terça-feira, 14 de junho de 2011

camilo e a literatura



Anátema. Pref., sel. e notas de Alexandre Cabral. Lisboa: Círculo de Leitores, 1981



“Não queremos enviesar apontoados de palavras eufónicas ao avelhado véu de mistérios com que por aí se enroupa o romance chamado da época. Filho legítimo da literatura palpitante de actualidade chamam-lhe uns: outros dizem que não é nada, ou por muito favor – uma ginástica de contorções dificultosas de estilo, opulenta de pontinhos, e ahs! E ohs!
Não subscrevemos a alguma das opiniões.
A primeira é um revoltante empirismo da ciência, pavoneando-se como o arlequim cintilante de lantejoulas. Tem de seu uma prodigiosa colecção de palavras elásticas até o infinito das reticências. O que escreve, magnetiza a inteligência do que lê, e manda-o adivinhar. Os temperamentos de nervoso afinadíssimo, à custa de grandes cargas de electricidade, vergam ao sonambulismo, e dormem com meia página do Judeu Errante no meio. A literatura, que palpita, está para a literatura que não palpita como menino de colégio, todo vibrante de viveza, que vem no sábado a casa perguntar ao bom pai:
- Mon père! Comment se port-t-il, bien?
O pai que é português, como uma página de frei bernardo de Brito, responde:
- Estou bem, louvado seja Deus.
Depois, o traquinas esperto e inquieto, cansado das carícias do pai, diz-lhe assim com uma indolência apaixonada:
- Je suis fâché... Je m`en vais jouer la cavatine en Torquate Tasse.
O pai aventura uma pergunta:
- Quem foi esse Torquato Tasso?
- Torquato Tasso... foi um poeta de aspirações etéreas, rico de estilo luxuriante, vivido de paixões ardidas e incisivas, estro inspirado do grandioso da arte, fadado para os séculos como o pregão de uma luta que se há travado no primitivo das crenças...
- Muito bem – interrompeu o pai. – Donde era Tasso, em que anos floresceu, e qual dos cantos do seu poema é o mais importante?
O palpitante menino (que já tinha escrito prosa em bíblico, e versos a uma mariposa) pede uma resposta à reminiscência, e esta dá-lhe o que pode: um trecho de uma revista semanal, em que o escritor analisando a ópera Torquato Tasso, escrevera assim: Da harmonia ressalta o pensamento: o pensamento, vibrado pelo impulso místico da arte, é como a harpa íntima de Tasso a modular tristezas. A dor e o rondó! A cavatina e o pranto! A demência e o alegro! A alma que se rasga, e a harmonia que se quebra, rápida e improvisa como o expirar do fulminado!...”
Estas palavras bem as decorara o colegial; mas isto, que muito vale não era resposta para um velho biógrafo, cronológico, e, diga-se o que é, sem palpitações de
actualidade!” (Introdução, 45-46)


“Se o estilo é o homem, como dizem os que sabem, não nos desaprovem este recurso de emparelhar o saber dos velhos com o dos novos.
Segunda opinião:
Dizem que o escrever de hoje é dessorado de erudição, leviano, vaporoso, ginástico, estridente, cabalístico, bafagem de brisa, balão aerostático, fogo chinês, vicejante, ondulante, estrepitoso e abismador!
Não é tudo assim.
Popularizada a literatura, era necessário despojá-la das alfaias graves e sinceras da ciência, trazê-la da profundeza da erudição à superfície das inteligências vulgares, e vesti-la do maravilhoso surpreendedor, já que o lógico verosímil é repelido da biblioteca da burguesa e do artista. Para captar a benevolência da leitora, precisava-se da história de uns amores trágicos, urgentes, e lamentosos. Para a do artista, cumpria ampliar-lhe a órbita do espírito apoucado, e humanitária da arte. O estilo devia ser exagerado como o pensamento: quimérico, híbrido, e mentiroso como todas as teorias, criadas no caos de todas as práticas.
Trabalho exclusivamente do coração, artimanha política, método civilizador, era aquele o único adaptado para cabeças sem cultura, sem sistema, prenhes de utopias e fumos de socialismo, como ele se escreve em jornais e romances. Criou-se, pois, uma escola militante. E o povo aplaude esses estereótipos baratos consagrados ao povo, entenda ou não entenda o que lê, possa ou não possa digerir o que entende.” (Introdução, 46-47)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

camilo, a literatura e a dimensão moral






Camilo Castelo Branco - Cenas da Foz. Lisboa: Círculo de Leitores, 1989.





“O romance tem cousa má!
É a primeira vez que os tipos perpetuam o invento escandaloso de um título sem texto! Um crítico francês anunciou um romance, que, em lugar de principiar pelo princípio, começava no segundo volume. O autor, respeitador do público, explicava o contra-senso, dizendo que os romances eram escritos de modo que tanto fazia ao caso começar do primeiro volume para diante, como do último para trás.
Isto é razoável e persuasivo. Porém, incoerências deste tamanho não se desculpam num romance pensado, filosófico, haurido das fontes do coração, da experiência, e feito expressamente para entrar em quinhão de glória com as Reflexões de Fócion, com o Manual de Epicteto, com os Enxertos Gnómicos de Séneca, com os Caracteres de la Bruyére, excelentes repositórios de filosofia prática, que eu hei-de ler na primeira ocasião, porque me dizem que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres desta ordem têm sempre uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já afirmar, sem os ter lido. Fôcion sofreu morte dolorosa. Séneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquele escravo do Tesouro de Meninos, que exclama, erguendo a canela partida por uma paulada: «Não vos disse eu que ma havíeis de quebrar?» Donde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias às avessas com o género humano, e muitas vezes com a arte de engranzar capítulos de romance, de modo que a história vá bem contada até ao fim, que deve ser onde casa o herói, ou a heroína morre de tubérculos, no uso de óleo de fígados de bacalhau.
João Júnior, sumamente penhorado pelas atenciosas maneiras com que os seus numerosos amigos tem recebido esta sua primogénita criatura, tem a honra de declarar ao público, e mais senhores, que o capítulo XIV foi eliminado deste quadro de costumes, porque havia nele frescura de ideias, fantasia de cores, debuxos copiados da natureza viva, cousas, enfim, tão verdadeiras, tão patriarcais, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os óculos, e sorver duas pitadas conspícuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capítulo em que o mencionado supra contava os factos como eles tiveram a impudência de acontecer.
Em virtude do que entrei na minha consciência de artista, e vim a um acordo com a moral, aspando as doze páginas em que eu fortalecia os hábitos da natureza bruta com as doutrinas lúcidas dos intérpretes mais abalizados dos mistérios do coração; doze páginas salpicadas de uma erudição exemplificativa, que remontava à criação do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermédio do merinaque, são dois entes homogéneos, duas substâncias amalgâmicas, dois tomos da mesma obra, duas criaturas, enfim, dos nossos pecados. Nesse capítulo, naufragado no cachopo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião ideológica a respeito de mulheres, rica de história antiga, em que, sabe Deus com que vigílias, entravam Salomão e Dalila, Péricles e Aspásia, Tibulo e Lésbia, Ovídio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama de uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arroubado dos anélitos da adolescência, com a fé pura, cândida e imaterial do amor de Voltaire a Madame du Châtelet, do amor de La Rochefoucauld a Madame de La Fayette, do amor da minha vizinha do terceiro andar, que, às duas horas da noite, desce, com uma caixa de lumes prontos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do Trovador. Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometo embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.
Fortíssimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capítulo XIV, visto que era ele o relatório das miudezas que se deram antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 de Agosto de 1826, acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em afirmar que o meu romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estilo levantado, alegórico, metafórico, ao alcance, apenas, das inteligências superiores. Nem isso. Estava escrito em estilo oriental, balsâmico, todo perfumarias de subtil aroma da alma, e ele teima em dizer que a alma não tem nariz.” (79-81)

terça-feira, 7 de junho de 2011

a espanha de blasco ibañez

sessão da homenagem a blasco ibañez na sociedade de geografia, promovida pelo centro democrático académico em 16 de maio de 1909. fotografia retirada do blog do dr. manuel sá marques, do dia 12 de janeiro de 2010




para yoli, republicana convicta, este texto belíssimo de bernardino machado sobre a espanha cultural, texto lido no almoço que foi oferecido ao republicano espanhol em Lisboa, no dia 18 de Maio de 1909. a república portuguesa avizinhava-se.






Saúda em Blasco Ibañez a Espanha, a Espanha culta, que, não há muito ainda, quase ao mesmo tempo era glorificada na sua arte, na sua indústria e na sua ciência – Estocolmo conferia o Prémio Nobel ao dramaturgo Echegaray, Londres solenizava o aniversário do invento do laringoscópio por Manuel Garcia e a Academia de Berlim fazia seu sócio o sábio Tamon y Cajal – Nação admirável, que tem para celebrar as suas glórias passadas uma personalidade tão eminente como Menendez Pelayo, que vale por uma Academia inteira, e tem para lhe rasgar o horizonte das glórias futuras a personalidade extraordinária de Joaquim Costa, que é só por si como se fosse uma faculdade inteira de direito moderno.
Saúda a Espanha liberal, onde há hoje um grande Partido Republicano, com brilhante representação no Parlamento e nos municípios, cuja força profunda e incontestável se acaba de demonstrar rijamente nas últimas eleições, e onde o Chefe do Estado envia os seus cartões de cumprimentos aos presidentes do Senado e do Congresso, onde o Senado é já em parte electivo e o Congresso eleito pelo sufrágio universal, e onde o conservador Maura combate dentro do próprio partido a política do poder pessoal, do engrandecimento do poder real, e propõe e faz vingar uma lei de governo local, largamente descentralizadora.
Saúda a Espanha trabalhadora, onde se vai operando uma poderosa organização associativa de classe, e onde o Ministério das Finanças Villaverde fez mais do que equilibrar as despesas com as receitas, porque levou o orçamento e as contas do Estado até ao superavit, onde os governos têm sucessivamente reduzido os impostos de consumo e onde os partidos no poder se empenham em promulgar leis de justiça e protecção ao operariado.
Saúda a progressiva Nação espanhola, em que não só figuras tão extremadas na vida pública, como eram entre si ainda há pouco Galdés e Pereda, se abraçam no trato particular, mas em que Maura procura Azcárate e Labra para os ouvir sobre as questões nacionais pendentes mais graves, em que o Ministro Marquês de Figueiroa, conservador e católico, se incorpora, em nome do Governo, no saimento do republicano e livre pensador Salmeron, em que os poderes públicos não duvidam nomear para o Instituto de Estudos Sociais os professores republicanos Builla e Posada e eles não duvidam aceitar a nomeação, em que Madrid, por acordo e com aplauso geral, remove duma das suas mais belas praças o obelisco comemorativo dum nascimento principesco para o substituir pelo monumento ao príncipe da eloquência tribunícia, Castelar. E ainda tem nos ouvidos os vivas à República que, perante esse majestoso monumento, o povo, levando entre si Moret, ergueu, em meio da impassibilidade da polícia, no último aniversário da Revolução de Setembro.
Para essa obra de sociabilidade e de colaboração mútua tem contribuído imenso, cimentando a união íntima da juventude espanhola, a Instituição Livre de Ensino de Madrid, à frente da qual está um dos primeiros educadores do nosso tempo, D. Francisco Giner. Por isso, dirige-lhe também dali as suas saudações.
Neste movimento de solidariedade nacional, nesta penetração de ideias e sentimentos humanistas de tolerância, vê-se bem o espírito novo que avança serenamente e dominadoramente. À custa de quantas lutas, a preço de quantas dores e angústias, de quantos sacrifícios da democracia? Ai! Imagina-o.
E há uma província de Espanha, onde esse espírito novo tem a pujança, a exuberância do solo natal; é Valência.
De Valência é Soriano, é o republicano Luís Sinarro, insigne histologista e psicólogo, é o brilhante escultor republicano Benlliure, é o republicano Sorolla, o afamado pintor, é o republicano Morote, o enorme jornalista mundial, cheio de talento e de atracção, nosso inolvidável amigo muito querido, a quem tanto e tanto devemos das simpatias da opinião pública da Espanha para connosco, quando, em luta pela liberdade contra o despotismo, tivemos cruelmente contra nós a imprensa de todas as outras nações, até da liberal Inglaterra, até da republicana França, e é o republicano Blasco Ibañez, o prodigioso homem de letras que temos a honra de hospedar neste momento.
Saúda efusivamente a Blasco Ibañez, e, para o fazer, traz-lhe mais do que a sua pobre palavra, traz-lhe um abraço carinhoso de Guerra Junqueiro.

Bernardino Machado - "Blasco Ibañez". In Pela República: 1908-1909 - II. Lisboa: Editor-Proprietario, Bernardino Machado, 1910, pp. 547-551; "Em honra de Blasco Ibañez. Homenagem dos republicanos portugueses. O almoço de hontem no Grande Hotel de Inglaterra. O sr. dr. Bernardino Machado saúda a Hespanha politica e abraça Blasco Ibañez em nome de Guerra Junqueiro". In O Mundo, Lisboa, Ano 9, n.º 3067 (19 Maio 1909), p. 1.















domingo, 29 de maio de 2011

armando bacelar




ARMANDO BACELAR

(St.º Adrião, V. N. de Famalicão, 25-09-1998; Porto, 02-09-1998)


O TEÓRICO NEO-REALISTA


E só uns novos homens de um novo meio social para quem a verdade não tenha o brilho sufocante do sol, poderão encará-lo de frente, criando uma nova ideologia que volte a ser expressão do concreto geral, para o desenvolvimento da história pela resolução objectiva dos problemas humanos.

Armando Bacelar


Escritor e político. Com uma luta anti-fascista exemplar (preso várias vezes), Armando Bacelar, que terminou a sua licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra em 1943, participou activamente na imprensa e nas revistas literárias ligadas ao Neo-Realismo, tal como é o caso Alma Académica (Porto), Alma Nova (Braga), Comércio dos Novos/O Comércio da Póvoa de Varzim (Póvoa de Varzim) – dirigiu estes dois últimos títulos enquanto ainda jovem estudante – Da Gente Moça//O Trabalho (Viseu), O Diabo (Lisboa), Do Espírito Literário/Ecos do Sul (Vila Real de St.º António), A Ideia Livre (Anadia), Independência de Águeda (Águeda), Nova Luz (Coimbra), Pensamento (Porto), Síntese (Coimbra), Sol Nascente (Porto, Coimbra), O Trabalho (Viseu), Vértice (Coimbra), entre outros títulos. Escreveu com os seguintes pseudónimos: Carlos Relvas, Eugénio Bastos Freire, Raul Sequeira, Aníbal Borges de Castro e Inês Gouveia. A seguir ao 25 de Abril foi Secretário de Estado da Justiça e Ministro dos Assuntos Sociais pelo Partido Socialista em vários governos provisórios, além de deputado em várias legislaturas. Foi distinguido em 1996 pelo então Presidente da República Jorge Sampaio com a Grã-Cruz da Ordem do Infante, tendo sido também distinguido pela Câmara Municipal de V. N. de Famalicão com a Medalha de Ouro do Município. No mesmo ano, a Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco organiza a exposição Armando Bacelar e Lino Lima: testemunhos de luta pela liberdade, baseada essencialmente no espólio doado pela família de Bacelar à mesma instituição pública famalicense. A propósito da problemática de Bacelar enquanto teórico do Neo-Realismo ver, por exemplo, Carlos Reis – O Discurso Ideológico do Neo-Realismo Português. Coimbra: Almedina, 1983; Textos Teóricos do Neo-Realismo Português. Apresent. Crítica, sel., notas e sugestões de leitura Carlos Reis. Lisboa: Editorial Comunicação, 1981; Armando Bacelar – (Pre)Tetxos: Armando Bacelar, Teórico do Neo-Realismo? Nota explicativa, sel., notas e indicações bibliográficas Amadeu Gonçalves; Introd. José Manuel Mendes. No Prelo.







armando bacelar e manuel da fonseca





Numa altura em que o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, prepara as comemorações de dois centenários de nascimento, o de Alves Redol e o de Manuel da Fonseca, abrindo ontem a exposição comemorativa do segundo, apresento hoje algumas capas e dedicatórias de Manuel da Fonseca a Armando Bacelar, livros existentes no espólio de Bacelar patente na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão.































sábado, 28 de maio de 2011

armando bacelar e alves redol



Numa altura em que o Museu do Neo-Realismo pretende comemorar, este ano, o centenário de nascimento de Alves Redol com várias iniciativas, partilho um texto de Armando Bacelar, o qual está incluído no meu livro ainda inédito "Pre-Textos", o qual contém oitenta e um textos da colaboração dispersa de Bacelar pela imprensa neo-realista. O texto de Armando Bacelar sobre Alves Redol encontra-se publicado no livro "Testemunhos dos seus Contemporâneos" (2001). Contudo, não só partilho o respectivo texto, como partilho as respectivas informações bibliográficas que se encontram em notas-de-rodapé, da minha responsabilidade, partilhando igualmente, em conexão com o texto de Bacelar, as obras existentes no seu espólio, o qual se encontra na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco. Desta forma, partilho as capas dos livros de Alves Redol com a respectiva dedicatória a Bacelar, começando a amizade de ambos com a simples dedicatória para o crítico literário da "Vértice", passando a ser ao longo dos anos o camarada das lides literárias. O que hoje aqui coloco, espero que seja do agrado de quem visitar este blog.





MEMÓRIA DE ALVES REDOL[1]


Em 1937, cheguei a Coimbra, para cursar Direito na velha Universidade. Além de uma mala com roupa, levava uma pasta com livros, projectos e manuscritos e a alma cheia de sonhos de redenção do país e da humanidade, através da luta política (que naquele tempo só podia ser clandestina ou ressupunha que o essencial se passasse na clandestinidade) e da acção cultural renovadora (por uma cultura viva, colocada ao serviço do povo, através de folhetos, de conferências e recitais, de colaboração em jornais e revistas, ocupando o espaço que a censura prévia e a repressão nos deixassem). Com Alguns nomes na mente, de possíveis companheiros, com eles estabeleci contactos que nunca mais me deixaram e que a comunidade dos riscos mais estreitavam. Foi então que, pela primeira vez, me citaram Alves Redol, colaborador de “O Diabo” em que eu, pouco mais tarde, também viria a colaborar, sempre com pseudónimos vários que me permitiam, como a muitos outros empenhados nas tarefas políticas, preservar com o anonimato a liberdade de actuação possível.Era o tempo da mais feroz repressão salazarista. Poucos antes, o fascismo português institucionalizara-se, à imagem e semelhança dos modelos hitlero-mussolinianos com a criação da Legião e da Mocidade portuguesas, com o reforço da censura e da polícia política (P. V. D. E., antecessora da P. I. D. E. / D. G. S.). Na clandestinidade, fracassadas as tentativas anteriores dominantes do “reviralhismo” (conjunto dos partidos da I República, dissolvidos), da maçonaria (a eles ligada, igualmente dissolvida e que recebera rudes golpes) e do anarco-sindicalismo (que perdera a sua acção de guia da classe operária depois da greve revolucionária de 1934 na Marinha Grande e do fracassado atentado contra Salazar, em 1935, cujos quadros tinham sido dizimados, sem que se renovassem), a condução da luta passara para o Partido Comunista Português. Com este e com as outras correntes oposicionistas se constituíra, pouco antes, à semelhança do que acontecera em França e Espanha, mas em condições que a clandestinidade tornava completamente diferentes (como em Itália e na própria Alemanha), a Frente Popular que, nesse ano de 1937, tivera muitos activistas perseguidos e presos, torturados nos cárceres da P. V. D. E., com tal sanha e requintes de barbaridade que o próprio Ministro do Interior e cunhado do Salazar, Passos e Sousa, se vira forçado a ordenar um pseudo-inquérito à polícia política. Aqui ao lado, na vizinha Espanha, decorria a fase mais aguda da guerra civil que opunha


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[1] Armando Bacelar – “Memória de Alves Redol”. In Alves Redol: testemunhos dos seus contemporâneos. Org. Maria José Marinho, António Mota Redol. Lisboa: Caminho, 2001, pp. 27-30.
“Representação Cénica com a peça «Forja», de Alves Redol, não se realizou por recusa de cedência do «Teatro Narciso Ferreira» (COOPRAVE 1970 6).
“Aspecto Cultural. Neste capítulo, associou-se a nossa Cooperativa ao movimento de divulgação da obra de Alves Redol, patenteando ao público a «Exposição Itinerante». Seguiu-se um colóquio sobre a vida e a obra do escritor, moderado pelo Dr. José Manuel Mendes, de Braga, que amavelmente acedeu ao convite neses entido feito pela Direcção” (COOPRAVE 1971 3).


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os governos republicanos, da Frente Popular, às legiões do fascismo franquista, apoiadas a fundo por Salazar, Hitler e Mussolini. Todos nós sabíamos que se jogava também o essencial do nosso destino de portugueses por muitos anos. E organizávamos as acções possíveis de solidariedade com os irmãos republicanos espanhóis. As emissões rádios governamentais de Madrid, Barcelona e Valência ouviam-se perfeitamente em Portugal e eram escutadas diariamente com emoção e ansiedade. Entre outros, os discursos de Neni e da Passionária entusiasmavam-nos, o “Cancionero de la Guerra Civil”, os poemas de Lorca (fuzilado em 1936), de Rafael Alberti[1], de António Machado, de José Bergamin e de Miguel Hernandez circulavam de mão em mão, nos poucos exemplares que conseguíamos obter.
Se da Espanha nos vinha a emoção, da França desse tempo chegava-nos o essencial do pensamento. Obras como as de Marx (nas edições Costes), de Paul Latargue, de Jean Cassou, de Paul Langevin, de Louis Aragon (“Pour un Réalisme Mistifiée”), de Georges Friedman (“La Crise du Progrès” e “De la Sainte Russie à l`U. R. S. S.”) exerceram profunda e duradoura influência entre nós.Da França, mas não só. Porque a própria literatura da emigração italiana aqui era lida, geralmente em versões francesas, com “Fontamara” e Le Grain Sous la Neige”, de Ignazio Silone, em que se espelhava tanto da realidade comum aos portugueses, sobretudo dos rurais. Da Alemanha vinham-nos romances como os de Erich Maria Remarque e de Ernst Glaeser, os desenhos cáusticos de Groz, estudos teóricos de Engels e dos pensadores marxistas pré-hitlerianos. Da América do Norte recebíamos a influência das obras literárias realistas sociais de Theodore Dreiser, de Sinclair Lewys, de Upton Sinclair, de Helen Grace Carlisle, de Michael Gold, de Charles Yale-Harrison, de John dos Passos e de pensadores como Sidney Hook. Da Inglaterra conseguíamos obter as análises políticas de Palm Dutt e algumas revistas de esquerda, pois as publicações de língua inglesa eram menos impedidas de chegar até nós. Da União Soviética, também via França e em traduções francesas, obtínhamos os romances de F. Gladkov “Le Ciment”, de Gorki (sobretudo “A Mãe”), “Et l`Axier Fut Trempé”, de Boris Pilniac (“O Volga Desagua no Mar Cáspio”), de Tchapaiev, de Ilya Ehrenburg, de Cholokov (“O Don Silencioso”), os ensaios sobre estética e literatura de Plekhanov, os escritos de Lenine e Staline, que considerávamos então o desenvolvimento do humanismo marxista. Esporadicamente, vinham até nós algumas obras da literatura progressista e revolucionária sul-americana, como “Dona Bárbara” de Rómulo Galegos, “Huasipungo” de Jorge Icaza, “Tuerra Amarga”, versos de Serafín Garcia, e outros, além de reproduções dos grandes pintores mexicanos (Siqueros, Orozco, Rivera). Mas, sobretudo, a grande revelação para todos nós eram os novos romancistas brasileiros, com a força pujante do seu realismo social. Acima de todos Jorge Amado (“Cacau”, “Suor”, “Mar Morto”, “Jubiabá”, “Os Capitães da Areia”) e Graciliano Ramos (“Vidas Secas”, “caetés”). Mas também Osvaldo de Andrade, Lins do Rego, Amando Fontes, Raquel de Queiroz, Eriço Veríssimo. No plano interno, a nova geração que começava a afirmar-se, imbuída de valores do marxismo (materialismo dialéctico, humanismo concreto, racionalismo moderno, estas duas últimas denominações usadas porque ultrapassavam as barreiras da censura) e o realismo socialista (realismo social, neo-realismo, escrevia-se, pelo mesmo motivo), partia ao assalto das cidadelas culturais e estéticas dominantes entre os expoentes máximos do pensamento e da arte das gerações anteriores. Notas, artigos, palestras, folhetos, colaboração no semanário “O Diabo”, de Lisboa, e no mensário “Sol Nascente”, publicado no Porto, mas com a sua direcção em Coimbra, bem como em toda uma extensa rede de jornais de província do



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[1] Rafael Alberti – Antología Poética: 1924-1944. Buenos Aires: Editorial Losada, 1945. (BMCCB/FL-EAB).


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país inteiro atacavam, mais ou menos acerbamente (e quantas vezes injustamente!), o idealismo dos mentores da “Seara Nova” (sobretudo António Sérgio e os seus discípulos) e o intimismo, o subjectivismo dos escritores ligados à “Presença” (Régio, Gaspar Simões, Casais Monteiro). Mário Dionísio, Jofre Amaral Nogueira, António Ramos de Almeida, Manuel Campos Lima, Joaquim Namorado, Rodrigo Soares, Carlos Serra (estes dois nomes são alguns dos pseudónimos de companheiros antigos que ficaram pelo caminho), Luís Vieira (pseudónimo de Fernando Marta), Fernando Piteira Santos, Álvaro Cunhal foram algumas das vozes que mais se fizeram ouvir nessa campanha que esquematicamente, no campo do pensamento, opunha o materialismo ao idealismo e, nos domínios da arte, propunha o realismo contra o subjectivismo estético.
Da sua página de crítica do suplemento literário semanal do “Diário de Lisboa”, João Gaspar Simões era quem mais se opunha a estas arremetidas doutrinais. E clamava: “Obras! Venham obras”, na constatação evidente de que um movimento meramente doutrinário não bastava, de que qualquer corrente estética não chega sequer a ter existência se não se materializar em obras válidas.
Por esse tempo, Alves Redol, que não andava muito misturado a estas polémicas, se bem que profundamente interessado nelas, pensava e trabalhava, convivia com o povo do seu Ribatejo e documentava-se. Daí extraíra um pequeno primeiro livro, que não era de ficção, mas de ensaio folclórico-sociológico: “Glória: uma aldeia do Ribatejo”[1]. E foi no ano de 1939 que publicou o seu primeiro romance, “Gaibéus”[2], como quem atira uma pedrada a um charco.
“Gaibéus” tinha realmente o valor da sua força e da sua novidade. Era, ao mesmo tempo, um panfleto literário e uma obra de novo tipo, apesar das suas debilidades formais, que mais tarde o escritor reviu. Romance colectivo, sem personagens individuais, situava-se nos antípodas da ficção de personagens que até aí se fizera. A sua matéria era a das relações sociais exploradores-explorados predominantes no meio do trabalho rural em que se movia, a afirmação de uma classe que começava a estar consciente do seu papel histórico, ainda incipiente e sem politização efectiva, na qual se pressentia mais do que se sentia o ritmo ofegante e o esforço doloroso da revolução em que se acreditava e que se desejava, mas sem que no livro se dessem largas à intervenção do romancista, que procurava encontrar-se como que ausente da obra. Nesta característica, Alves Redol demarcava-se dos precursores do neo-realismo, da corrente do romance social anterior sob a influência de Zola e Blasco Ibañez, desde Manuel Ribeiro a Ferreira de Castro.
Não foi por acaso, mas por um amadurecimento colectivo correspondente a transformações sociais e culturais na sociedade portuguesa, que Alves Redol publicou nesse ano o primeiro romance, porque pela mesma altura apareceram a “Rosa dos Ventos”, livro de poemas de Manuel da Fonseca, e a “Sinfonia de Guerra”, de António Ramos de Almeida com que se iniciava o movimento neo-realista no domínio do livro de poesia.Desde então até à sua morte, a actividade literária de Redol nunca mais se deteve. Pouco depois, apareciam os contos de “Nasci Com Passaporte de Turista”[3], a que se foram sucedendo, com ritmo regular e crescente de apuramento e de vigor, “Marés”[4],


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[1] (1938) Alves Redol – Glória: uma aldeia do Ribatejo: ensaio etnográfico. Pref. João David Pinto Correia. Lisboa: Publicações Europa-América, [s. d.].
[2] Alves Redol – Gaibéus: romance. Lisboa: AR, 1939 (Dist. Livraria Portugália).
Alves Redol – Gaibéus. 6.ª ed. Lisboa: Publicações Europa-América, 1965.
[3] Alves Redol – Nasci Com Passaporte de Turista: contos. Lisboa: [s. n.], 1940.
[4] Alves Redol – Marés: romance. Lisboa : Livraria Portugália, 1941. (BMCCB/FL-EAB).



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“Avieiros”[1], “Fanga”[2] e as obras posteriores. O escritor recorreu aos romances de personagens em todos estes livros mas, através deles, a sua preocupação constante foi a de captar as relações sociais no que considerava essencial, nas suas linhas de força mais significativas dentro de uma realidade em movimento. Para as suas obras partia de um método de trabalho que consistia no convívio humano e na cuidadosa anotação da realidade observada, como fez quando, afastando-se do seu Ribatejo que tão bem conhecia, andou embarcado e a compartilhar a vida com os trabalhadores que desciam e subiam o Douro, ao preparar o seu ciclo de romance “Ciclo Port-Wine”[3].
Em Coimbra, em Lisboa, no Porto, nós, os amigos de Redol e os que com ele andávamos embarcados nas mesmas águas, nas mesmas aventuras e correndo os mesmos riscos, convivíamos intensamente, desde as mesas dos cafés às salas das redacções e a outros encontros de carácter mais reservado ou mesmo secreto, deslocando-nos com frequência entre essas cidades, ao nível dos mais responsáveis, para trocarmos ideias e coordenarmos a nossa acção. Era aí que, raras vezes, aparecia Redol, com a sua modéstia e a sua descrição de que não fala muito nem teoriza, mas sobretudo trabalha, com um sorriso aberto, fraterno e bondoso a bailar-lhe nos lábios, de olhos fundos e penetrantes cravados em nós e, sobretudo, abertos para o que nós significávamos, para o novo mundo em que todos acreditávamos, que, com os homens, iríamos construir.
Entretanto, sobrevinda a tragédia do fim da guerra de Espanha, a repressão intelectual acentuava-se. A censura aperfeiçoava-se. O “Sol Nascente”, “O Diabo” e quase todas as publicações mais activas eram suprimidas simultaneamente por um simples ofício censório. Outras mais efémeras lhes tomavam o lugar. Isto a partir de 1940, após a queda da França, em fase adiantada da segunda guerra mundial. Mas, por essa altura, já havia um largo movimento editorial, com o “Novo Cancioneiro, os “Novos Prosadores” e muitas publicações avulsas em que toda uma geração de escritores se afirmava. Iam-se afirmando Soeiro Pereira Gomes, Mário Dionísio, Manuel da Fonseca, Faure de Rosa, Manuel do


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[1] Alves Redol – Avieiros: romance. Lisboa: Livraria Portugália, 1942.
Alves Redol – Avieiros: romance. Pref. AR. Lisboa: Publicações Europa-América, 1968.
[2] Alves Redol – Fanga: romance. Lisboa: Portugália Editora, 1943.
[3] Alves Redol – Ciclo Port-Wine: horizonte cerrado – I. Lisboa: [s. n.], 1949.
Alves Redol – Ciclo Port-Wine: vindima de Sangue – III. Lisboa: Publicações Europa-América, [s. d.].
Outros livros de Alves Redol na BMCCB/FL-EAB: i) Anúncio: novela. Lisboa: Inquérito, 1945; ii) Porto Manso: romance. Lisboa: Editorial Inquérito, [1946]; iii) Olhos de Água. Il. Lima de Freitas. Lisboa: Centro Bibliográfico, [1954]; iv) A Barca dos Sete Lemes: romance. Lisboa: Publicações Europa-América, 1958; v) Uma Fenda na Muralha: romance. Lisboa: Portugália-Editora, [1959]; vi) O Cavalo Espantado: romance. Lisboa: Portugália Editora, 1960; vii) Barranco de Cegos: romance. Lisboa: Portugália Editora, 1961; viii) O Muro Branco: romance. Lisboa: Publicações Europa-América, 1966; ix) Teatro: Forja. 2.ª ed. Maria Emília – I. Lisboa: Publicações Europa-América, 1966; Teatro: O Destino Morreu de Repente. Sugestão para um Divertimento Popular – II. Lisboa: Publicações Europa-América, 1967; Os Reis Negros. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972. (BMCCB/FL-EAB).
Recensões críticas de Armando Bacelar a livros de Alves Redol: i) “Gaibéus”, romance de Alves Redol.” In Vértice. Coimbra, Ano 4, n.º 52 (Nov.-Dez. 1947), pp. 538-539; ii) “Vindima de Sangue, romance de Alves Redol””. In Vértice. Coimbra, Ano 14, n.º 124 (Jan. 1954), pp. 54-56; iii) “Olhos de Água”, por Alves Redol”. In Vértice. Coimbra, Ano 16, n.º 143/144 (Ago.-Set. 1955), pp. 543-544; iv) “O Cavalo Espantado”, romance de Alves Redol”. In Vértice. Coimbra, Ano 21, n.º 210 (Mar. 1961), pp. 211-212; v “Notas de Leitura. Barranco de Cegos, romance de Alves Redol”. In Vértice. Coimbra, Ano 22, n.º 231 (Dez. 1962), pp. 655-657; vi) “Ficção. Histórias Afluentes, contos de Alves Redol”. In Vértice. Coimbra, Ano 25, n.º 257 (Fev. 1965), pp. 132-133.
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Nascimento, Carlos de Oliveira, Fernando Namora, Mário Braga, João José Cochofel, Álvaro Feijó, Cardoso Pires e tantos outros.
Os livros eram, por vezes, apreendidos e havia sempre o risco de o serem. Por isso, não se podendo contar seguramente com as vendas nas livrarias, as edições vendiam-se em grande parte de mão a mão, por todos nós, nas escolas e universidades e nos locais de trabalho, a amigos, conhecidos. Porém, o rio, de débil nascente a que Alves Redol, desde “Gaibéus” e com o seu exemplo, insuflara, tornara-se mar. E todos os esforços do fascismo na sua persistente política anticultural foram inúteis para o conter.














































































































































quinta-feira, 26 de maio de 2011

a águia e a renascença portuguesa



Fernando Catroga - O Voo d`A Águia ao Amanhecer da República

Fernando Guimarães - A Águia, o Saudosismo e Teixeira de Pascoaes

J. Pinharanda Gomes - A Filosofia n`A Águia e na Renascença Portuguesa

António José Queirós - Algumas Notas sobre o Republicanismo Portuense

António Cardoso - A Águia e Renascença Portuguesa no Contexto da Primeira República/Arte e Iconografia

Paulo Samuel - Da Revista A Águia ao «Renascença Portuguesa»

José Gama - No Centenário de A Águia e da Renascença Portuguesa, no Contexto da República: o projecto educativo-pedagógico