segunda-feira, 18 de julho de 2011

camilo e o porto iii

Que é o Porto? / Não deparei ainda com esta pergunta filosófica e de rigorosa necessidade no formigueiro de crónicas e revistas, que ressaltam, luxuriosas de vida e esperanças dos tipos para os botequins. / Que é um caixeiro sem uma luva amarela? / O que é uma revista sem uma definição do Porto? Nada! - Um trabalho sem lucro; uma obra caduca, efémerae morredoira - uma incoerência literária e artística, uma pobreza de génio, uma desarmonia. / Então: que é o Porto?





O Porto é a tábua da lei das quatro operações aritméticas. É uma grande tabuada levada ao infinito da multiplicação das casas. É o dois e dois são quatro, convertido no balcão do probo e honradíssimo bacalhoeiro de miríades de caras todas típicas, idênticas e como o total de côvados aferidos e carimbados no Município da cidade da Virgem. É o carroção de Manuel José de Oliveira. É a companhia do Alba-Cosido, com o sr. Galliani e a sr.ª Gambardella e os despeitados da sr.ª Gambardella. É o teatro de Camões com o seu Zacarias, o avarento. É uma sr.ª de distinção vinculando a ária do Átila à sua laringe, aliás preciocíssima. É o administrador do concelho prendendo e enviando para o Carmo dois... o quê?... dois senhores que pateavam um cantor. É o Braz Tisana do Pobres. É a Maria, não me mates que sou tua mãe. É a Cantiga do passarinho e o Testamento do galo a gemer pela vigésima vez nos prelos incansáveis. É a cozinha dos herdeiros do chapelinho a crepitar de sardinhas fritas, toda ela uma alface, e tudo isso para honestíssimas famílias do gordo e sério mercador de fígados do Algarve, vassouras e abanos, que leva ao domingo de tarde a muito copiosa e enfezada prole a espairecer fora da cidade. É a matrona, casada defresco,que vai ao teatro de mantilha, que a depõe ao baixar do pano para, em completa harmonia conjuugal, devorar o nédio coixão de carneiro, fumegando odorífero açafrão dentre o pulento bojo duma caçarola de arroz de formo. É o riso escancarado duma plateia inocente que palmeia alegre um equívocoimundo das Luvas Amarelas. O Porto é tudo isto, e ainda mais. / ... Aqui tudo o que não for isto, é alvo de sátira traiçoeira, suja e mal-amanhada; e, se tem a franqueza de prestar consideração a esta estupidez orgulhosa, é posto à irrisão dos linheiros e dos pregueiros e dos outros todos que passaram do soco de Guimarães e da jaqueta de ganga para o casaco de veludilho e chinela de ourelos. / ... Tudo isto é verdade.






E é por isto mesmo que o Porto, espremido desde o vasto estabelecimento de Simão Duarte de Oliveira até ao tabuleiro de lumes pronto de reportórios do garoto da Porta de Carros, não transpira uma revista. Nos bailes está a filha do burguês, tipo degenrado de espadaúda minhota a fingir-se compleição nervosa e estremecida. No teatro é a mesma mulher, sempre deslocada, artificial e sonolenta. Na missa dos Congregados é a beata que pretende alinhar-se com um relicário Angélico meditado, decorado e repetido em casa pela mãe com várias explicações ricas de erudição das Horas Marianas. / A mulher do Porto, por consequência, vive só do seu vestido, do seu bracelete e do seu chapelinho de sol vermelho com grandes franjas amarelas. Groseeiramente requestada com cartas do estilo sirva-se vmc. entregar por esta minha ordem, a mulher daqui ignora rudemente as subtilezas do ideal, as preguiças amorosas que - diga-se aqui a própria verdade - são e serão sempre a douradoura das afeições. Aqui namora-se para casar: casa-se para ter filhos, que ordinariamente são as caras dos pais. Benza-os Deus!




De vez em quando, aparece uma cabeça de fogo a querer sevar-se de chamas no meio deste glacial reservatório das cabeças de pedra. Homens que não estudam o valor específico desta sociedade portuense metem-se a tratá-la com o coração viçoso e anelante: morrem na alma ou matam-se no corpo. É por isso que na semana passada um homem desespera dos recursos íntimos da coragem, não pode esquecer a mulher que o enganam não pode mesmo perdoar-lhe - e, para memória eterna de vingança de homem, rasga a artéria radial, derrama sangue até às agonias da morte, e vai morrer silencioso como o Chatterton, quando a mão do acaso, identificada à mão dum médico, lhe estanca o resto do sangue, e o salva dum suicídio de Séneca inimigo de semicúpios. / A sociedade está assim encaminhada. Honrosas excepções - homens incapazes de magoar um calo por causa do abandono da mulher, eu vos saúdo, como a tais patuscos se deve!


Camilo, O Nacional (25 Fev. 1850)

suroeste

En el aspecto cultural, los artistas fueron excelentes voceros de estos cambios que se produjeron a una velocidad inusitada para los tiempos. Esta «aceleración histórica», en palabras de Octavio Paz, llegó a las artes plásticas y a la literatura e la mano del simbolismo finisecular (que en el ámbito hispano se conoció con el término «modernismo») y las vanguardas históricas de los primeros años del siglo XX. El simbolismo se extendió como uma mancha de aceite por Europa y América, dando pie a que, algunos años después, las vanguardias históricas ecçlisonaran en el conjunto de las artes y en todo Occidente de forma simultánea. / [...] Cien años después, la Sociedade Estatal de Conmemoraciones Culturales (SECO) y el Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC) recuerdan aquella estética, ese gran movimiento artístico internacional, como lo denominaría el poeta portugués Fernando Pessoa, que transformó para siempre la concepción de la cultura. A exposição Suroeste acerca al publico el amplio período estético que compreende cronológicamente desde 1890 a 1936, con el objecto de iluminar mejor las raíces de la cultura actual y la forma de entender el mundo de las nuevas generaciones. / [...] Suroeste oferece una visión panorámica de los inícios de esa red de contactos, algo así como una colección de fotogramas que resalta cómo en la literaturam la plástica, el cine, la fotografía, la música el diálogo fue posible y fecundo entre los primeros modernistas y el primer simbolismo luso, por un lado y entre los miembros del 27 y los autores del segundo modernismo portugués, por otro.


Soledad López





Eduardo Lourenço - "O Mundo sem Saber", pp. 21-27

António Sáez Delgado - "Suroeste: el universo literario de un tiempo total em la Península Ibérica (1890-1936)", pp. 28-43.

JUan Manuel Bonet - "Portugal-España 1900-1936: artes plásticas", pp. 44-57.

José-Carlos Mainer - "Entre dos Siclos: la incertidumbre de la modernidad", pp. 58-69.

Gabriel Magalhães - "O Remorso Romântico: um ensaio sobre as desfocagens do romantismo no espaço peninsular", pp. 70-81.

Elena Losada Soler - "Una Historia Intermitente: Eça de Queirós en España", pp. 82-93.

Carlos Reis - "A Falência da Palavra Realista: antes do modernismo", pp. 94-105.

Eloísa Álvarez - "Eugénio de Castro y España", pp. 106-127.

Ángel Marcos de Dios - "Unamuno y la Literatura Portuguesa", pp. 128-141.

António Cândido Franco - "Pascoaes Ibérico", pp. 142-155.

Maria Jorge, Luís Manuel Gaspar - "Miren Ustedes: Leal da Câmara em Espanha", pp. 156-161.

Elias J. Torres Feijó - "Relacionamento Literário Galego-Português: legitimação e expansão com Sísifo ao fundo", pp. 162-187.

Victor Martínez-Gil - "Portugal y Cataluña ante la Modernidad: intercambios artísticos y literarios", pp. 188-203.

Antonio Franco Domínguez - "La Extremadura Portuguesa y la Estremadura Espanhola: los imaginarios del oficialismo", pp. 204-211.

Jordi Cerdà Subiraches - "Mouvement de Nouveauté", pp. 212-229.

Fernando Cabral Martins - A Obsessão da Identidade (Pesoa e a Ibéria do Século XX)", pp. 230-240.

Jerónimo Pizarro - "Otros Vestigios", pp. 240-249.

Antonio Sáez Delgado - "Adriano del Valle y Rogelio Buendía: los interlocutores ultraístas", pp. 250-255.

Eloy Navarro Domínguez - Ramón Gómez de la Serna, Carmen de Burgos y el «Descubrimiento» de Portugal", pp. 256-281.

Sara Afonso Ferreira - "Alamda e Espanha: os embaixadores desconhecidos», pp. 282-311.

João Paulo Cotrim, Luís Manuel Gaspar - "António Ferro: um cometa a sudoeste", pp. 312-317.

Andreia Galvão - "«De Braço Dado com Almada: Madrid, um «momento» determionante para Segurado e para a arquitectura portuguesa", pp. 318-323.

Ana Berruguété - "Vázquez Díaz y Portugal", pp. 324-339.

José Luís Porfírio - "Memórias de Vázquez Díaz", pp. 340-343.

António Apolinário Lourenço - "A Geração de 27 e o Segundo Modernismo Português", pp. 344-355.

Fátima Freitas Morna - "Vitorino Nemésio e a Espanha", pp. 356-373.

Javier Herrera - "Presencia de Portugal en el Cine Español: 1895-1936", pp. 374-385.

Salvato Telles de Menezes - "Relações Cinematográficas entre Portugal e Espanha: 1895-1936", pp. 386-394.

José de Matos Cruz - "1896-1936: Espanha / Portugal" ", pp. 395-399.

"Música na Exposição", pp. 400-403.

Hipólito de la Torre - "Cronologia Histórica", pp. 405-422.

Luís Manuel Gaspar - "Cronologia Literária e Artística", pp. 423-431.

Perfecto E. Cuadrado - "De Silêncios, Diálogos y Monodiálogos: surrealismo en España y Portugal", pp. 432-445.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

camilo e braga



"Emalámos, e partimos para Braga.

Dentro do carro, fomos rodados de modo que o regurgitamento cedeu aos choques.

Entrámos na cidade ao lusco-frusco.

Desde a entrada até ao campo de Sant`Ana fomos recebidos com assobios e guinchos e mugidos de garotos, aprendizes de chapeleiro, que vinham às portas das oficinas ganir. Os nossos antigos descobridores quando saltavam em praia de bárbaros eram assim recebidos. O mais é que os patrões das oficinas pareciamfolgarnaquele alaridoda canalha. Que terra! Aquilo poderá ser gente? O que lhes vale é o terço depois que uivam. Para que quererá Deus lá em cima semelhantes alarves?

Chegámos à hospedaria da Estrela do Norte.

Vimos um par de grossas pernas de uma redonda marrona que se estirava o mais comodamente que se pode sobre uma cama, e dava grátis o espectáculoaos que lhe passavam diante da sua porta. Pareceu-nos bastante ingénua a nossa vizinha de quarto! os comentários às pernas foram interrompidos por um robusto «aqui d`el-rei» que vinha da rua.

Saiba-se o que é isto. E. B. desceu à rua, e nós fomos à janela. Vimo-lo emolar-se na mó do povo que se apinhava em redor da vítima lamuriante.

Depois lá de baixo cá para o segundo andar, E. B. com roda a força dos seus pulmões, exclamou:

. Foi o fidalgo que lhe bateu.

Apenas proferida a palavra «fidalgo!» todo aquele gentio escoou-se pelas travessas laterais, e o cidadão bracarense, desamparado, achou que era queda sobre o couce do fidalgo enrouquecer gritando pelo rei, que valia menos ali que o cabo de polícia.

A história era simples. Um homem do povo ousou murmurar do fidalgo que atropelara com o cavalo uma velha. O fidalgo apeia, desencrava um estadulho dumc arro, e fá-lo ir a terra. O espancado grita, o povoléu escorre em tropel das betesgas vizinhas, quer saber quem é o facinoroso. Diz-se que é o fidalgo; a corja dos vilões despeja o forum, e vai exercer a sua dignidade de homens rezando o terço, e assobiando aos forasteiros que entram, ou apedrejando o incauto que se não descobre.

Vou concluir.

Passámos uma noite atormentada. A legião dos eprcevejos lá de cima tinha destacamentos cá em baixo. L. B. e E. B. abdaram três horas com os enxergões às costas. Eu descobri na minha cama um animal novo; não era bem insecto nem molusco; repeli-o com toda a força da minha indignação, e adormeci.

Às três horas da manhã estávamos em marcha."







quinta-feira, 14 de julho de 2011

camilo e o porto ii

visões do então jornalista camilo sobre a cultura social portuense, neste caso sobre o carnaval. estas "coisas que só eu sei" foram publicadas no jornal "o portuense" em 1853. esta crónica social, de amores que se encontram socialmente, conta-nos uma festa de carnaval no teatro s. joão, foi, depois, republicada no jornal "a concórdia" e mais tarde inserido na miscelânea "cenas contemporâneas". o alvo da crónica é "um dominó de cetim". são so primeiros exercícios literários de camilo sobre a intertextualidade metaliterária, caracterizando as personagens através dos escritores que então leu e lidos.






"... em Portugal, um dominó em corpo de mulher, que passeia «sozinha» num teatro, permite umas suspeitas que não abonam as virtudes do dominó, nem lisonjeiam a vaidade de quem lhe recebe o conhecimento."




"... é mais fácil descobrir um mundo novo que uma mulher ilustrada. É mais fácil ser Cristóvão Colombo que Emílio Girardin´."




"Como o poeta se chama não sei, nem importa. Imagina tu que és um poeta, fantástico como lamartine, vulcânico como Byron, sonhador como MacPherson e voluptuoso como Voltaire aos 60 anos. Imagina tédio desta vida chilra que se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pitonisa descabelada das tuas inspirações, e vieste por aqui dentro a procurar um passatempo nestes passatempos alvares de um baile de Carnaval. Imagina que encontravas uma mulher extraordinária de espírito, um anjo de eloquência, um demónio de epigrama, enfim, uma destas criaturas miraculosas que fazem rebentar uma chama improvisa no coração mais de gelo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expressão, não é assim? Um coração de toucinho parece-te uma ofensa ao bom senso anatómico, não é verdade? Pois, meu caro dominó, há corações de toucinho estreme. São os corações, que ressumam óleo em certas caras estúpidas..."




"O poeta devia ser mais generoso com a desgraça, porque a missão do poeta é a indulgência não só para as grandes afrontas, mas até para os grandes narizes. / - Será; mas o poeta, que transgrediu a sublime missão de generosidade para com as mulheres feias, vai ser punido."




"Sabes tu que eu tenho um profundo conhecimento do coração humano? Já vês que não sou a mulher que imaginas, ou quererias que eu fosse. Não comeces a desvanecer-te com uma conquista esperançosa. Faz calar o teu amor-próprio, e emprega a tua vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma inocente a quem possas fazer feliz, enquanto a enganas..."




"As rosas purpurinas dos vinte anos tinham-lhe sido crestadas pelo hálito abrasado dos salões. A placides extemporânea de uma vida agitada via-se-lhe no rosto protestando não contra os prazeres, mas contra a debilidade de um sexo que não pode acompanhar com a matéria as evoluções desenfreadas do espírito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade no frenesi daquelas feições! que projeccção de uma sombra azulada lhe descia das pálpebras! Era uma mulher em cujo rosto transluzia a soberba, talvez demasiada, da sua superioridade."










camilo e o porto




"... entre mim e o Porto, há duas mil léguas de ar livre. Tentei-o lá, mas não sei que prestigioso terror me encadeava ao porte das conveniências! / É coisa que está na atmosfera do Porto."



"Por esses tempos, era eu, moço de coração, de fantasia, sonhava, poetizava, carpia, exagerando-as, as dores alheias, interessava-me em saber os segredos das mágoas misteriosas e imaginava-me dotado de tanta sensibilidade e condão de consolar que, se acontecia aproximar-me da pessoa sofredora, a minha maior glória era enxugar-lhe as lágrimas, com não sei que expressões de alívio, esquecidas hoje."




Camilo, O Filósofo da Trapeira

quarta-feira, 13 de julho de 2011

romantismo(s)

para yoli, docemente




... cantava o amor que se aperfeiçoa pela morte, o Amor que não morre nem no túmulo."


Oscar Wilde




O primeiro livro que o "Diário de Notícias" oferece aos seus leitores, na sua colecção anual (e que já vem desde o ano 2000, suponho), é de contos que intitulou "Românticos". Tem textos de Oscar Wilde ("O Rouxinol e a Rosa"), de Guy de Maupasant ("De Viagem"), de Anton Tchekov ("Amor"), de Rainer Maria Rilke ("A Fuga") e, finalmente, de Aldous Huxley ("Hubert e Minnie"). Se no primeiro conto nos deparamos com o amor platónico não ideal, mas real, se no segundo temos o amor como compaixão e de resignação, o amor de agradecimento, no terceiro o amor mistério prático, que de mistério nada tem, porque se prevê no futuro, o amor da ignorância porque simplesmente se ama, digamos, o amor da indiferença conjugal, no quarto conto o amor-traição feito esperança, parecendo recair a culpabilidade nos outros, mas recaindo no próprio ser humano pela não responsabilidade, o último é o corolário de todos os outros, porque será, precisamente, no amor imaginário que não se concretiza na prática, a idealização metafísica do próprio amor que não se concretiza e não se materializa. Mas a personagem que a todos deve encantar e fascinar é, indiscutivelmente, o rouxinol, o qual, num acto de doação caritativa pela possível pureza amorosa do estudante, doa a sua própria vida, para que o estudante consiga o seu amor, que é, simplesmente, frustrado. Amor imaginativo no real não correspondido, nem sequer foi experiência vivencial, como em Hubert, o qual, perante a realidade, fugiu, temendo Eros no momento da entrega. As desculpabilidades do humano são sempre muitas. Neste exemplo, o do estudante, como poderia ele perceber as palavras do rouxinol no seu acto doativo, se nunca teve, pelo menos, a experiência vivencial do encontro? Veja-se a simplicidade com que Oscar Wilde nos transmite sobre aquilo que poderá ser a pureza do amor, nessa dupla entrega unitária: "A única recompensa que te peço é que sejas um amante fiel, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que esta seja; e é mais forte do que o poder, por mais poderosos que este seja. Tem asas de fogo, e cor de fogo tem o seu corpo. Há uma doçura de mel nos seus lábios e o seu hálito lembra o incenso." O estudante, que não percebeu nada destas palavras, resigna-se, desconfiando da boa-vontade do amável rouxinol. Quando conseguiu a rosa vermelha para o estudante, e este lá foi oferecer à sua amada para conseguir a dança e os seus sorrisos e os seus afectos, esta já tinha materializado o amor num outro pretendente, não corporalmente feito Eros, mandando o estudante às favas. O amor idealizado é o amor da ilusão. Comenta o estudante: "Que coisa estúpida é o Amor. De nada serve a lógica, porque nada prova: conta-nos sempre coisas que nunca sucederão e faz-nos acreditar em coisas que não são verdadeiras. Na realidade, não tem nada de prático, e nos tempos que correm, ser prático é tudo.Voltarei à Filosofia e estudarei Metafísica." Terá simplesmente uma vida estúpida, porque a Filosofia e a Metafísica com o Amor ainda saberão melhor! O amor na esperança. O amor será, precisamente, todo o contrário das suposições do estudante, porque a idealização metafísica do amor pela literatura (Hubert) será o fracasso perante a realidade. Camilo nos explifica isto mesmo em muitos dos seus romances. O amor de nada estúpido é, o amor não precisa da lógica e da racionalidade, é como é, desabrocha, os acontecimentos sucedem-se maravilhosamente, é prático porque vivencial no encontro e ainda podemos acreditar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

bernardino machado e francisco giner de los ríos

a minha prenda de aniversário para o dr. sá marques, com mais uma primavera invejável, um abraço fraternal e saudoso deste amigo que não o esquece, nem a si nem à sua família.




Para além dos estudos de Gerald Moser, precisamente "A Amizade entre Bernardino Machado e os Irmãos Giner de los Ríos" e "O Lusófilo Exemplar. Francisco Giner de los Ríos", o primeiro publicado na "Seara Nova" (1961) e o segundo na "Vértice" (1960), temos também um mais recente, de Eugenio Otero Urtaza intitulado "Bernardino Machado e Francisco Giner de los Ríos: entre 1886 e 1910. Amizade, Iberismo e Espírito de Reforma Educativa", estudo que se encontra publicado na "Revista de Pensamento do Eixo Atlântico" (2003). Entre os três estudos, não conheço mais nenhum até hoje, há uma linha de continuidade: a originalidade do pensamento de Bernardino Machado e de Francisco Giner de los Ríos através do plano educativo para a renovação mental da sociedade, no caso deles, e consecutivamente, de Espanha e de Portugal. Um iberismo único, para além das perspectivas políticas, que tantas polémicas causaram nos finais do século XIX em Portugal, unindo-os o mesmo ideal reformista da sociedade pela educação num sentido prático e de consciências livres. A base que sustém os respectivos estudos é, particularmente, a correspondência de ambos: enquanto que Gerald Moser se baseia na correspondência entre Francisco Giner e Bernardino Machado, por seu turno, Eugénio Urtaza utiliza a correspondência de Bernardino Machado para Francisco Giner. A minha perspectiva é contribuir com mais uma achega da relação de amizade, cívica e intelectual, de Bernardino Machado e Francisco Giner, através dos textos do primeiro e das suas referências que realiza perante o segundo. Julgo que esta relação textual, para uma maior compreensão de ambos, ainda não está feita, faltando, suponho, o mesmo no plano inverso, de Francisco Giner relativamente a Bernardino Machado. Desta forma, a primeira referência que Bernardino Machado efectua relativamente a Francisco Giner é, precisamente, no Congresso Pedagógico Hispano-Português-Americano. Vice-Presidente do respectivo Congresso, Machado refere-se ao Instituto Libre de Enseñanza e a Francisco Giner nos seguintes termos: "Um facto se patenteou no Congresso, que merece ser posto em alto relevo: a renovação operada na pedagogia espanhola pela sábia, cordialíssima e intrépida iniciativa da Institución Libre de Enseñanza de Madrid que de todas as boas armas de propaganda tem lançado mão na sua benemérita campanha, e que sobretudo pela virtude e autoridade do seu exemplo conseguiu influir profundamente não só nos métodos de ensino, ams ainda, o que é mais, nos costumes escolaresm desenvolvendo os costumes de família entre professores e discípulos e a todos atraindo para o mais puro culto do dever. Desta intimidade moral davam um testemunho, além de Madrid, várias Universidades da província, principalmente Oviedo. O Congresso, pode dizer-se, que era a um tempo o efeito e a demonstração da larga e poderosa influência dos superiores espíritos que dirigem a Institución entre os quais avulta, por mais que individualmente se retrata, um dos primeiros educadores modernos, D. Francisco Giner." (Pedagogia - I, V. N. de Famalicão, 2009, p. 434). Aqui, nesta citação, está precisamente o que os uniu, enquanto pedagogos: a fraterna conciliação dos espíritos numa fraternização intelectual e relacional entre professores e alunos para a consciencialização moral do segundo em plena liberdade de responsabilidade. Das influências de Julian Sans del Río e das origens da Institución Libre de Enseñanza, Machado nos explica o "mesmo sentimento patriótico de regeneração" que "agita profundamente a alma espanhola" no texto "A Pedagogia Nova em Espanha", principalmente a partir de 1876, na medida em que surge uma ordem real de que o "ensino universitário é taxado de nefasto à religião e às instituições." Os protestos não pararam. As origens da Institución de Giner estão nestes acontecimentos." (Pedagogia -I, V. N. de Famalicão, pp. 451-454). Destas duas referências de 1892, surge uma em 1896 nos seguintes termos: "Dos estrangeiros que hoje fazem opinião em assuntos de pedagogia, um dos mais eminentes é, sem dúvida, o douto professor espanhol, Francisco Giner. / O seu saber só é comparável aos seus serviços. De Madrid, onde ele é a alma da Institución Libre d`Enseñanza", a sua influência irradia por toda a Espanha; e é verdadeiramente belo e educativo este espectáculo das relações cordiais em que o magistério da nação vizinha se une intimamente entre si para o eficaz desempenho da sua missão. / Saudemos na pessoa do ilustre catedrático da Universidade Central, de Madrid, o sábio e o patriota." ("D. Francisco Giner". In Pedagogia - I, V. N. de Famalicão, p. 650). Um elogio público de uma amizade já, praticamente, com dez anos de existência. Em 1900, Bernardino Machado nas famosas "Conferências de Pedagogia", ao historiar o avanço da pedagogia europeia, refere-se a Giner nos seguintes termos: "Junto a nós, aqui mesmo em Espanha, os principais professores, à frente dos quais o meu querido amigo D. Francisco Giner, em quem me inspiro também, procuram dirigir o ensino nacional." (Pedagogia - III, V. N. de Famalicão, 2009, pp. 162) e, em 1901, em "A Estudantina de Santiago de Compostela" recorda saudosamente os tempos passados na Institución (Pedagogia - III, V. N. de Famalicão, 2009, pp. 195.198). Recorde-se que em 1888 Bernardino Machado é nomeado Professor Honorário da respectiva Instituición. Finalmente, mais duas referências: quando Blasco Ibañez vem a Portugal e é recebido pelos republicanos em Lisboa, em Maio de 1909, Machado realiza um discurso em sua honra e refere o melhor da intelectualidade espanhola da época, não esquecendo, como seria lógico, Francisco Giner. Assim se refere ao pedagogo espanhol nos seguintes termos: "Para essa obra de sociabilidade e de colaboração mútua tem contribuído imenso, cimentando a união íntima da juventude espanhola, a Instituição Livre de Ensino, de Madrid, à frente da qual está um dos primeiros educadores do nosso tempo, D. Francisco Giner. Por isso, dirige-lhe também dali as suas saudações." Estamos aqui perante uma outra temática tão cara aos dois pedagogos: a socialização do ensino: um ensino virado para a sociedade, um ensino activo e não amorfo.("Blasco Ibañez". In Pela República: 1908-1909 - II. Lisboa: Editor-proprietario, Bernardino Machado, 1910, pp. 547-551). Da última referência que de momento possuo de Bernardino Machado relativamente a Francisco Giner, encontra-se num discurso do primeiro proferido no aniversário do Centro Republicano de Setúbal (O Mundo. Lisboa, Ano 10, n.º 3398 (18 Abr. 1910), p. 2), salientando a filosofia política do pedagogo espanhol: "Um dos maiores pensadores contemporâneos, o professor espanhol D. Francisco Giner, numa nota apresentada no fim do ano passado ao Congresso de Saragoça, sobre o conceito da lei no direito positivo, demonstrou magistralmente como desde o fim do século dezoito as revoluções populares de fazer o que no Governo os Reis e os Ministros filantropos, como o nosso Pombal, tinham querido mas não haviam conseguido fazer: harmonizar, pela lei, as instituições com a sociedade." Concerteza que voltaremos mais vezes a estas duas fascinantes personalidades.