores que então leu e lidos.






"... em Portugal, um dominó em corpo de mulher, que passeia «sozinha» num teatro, permite umas suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisonjeiam a vaidade de quem lhe recebe o conhecimento."




"... é mais fácil descobrir um mundo novo que uma mulher ilustrada. É mais fácil ser Cristóvão Colombo que Emílio Girardin´."




"Como o poeta se chama não sei, nem importa. Imagina tu que és um poeta, fantástico como lamartine, vulcânico como Byron, sonhador como MacPherson e voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina tédio desta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonisa descabelada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes passatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinária de espírito, um anjo de eloquência, um demónio de epigrama, enfim, uma destas criaturas miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa no coração mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma ofensa ao bom senso anatómico, não é verdade? Pois, meu caro dominó, há corações de toucinho estreme. São os corações, que ressumam óleo em certas caras estúpidas..."




"O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgência não só para as grandes afrontas, mas até para os grandes narizes. / - Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão de generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido."




"Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor-próprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma inocente a quem possas fazer feliz, enquanto a enganas..."




"As rosas purpurinas dos vinte anos tinham-lhe sido crestadas pelo hálito abrasado dos salões. A placides extemporânea de uma vida agitada via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade de um sexo que não pode acompanhar com a matéria as evoluções desenfreadas do espírito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi daquelas feições! que projeccção de uma sombra azulada lhe descia das pálpebras! Era uma mulher em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade."