quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

pensar os livros

bom, também já os encontrei no lixo, não digo em que instituição, mas que estavam no caixote do lixo lá isso estavam! quando peguei neles, ainda os folheei várias vezes, meti-os na pasta, outros na mão, e depois, no café, ainda folheei novamente se tinham algum defeito grave. nadica de nadica. estavam impecáveis. claro, fiquei com eles. um abraço fraternal para o dr. barreto nunes e, se puder, lá estarei.






sábado, 5 de fevereiro de 2011

desidério murcho

"Quase não há conclusões em filosofia, na acepção de teorias consensuais semelhantes às que temos em física ou noutras ciências. Muitos tomam isso como uma limitação da filosofia. Eu tomo-o como uma das mais importantes contribuições para o esclarecimento da humanidade: fazer-nos continuar a pensar quando a tentação óbvia é desistir. /A filosofia não é uma mera expressão de irredutíveis interioridades subjectivas. A filosofia tem valor precisamente quando não a encaramos como um domínio de indiscutíveis subjectividades, mas como a procura discutível de verdades, em áreas onde toda a verdade parece escapar-nos por entre os dedos. Mas tentamos e voltamos a tentar e voltamos a tentar. Porque não o fazer é garantir que nunca descobriremos verdades. Se houver alguma hipótese, ainda que muiti remota, de as descobrir, só tentando o faremos. / [...] / Quis neste livro dar uma ideia de como se raciocina em filosofia. Escolhi algumas áreas em que, creio, muitas ideias comuns estão erradas. Mas posso estar enganado. Este livro não é, então, o término da discussão filosófica. É apenas uma das maneiras de a começar." (95-96)





I
DEMOCRACIA
Contra a democracia
Falibilidade
Liberdade de escolha
II
LIBERDADE
Contra as liberdades
Falibilidade
Liberdade de Expressão
Verdade
III
AUTONOMIA
Paternalismo
Minúcias
Interdependência
Direito de errar
IV
VALOR
Preferências
Factos
Evolução
Valor intrínseco
Egoísmo
Egoísmo Universal
V
SENTIDO
Biologia
Distinções
Diversidade
Felicidades
VI
REALIDADE
Aparências
A medida de todas as coisas?
raciocínio
Representação
Sonho
Ilusão
VII
CONTINGÊNCIA
Realidade necessária
Números
Hipóteses
Partes e todos
Deus
VIII
RACIOCÍNIO
Justificação falível
Controlos e ajustes
Lógica
Argumentação
IX
VERDADE
Verificação
Objectividade
Complexidade e falibilidade

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

pensar a república

A NOITE SANGRENTA























coloco aqui algumas notícias, asim como também um ou outro artigo de opinião, que o jornal de lisboa "a pátria", dirigido então por um famalicense, nuno simões, viu os acontecimentos trágicos de outubro de 1921. segundo o catálogo "viva a república: 1910-2010", na sua respectiva cronologia, podemos ler em 19 de outubro de 1921 o seguinte: "revolta de elementos radicais, associados a militares. finda a experiência governamental de antónio granjo, que é substituída pela governação do coronel manuel maria coelho. na sequência deste movimento revolucionário, um grupo vasto de elementos da gnr, de marinheiros e de civis armados percorreu lisboa na "camioneta fantasma" e assassinou vários líderes republicanos, entre eles machado santos e o próprio chefe do governo deposto. o episódio ficou conhecido pelo nome de "noite sangrenta". o presidente da república, antónio josé de almeida, renunciou à presidência.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

a morte, que não dormia, dormiu, apaixonadamente

"No dia seguinte ninguém morreu." (13, 214)




  • "... o conhecido impulso de recomendar tranquilidade às pessoas a propósito de tudo e de nada, de as manter sossegadas no redil seja como for, esse tropismo que nos políticos, em particular se são governo, se tornou numa segunda natureza, para não dizer automatismo, movimento mecânico..." (18)
  • "Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom povo deste país para seu instrumento..." (20)
  • "Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, Ó diabo, Não percebi o que acaba de dizer..." (20)
  • "... que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental, para perceber que quem diz uma coisa, diz a outra, Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, Estou desolado, Eminência, No seu lugar também o estaria." (20-21)
  • "... ao contrário do que se julga, não são tanto as respostas que me importam, senhor primeiro-ministro, mas as perguntas, obviamente refiro-me às nossas, observe como elas costumam ter, ao mesmo tempo, um objectivo à vista e uma intenção que vai escondida atrás, se as fazemos não é apenas para que nos respondam o que nesse momento necessitamos que os interpelados escutem da sua própria boca, é também para que se vá preparando o caminho às futuras respostas. Mais ou menos como na política, eminência, Assim é, mas a vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo." 21-22)
  • "O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que o venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneiras às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o princípio que nós não temos feito outra coisa que contradizer a realidade, e aqui estamos, Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada..." (22)



  • "Quando os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, uns carrancudos, outros risonhos, se dispunham a recomeçar pela milésima vez a cediça disputa do copo de que não se sabe se está meio cheio ou vazio, a qual disputa, transferida para a questão que ali os chamara, se reduziria no final, com toda a probabilidade, a um mero inventário das vantagens ou desvantagens de estar morto ou de viver para sempre, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus e que, portanto, qualquer discussão sobre um futuro sem morte seria não só blasfema como absurda, porquanto teria de pressupor, inevitavelmente, um deus ausente, para não dizer simplesmente desaparecido." (37)
  • "... interveio um filósofo da ala optimista, porquê vos assusta tanto que a korte tenha acabado, Não sabemos se acabou, sabemos apenas que deixou de matar, não é o mesmo, DE acordo, mas, uma vez que essa dúvida não está resolvida, mantenho a pergunta, Porque se os seres humanos não morressem tudo passaria a ser permitido, E isso seria mau, perguntou o filósofo velho, Tanto como não permitir nada. Houve um novo silêncio. Aos oito homens sentados ao redor da mesa tinha sido encomendado que reflectissem sobre as consequências de um futuro sem morte e que construíssem a partir dos dados do presente uma previsão plausível das novas questões com que a sociedade iria ter de enfrentar-se, além, escusado seria dizer, do inevitável agravamento das questões velhas. Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, O pior é que o futuro é já hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguros, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em perigos tudo o que a mais delirante imaginação pudesse conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas actuais circunstâncias seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos conceituado do sector protestante, parece-me que esta comissão já nasceu morta, Os lares do feliz ocaso têm razão, antes a morte que tal sorte, disse o porta-voz dos católicos, Que pensam então fazer, perguntou o pessimista mais idoso, além de propor a extinção imediata da comissão, como parece ser o vosso desejo, Por nossa parte, ogreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores, Deus tem autoridade sobre a morte, perguntou um dos optimistas, São as duas caras da mesma moeda, de um lado o rei, do outro a coroa, Sendo assim, talvez tenha sido por ordem de deus que a morte se retirou, A seu tempo conheceremos os motivos desta provação, entretanto vamos pôr os rosários a trabalhar, Nós faremos o mesmo, refiro-me às orações, claro está, não aos rosários, sorriu o protestante, E também vamos fazer sair à rua em todo o país procissões a pedir a morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad pretendem pluviam, para pedir chuva, traduziu o católico. A tanto não chegaremos nós, essas procissões nunca fizeram parte das manias que cultivamos, tornou a sorrir o protestante. E nós, perguntou um dos filósofos optimistas em um tom que parecia anunciar o seu próximo ingresso nas fileiras contrárias, que vamos fazer a partir de agora, quando parece que todas as portas se fecharam, Para começar, levantar a sessão, respondeu o mais velho, E depois, Continuar a filosofar, já que anscemos para isso, e ainda que seja sobre o vazio, Para quê, Para quê, não sei, Então porquê, Porque a filosofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer." (38-40


  • "Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." (69)
  • "... tudo o que possa suceder, sucederá, é uma mera questão de tempo, e, se não chegámos a vê-lo enquanto por cá andávamos, terá sido só porque não tínhamos vivido o suficiente." (87)
  • "Se não voltarmos a morrer não temos futuro." (92)
  • "Tal como estão as coisas, já não sabenos o que está bem e o que está mal." (97)
  • "... que o comboio do mundo regressasse aos carris do costume para fazer a viagem de sempre." (107)
  • "... as palavras se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixarma de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados, aí lhe fica a informação." (118)
  • "... quando nos perguntamos se somos realmente aqueles que fomos..." (157)
  • "Tantas palavras para uma só e triste cousa, É o costume desta gente, nunca acabam de dizer o que querem." (170)
  • "A vida é uma orquestra que sempre está tocando, ainada, desafinada, um paquete titanic que sempre se afunda e sempre volta à superfície..." (173)
  • "... as mãos são dois livros abertos, não pelas razões, supostas ou autênticas, da quiromancia, com as suas linhas do coração e da vida, da vida, meus senhores, ouviram bem, da vida, mas porque falam quando se abrem ou se fecham, quando acariciam ou golpeiam, quando enxugam uma lágrima ou disfarçam um sorriso, quando se pousam sobre um ombro ou acenam um adeus, quando trabalham, quando estão quietas, quando dormem, quando despertam..." (178)
  • "... coitados dos dicionários, que têm de governar-se eles e governar-nos a nós com as palavras que existem, quando são tantas as que ainda faltam..." (178)
  • "As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu." (203)
  • "... e aqui para nós, cépticos e descrentes que somos... as palavras têm muitas vezes efeitos contrários aos que se haviam proposto..." (209)
  • "... afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não vêem, não sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos..." (212)
  • "... as mãos se deram às mãos e não se estranharam." (213)

domingo, 30 de janeiro de 2011

rougemont e o amor


I
O Mito de Tristão
II
Origens Religiosas do Mito
III
Paixão e Mística
IV
O Mito na Literatura
V
Amor e Guerra
VI
O Mito Contra o Casamento
VII
O Amor Acção ou da Fidelidade
VIII
Apêndices

eros e amor

"Os homens podem amar o amor, mas o amor não ama."
Harold Bloom






II


FEDRO


Uma das situações, se assim o quisermos, que nunca percebi em alguns filósofos e, mais propriamente no âmbito da Filosofia, foi tratar Eros e o Amor, o encontro do ser humano, melhor, quando Eros e o Amor se encontra no humano, tratando-os como se fossem algo, ou como se fosse algo de objectuável, tratar o Amor e Eros como se de um objecto se tratasse. Somos herdeiros de uma antropologia que sempre viu o outro como uma espécie de quase aniquilamento, ressalvando um em detrimento do outro. Parece que a conversação, a perspectiva dialógica platónica ficou para lá do humano. A sociedade contemporânea comprova esta mesma perspectiva, levando não só Eros e o Amor a uma descontextualização permanente, como a uma das maiores frustrações humanas. É o que acontece com os dois primeiros discursos, o de Fedro e o de Pausânias. Fedro e Pausânias, cada um à sua maneira, efectuam a apologia do amante, não do amado, este fica remetido para um plano secundário, como se não existisse. Temos um ser que fica negado. Diz-nos Fedro, já na parte final do discurso que "o amante tem em si algo de mais divino que o amado, é a divindade que o inspira." (180b) Mas em Fedro, Eros e o Amor tem uma das suas características mais proeminentes: o amor conduz o homem à acção, porque o amante não pode desonrar o amado. Mas o perigo da obsjectualização do amor é, precisamente, esse, a anulação do amado. Aqui ressalva-se a virtude da coragem perante o amor altruísta. O exemplo concreto de Fedro é o Batalhão Sagrado de Tebas, o qual é uma força irresistível. Neste sentido, temos em Fedro uma espécie de amor meritocrático que eleva o humano à felicidade. Nos nossos tempos, este altruísmo amoroso de Fedro se salve na solidariedade humana.







PAUSÂNIAS



Pretende "definir a espécie de Amor que devemos elogiar e fazer em seguida um elogio condigno da sua divindade." (180d) Logo de seguida distingue o amor popular do amor celeste: no primeiro, temos as características da concupiscência, a satisfação dos impulsos, a imagem do corpo; por seu turno, o amor celeste não conhece excessos de alma, porque, segundo Pausânias, "o que determina [a] qualidade num acto é o seu modo de realização: se o realizarmos de forma bela e digna, ele resulua belo; em caso contrário, vil. Assim acontece quando amamos: nem toda a espécie de amor é bela e digna de elogios, mas apenas aquela que nos incita a amar com nobreza." (181a) De seguida, pretende estabelecer uma nova lei, novas regras comportamentais do amado perante o amante perante a pederastia na sociedade ateniense, que era tolerada relativamente a outros meios sociais, condenando-a. Acrescenta algo mais relativamente a Fedro na apologia do amante: "ao "amante todas as extravagâncias são perdoáveis, as normas não desacreditam o seu procedimento, antes parecem aceitá-lo como sinal de máxima distinção." (183b) Netse sentido, e no caso da sociedade ateniense, e no caso específico de Pausânias, a relação amante-amado faz parte do processo educacional e instrucional do segundo: "o amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza. Vileza, é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma afeição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante: logo ao passar a flor da juventude, objecto da sua paixão, «evola-se e desaparece», renegando as suas muitas promessas e discursos. pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, essa permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante." (183d) Algumas considerações desta citação: se, por um lado, nos deparamos aqui com a virtude da constância, o amor permanente, nas relações amorosas (hoje, as relações amorosas, tanto começam de uma forma rápida como acabam rapidamente), por outro, temos uma espécie de filosofia da educação entre amado e amante, o que faz lembrar a relação aluno e professor, as relações do mestre para com o discípulo. Só que nesta relação não existe uma relação do conhecimento, ou, como dizem alguns, uma sabedoria erótica, cuja dicotomia não é resolvida, na medida em que é essencialmente um amor de honra. Em Pausânias temos algo kantiano: as intenções são mais importantes que os bons resultados. É quando pretende elevar o amor em direcção à virtude: "o amante e o amigo convergem na mesma intenção e observam, de parte a parte, as normas respectivas: aquele retribui afeição que o amigo lhe concede, pondo-se ao seu serviço em tudo o qe é justo servi-lo; este, por sua vez, secunda em tudo o que é de justiça as vontades daquele que o encaminha na sabedoria e na virtude." (184d) Apesar de tudo, o discurso de Pausânias alerta-nos para a génese da Filosofia através do dualismo corpo/ alma, a actividade da comunidade na ginástica, estando aqui patente o culto da sabedoria grega. Uma das características que Pausânias se refere a Eros e ao Amor é "dar tempo ao tempo" (184a), até porque "se afigura um excelente juiz". É um bom conselho para os dias de hoje. Em suma, a grande mensagem de Pausânias é que a lei e a ordem tomam o lugar da beleza e da paixão, não havendo lugar para Eros e o Amor se vivenciar plenamente.



ERIXÍMACO



Elabora uma abordagem científica do Amor, numa relação entre a medicina e Eros. Quando nos define a medicina como algo que "consiste senão no facto na ciência dos fenómenos de amor do corpo relativos à repleção e à vacuidade (186c) é não só com uma deselegância que abre o tema, como possui uma falta de sensibilidade para falar de Eros e do Amor. Devoto da ordem, por causa da saúde do corpo, a beleza, eros, as paixões e o amor subordinam-se a essa mesma ordem corporal, a da saúde. Erixímaco é uma espécie de kantiano higienista. Defensor da harmonia, devido ao receio do caos, não encontra Eros e o Amor na natureza intrínseca a si mesmo, aconelhando um consumo moderado da sexualidade, porque se Eros e o Amor podem gerar e propiciar a abundância e a saúde, em excesso, podem provocar a desarmonia, o caos, epidemias. Tal como os discursos anteriores, ainda divide Eros e o Amor em duas categorias: o Amor nobre e o Amor popular. Poderemos considerar Erixímaco como um adepto do New Age, ao evocar-nos o amor cósmico: "A adivinhação, portanto, cabe também uma função de vigilância e cura no que respeita a estes dois Amores; e nessa medida é igualmente a obreira da amizade entre os deuses e os homens, graças aos conhecimentos de todos os fenómenos de amor humanos que entram no âmbito da lei divina e da piedade." Quem ajuda a fomentar a separação e a harmonizar os dois amores para Erixímaco é a música, que nos surge como arte e técnica da sabedoria em direcção à Filosofia.




ARISTÓFANES


Ímpar e original é o discurso de Aristófanes. É um discurso que agrada a todos os lobbies sexuais dos nossos dias. A inclusão de Aristófanes por parte de Platão no livro é magistral. Comediante, autor de "As Nuvens", "Os Pássaros" e de "A Assembleia de Mulheres", crítico de Sócrates, vem alterar por completo o rumo discursivo. Já não existe a dualidade do amante e do amado. Logo no início do seu discurso, Aristófanes evoca o famoso "Mito das Esferas" nos seguintes termos: "Antes de mais nada, importa que fiquem a conhecer a natureza humana e as suas mutações. Pois a nossa antiga natureza não era tal como hoje, e sim diversa. Para começar, os seres humanos encontravam-se repartidos em três géneros e não apenas em dois - macho e fêmea - como agora: além destes, havia um terceiro que partilhava das caratcerísticas de ambos, género hoje desaparecido, mas de que conservamos ainda o nome. Era ele o andrógino, que constituía então um género distinto, embora reunisse, tanto na forma como no nome, as características do macho e da fêmea; hoje, contudo, não passa de um nome lançado ao descrédito..." (189, d-e) O que Aristófanes pretende, com tal mito, da androginia, falando nas suas características genéticas
lodo de seguida, é evocar o laço de união que o se seres humanos perderam, particularmente a natureza humana de Eros. Aqui surgem duas intenções clarificadores de Aristófanes: se, por um lado, a filosofia e a ciência são praticadas com um discurso não erótico, não amoroso, não indo ao encontro daquilo que é mais humano, a literatura, por outro lado, e em especial a poesia, tem a vantagem discursiva erótica dese mesmo encontro. Em Ágatom, a poesia terá a mesma significação. A dualidade dos discursos anteriores é suplantada pela amizade, a qual contém uma serenidade erótica, lebando à felicidade o ser humano na relação amorosa. No fundo, quando Aristófanes nos diz que "o amor que restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana" (191d), o que aqui temos não é senão o desejo de sermos unos: o ser humano é um ser incompleto e a consciência de tal incompletude é essencial à sua humanidade.






ÁGATON


No Banquete, é o nosso John Lenon, "Só o Amor é Necessário". E porque digo isto? Porque Ágaton centra-se essencialmente na beleza de Eros e não nos diz nada acerca da forma como essa beleza se torna parte no mundo e no ser humano, assim como também se preocupa apenas com a qualidade de Eros, a aparência, não se preocupando com o seu ser. Começa o seu discurso acusando os protagonistas anteriores, não deixando de ter a sua razão: "todos os que me procederam, em vez de fazerem o elogio do Amor, se limitaram a exaltar a felicidade dos homens pelos benefícios de que ele é causa. Mas propriamente a natureza de deus que concede tais benefícios, isso ninguém deixou dito... Ora, em toda a espécie de elogio e qualquer que seja o assunto, há um único método válido: definir a natureza do objecto que nos propomos versar e, em função dela, a dos efeitos que produz." (195a) Começa por traçar o elogio da beleza de Eros e do Amor pela sua prova existencial: a juventude e a delicadeza, focando as virtudes: a justiça, a temperança, a coragem e a sabedoria, cujo conhecimento, conforme já o dissemos, se encontra relacionado com as artes especializadas, encontrando-se aqui a poesia, a própria arte de Ágaton. Desmultiplicando a felicidade entre a beleza e a bondade, acaba por não nos explicar como é que o ser-se belo contribui para a felicidade no humano. Adjectiva, superlativizando, louvores a Eros e ao Amor. Foi isto que Sócrates não gostou.





SÓCRATES

Efectua a desconstrução do discurso de Ágaton. ´Contudo, logo no início do seu discurso, crítica não só Ágaton, como também os restantes intervenientes: "Foi, portanto, «a língua» que assentiu e «não o espírito»... Nada feito! Renuncio, desde já, a louvores desse estilo, pois não tenho qualquer jeito para eles. Agora, se vocês aceitam a perspectiva da verdade, isso sim, estou pronto a falar - mas ao meu modo pessoal, sem competir com os vosso discursos, porque não quero cair no ridículo! (199) A primeira hipótese que coloca é o discurso que o seu auditório pretende escutar, sobre "a verdade do amor" (199b) ou não. Para a desconstrução do discurso de Ágatom, Sócrates analisa inicialmente a natureza de Eros e do Amor e, de seguida, a sua função, aqui colocando a problemática do desejo, para entrar e informar sobre o diálogo que manteve com Diotima de Mantineia, a qual é uma "mulher versada não só nesta matéria como em muitas outras." (200d) A primeira questão que Sócrates coloca a Diotima é sobre o que Eros é em si mesmo. Um "Daimon", um génio poderoso, responde-lhes Diotima, intermediário entre o humano e o divino. Será, propriamente, na identidade, na sua génese que encontramos toda a paradoxalidade do Amor e de Eros, já que se encontra entre a pobreza e o engenho, entre a sabedoria e a ignorância. Neste sentido, qual será então a actividade mais nobre? A Filosofia. Os filósofos, os "Daimónion", diz-nos Diotima que "são intermediários entre ambos os extremos, como indubitavelmente sucede com o Amor: pois se a sabedoria se conta entre as mais belas coisas e se o Amor é amor do belo, forçozamente terá de ser filósofo e, como filósofo, situar-se no meio termo entre sábio e ignorante." (204b) Depois, Diotima passa a analisar a utilidade de Eros e do Amor (belo, bom), para passar à questão da sua imortalidade, a qual a divide em quatro partes de actividade humana: i) fecundidade, ii) alma (sabedoria, conhecimento), iii) técnica e criação, iv) organização do estado, família, sociedade. Aqui entra o processo educacional, no qual está, então, patente a escada ascendes do amor, entre o sensível ao inteligível, passando pela beleza física até à beleza espiritual, mediante a filosofia, pela sabedoria, pela beleza, pela imortalidade. O processo educacional do Amor e de Eros é este: "Ora, quando alguém se eleva da realidade sensível, graças à prática de amar correctamente os jovens, e começa a distinguir esse Belo de que falamos, já pouco falta para atingir a meta. E aqui tens o recto caminho pelo qual se chega ou se é conduzido por outrém aos mistérios do amor: partindo da beleza sensível em direcçºao a esse Belo, é sempre ascender, como que por degraus, de beleza, de um único corpo à de dois, da beleza de dois à de todos os corpos, dos corpos belos às belas ocupações e, destas, à beleza dos conhecimentos, até que a partir destes alcance esse tal conhecimento, que não é senão o do Belo em si, e fique a conhecer, ao chegar ao termo, a realidade do Belo." (209 b-d)





ALCIBÍADES
Após um discurso amoroso não correspondido, efectua a apologia de Sócrates. Esta apologia é o que convém aqui salvar.