domingo, 30 de janeiro de 2011

rougemont e o amor


I
O Mito de Tristão
II
Origens Religiosas do Mito
III
Paixão e Mística
IV
O Mito na Literatura
V
Amor e Guerra
VI
O Mito Contra o Casamento
VII
O Amor Acção ou da Fidelidade
VIII
Apêndices

eros e amor

"Os homens podem amar o amor, mas o amor não ama."
Harold Bloom






II


FEDRO


Uma das situações, se assim o quisermos, que nunca percebi em alguns filósofos e, mais propriamente no âmbito da Filosofia, foi tratar Eros e o Amor, o encontro do ser humano, melhor, quando Eros e o Amor se encontra no humano, tratando-os como se fossem algo, ou como se fosse algo de objectuável, tratar o Amor e Eros como se de um objecto se tratasse. Somos herdeiros de uma antropologia que sempre viu o outro como uma espécie de quase aniquilamento, ressalvando um em detrimento do outro. Parece que a conversação, a perspectiva dialógica platónica ficou para lá do humano. A sociedade contemporânea comprova esta mesma perspectiva, levando não só Eros e o Amor a uma descontextualização permanente, como a uma das maiores frustrações humanas. É o que acontece com os dois primeiros discursos, o de Fedro e o de Pausânias. Fedro e Pausânias, cada um à sua maneira, efectuam a apologia do amante, não do amado, este fica remetido para um plano secundário, como se não existisse. Temos um ser que fica negado. Diz-nos Fedro, já na parte final do discurso que "o amante tem em si algo de mais divino que o amado, é a divindade que o inspira." (180b) Mas em Fedro, Eros e o Amor tem uma das suas características mais proeminentes: o amor conduz o homem à acção, porque o amante não pode desonrar o amado. Mas o perigo da obsjectualização do amor é, precisamente, esse, a anulação do amado. Aqui ressalva-se a virtude da coragem perante o amor altruísta. O exemplo concreto de Fedro é o Batalhão Sagrado de Tebas, o qual é uma força irresistível. Neste sentido, temos em Fedro uma espécie de amor meritocrático que eleva o humano à felicidade. Nos nossos tempos, este altruísmo amoroso de Fedro se salve na solidariedade humana.







PAUSÂNIAS



Pretende "definir a espécie de Amor que devemos elogiar e fazer em seguida um elogio condigno da sua divindade." (180d) Logo de seguida distingue o amor popular do amor celeste: no primeiro, temos as características da concupiscência, a satisfação dos impulsos, a imagem do corpo; por seu turno, o amor celeste não conhece excessos de alma, porque, segundo Pausânias, "o que determina [a] qualidade num acto é o seu modo de realização: se o realizarmos de forma bela e digna, ele resulua belo; em caso contrário, vil. Assim acontece quando amamos: nem toda a espécie de amor é bela e digna de elogios, mas apenas aquela que nos incita a amar com nobreza." (181a) De seguida, pretende estabelecer uma nova lei, novas regras comportamentais do amado perante o amante perante a pederastia na sociedade ateniense, que era tolerada relativamente a outros meios sociais, condenando-a. Acrescenta algo mais relativamente a Fedro na apologia do amante: "ao "amante todas as extravagâncias são perdoáveis, as normas não desacreditam o seu procedimento, antes parecem aceitá-lo como sinal de máxima distinção." (183b) Netse sentido, e no caso da sociedade ateniense, e no caso específico de Pausânias, a relação amante-amado faz parte do processo educacional e instrucional do segundo: "o amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza. Vileza, é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma afeição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante: logo ao passar a flor da juventude, objecto da sua paixão, «evola-se e desaparece», renegando as suas muitas promessas e discursos. pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, essa permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante." (183d) Algumas considerações desta citação: se, por um lado, nos deparamos aqui com a virtude da constância, o amor permanente, nas relações amorosas (hoje, as relações amorosas, tanto começam de uma forma rápida como acabam rapidamente), por outro, temos uma espécie de filosofia da educação entre amado e amante, o que faz lembrar a relação aluno e professor, as relações do mestre para com o discípulo. Só que nesta relação não existe uma relação do conhecimento, ou, como dizem alguns, uma sabedoria erótica, cuja dicotomia não é resolvida, na medida em que é essencialmente um amor de honra. Em Pausânias temos algo kantiano: as intenções são mais importantes que os bons resultados. É quando pretende elevar o amor em direcção à virtude: "o amante e o amigo convergem na mesma intenção e observam, de parte a parte, as normas respectivas: aquele retribui afeição que o amigo lhe concede, pondo-se ao seu serviço em tudo o qe é justo servi-lo; este, por sua vez, secunda em tudo o que é de justiça as vontades daquele que o encaminha na sabedoria e na virtude." (184d) Apesar de tudo, o discurso de Pausânias alerta-nos para a génese da Filosofia através do dualismo corpo/ alma, a actividade da comunidade na ginástica, estando aqui patente o culto da sabedoria grega. Uma das características que Pausânias se refere a Eros e ao Amor é "dar tempo ao tempo" (184a), até porque "se afigura um excelente juiz". É um bom conselho para os dias de hoje. Em suma, a grande mensagem de Pausânias é que a lei e a ordem tomam o lugar da beleza e da paixão, não havendo lugar para Eros e o Amor se vivenciar plenamente.



ERIXÍMACO



Elabora uma abordagem científica do Amor, numa relação entre a medicina e Eros. Quando nos define a medicina como algo que "consiste senão no facto na ciência dos fenómenos de amor do corpo relativos à repleção e à vacuidade (186c) é não só com uma deselegância que abre o tema, como possui uma falta de sensibilidade para falar de Eros e do Amor. Devoto da ordem, por causa da saúde do corpo, a beleza, eros, as paixões e o amor subordinam-se a essa mesma ordem corporal, a da saúde. Erixímaco é uma espécie de kantiano higienista. Defensor da harmonia, devido ao receio do caos, não encontra Eros e o Amor na natureza intrínseca a si mesmo, aconelhando um consumo moderado da sexualidade, porque se Eros e o Amor podem gerar e propiciar a abundância e a saúde, em excesso, podem provocar a desarmonia, o caos, epidemias. Tal como os discursos anteriores, ainda divide Eros e o Amor em duas categorias: o Amor nobre e o Amor popular. Poderemos considerar Erixímaco como um adepto do New Age, ao evocar-nos o amor cósmico: "A adivinhação, portanto, cabe também uma função de vigilância e cura no que respeita a estes dois Amores; e nessa medida é igualmente a obreira da amizade entre os deuses e os homens, graças aos conhecimentos de todos os fenómenos de amor humanos que entram no âmbito da lei divina e da piedade." Quem ajuda a fomentar a separação e a harmonizar os dois amores para Erixímaco é a música, que nos surge como arte e técnica da sabedoria em direcção à Filosofia.




ARISTÓFANES


Ímpar e original é o discurso de Aristófanes. É um discurso que agrada a todos os lobbies sexuais dos nossos dias. A inclusão de Aristófanes por parte de Platão no livro é magistral. Comediante, autor de "As Nuvens", "Os Pássaros" e de "A Assembleia de Mulheres", crítico de Sócrates, vem alterar por completo o rumo discursivo. Já não existe a dualidade do amante e do amado. Logo no início do seu discurso, Aristófanes evoca o famoso "Mito das Esferas" nos seguintes termos: "Antes de mais nada, importa que fiquem a conhecer a natureza humana e as suas mutações. Pois a nossa antiga natureza não era tal como hoje, e sim diversa. Para começar, os seres humanos encontravam-se repartidos em três géneros e não apenas em dois - macho e fêmea - como agora: além destes, havia um terceiro que partilhava das caratcerísticas de ambos, género hoje desaparecido, mas de que conservamos ainda o nome. Era ele o andrógino, que constituía então um género distinto, embora reunisse, tanto na forma como no nome, as características do macho e da fêmea; hoje, contudo, não passa de um nome lançado ao descrédito..." (189, d-e) O que Aristófanes pretende, com tal mito, da androginia, falando nas suas características genéticas
lodo de seguida, é evocar o laço de união que o se seres humanos perderam, particularmente a natureza humana de Eros. Aqui surgem duas intenções clarificadores de Aristófanes: se, por um lado, a filosofia e a ciência são praticadas com um discurso não erótico, não amoroso, não indo ao encontro daquilo que é mais humano, a literatura, por outro lado, e em especial a poesia, tem a vantagem discursiva erótica dese mesmo encontro. Em Ágatom, a poesia terá a mesma significação. A dualidade dos discursos anteriores é suplantada pela amizade, a qual contém uma serenidade erótica, lebando à felicidade o ser humano na relação amorosa. No fundo, quando Aristófanes nos diz que "o amor que restabelece o nosso estado original e procura fazer de dois um só, curando assim a natureza humana" (191d), o que aqui temos não é senão o desejo de sermos unos: o ser humano é um ser incompleto e a consciência de tal incompletude é essencial à sua humanidade.






ÁGATON


No Banquete, é o nosso John Lenon, "Só o Amor é Necessário". E porque digo isto? Porque Ágaton centra-se essencialmente na beleza de Eros e não nos diz nada acerca da forma como essa beleza se torna parte no mundo e no ser humano, assim como também se preocupa apenas com a qualidade de Eros, a aparência, não se preocupando com o seu ser. Começa o seu discurso acusando os protagonistas anteriores, não deixando de ter a sua razão: "todos os que me procederam, em vez de fazerem o elogio do Amor, se limitaram a exaltar a felicidade dos homens pelos benefícios de que ele é causa. Mas propriamente a natureza de deus que concede tais benefícios, isso ninguém deixou dito... Ora, em toda a espécie de elogio e qualquer que seja o assunto, há um único método válido: definir a natureza do objecto que nos propomos versar e, em função dela, a dos efeitos que produz." (195a) Começa por traçar o elogio da beleza de Eros e do Amor pela sua prova existencial: a juventude e a delicadeza, focando as virtudes: a justiça, a temperança, a coragem e a sabedoria, cujo conhecimento, conforme já o dissemos, se encontra relacionado com as artes especializadas, encontrando-se aqui a poesia, a própria arte de Ágaton. Desmultiplicando a felicidade entre a beleza e a bondade, acaba por não nos explicar como é que o ser-se belo contribui para a felicidade no humano. Adjectiva, superlativizando, louvores a Eros e ao Amor. Foi isto que Sócrates não gostou.





SÓCRATES

Efectua a desconstrução do discurso de Ágaton. ´Contudo, logo no início do seu discurso, crítica não só Ágaton, como também os restantes intervenientes: "Foi, portanto, «a língua» que assentiu e «não o espírito»... Nada feito! Renuncio, desde já, a louvores desse estilo, pois não tenho qualquer jeito para eles. Agora, se vocês aceitam a perspectiva da verdade, isso sim, estou pronto a falar - mas ao meu modo pessoal, sem competir com os vosso discursos, porque não quero cair no ridículo! (199) A primeira hipótese que coloca é o discurso que o seu auditório pretende escutar, sobre "a verdade do amor" (199b) ou não. Para a desconstrução do discurso de Ágatom, Sócrates analisa inicialmente a natureza de Eros e do Amor e, de seguida, a sua função, aqui colocando a problemática do desejo, para entrar e informar sobre o diálogo que manteve com Diotima de Mantineia, a qual é uma "mulher versada não só nesta matéria como em muitas outras." (200d) A primeira questão que Sócrates coloca a Diotima é sobre o que Eros é em si mesmo. Um "Daimon", um génio poderoso, responde-lhes Diotima, intermediário entre o humano e o divino. Será, propriamente, na identidade, na sua génese que encontramos toda a paradoxalidade do Amor e de Eros, já que se encontra entre a pobreza e o engenho, entre a sabedoria e a ignorância. Neste sentido, qual será então a actividade mais nobre? A Filosofia. Os filósofos, os "Daimónion", diz-nos Diotima que "são intermediários entre ambos os extremos, como indubitavelmente sucede com o Amor: pois se a sabedoria se conta entre as mais belas coisas e se o Amor é amor do belo, forçozamente terá de ser filósofo e, como filósofo, situar-se no meio termo entre sábio e ignorante." (204b) Depois, Diotima passa a analisar a utilidade de Eros e do Amor (belo, bom), para passar à questão da sua imortalidade, a qual a divide em quatro partes de actividade humana: i) fecundidade, ii) alma (sabedoria, conhecimento), iii) técnica e criação, iv) organização do estado, família, sociedade. Aqui entra o processo educacional, no qual está, então, patente a escada ascendes do amor, entre o sensível ao inteligível, passando pela beleza física até à beleza espiritual, mediante a filosofia, pela sabedoria, pela beleza, pela imortalidade. O processo educacional do Amor e de Eros é este: "Ora, quando alguém se eleva da realidade sensível, graças à prática de amar correctamente os jovens, e começa a distinguir esse Belo de que falamos, já pouco falta para atingir a meta. E aqui tens o recto caminho pelo qual se chega ou se é conduzido por outrém aos mistérios do amor: partindo da beleza sensível em direcçºao a esse Belo, é sempre ascender, como que por degraus, de beleza, de um único corpo à de dois, da beleza de dois à de todos os corpos, dos corpos belos às belas ocupações e, destas, à beleza dos conhecimentos, até que a partir destes alcance esse tal conhecimento, que não é senão o do Belo em si, e fique a conhecer, ao chegar ao termo, a realidade do Belo." (209 b-d)





ALCIBÍADES
Após um discurso amoroso não correspondido, efectua a apologia de Sócrates. Esta apologia é o que convém aqui salvar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

milan kundera
















lídia jorge

















eros e amor

DO SENSÍVEL AO INTELIGÍVEL OU OS DEGRAUS DO AMOR
PRIMEIRAS OBSERVAÇÕES
"Todo o ser se desvele com o que é"
Platão, Banquete
"Por prática entenderemos qualquer forma coerente e complexa da actividade humana cooperativ, estabelecida socialmente, mediante a qual se realizam os bens inerentes à mesma enquanto se intenta conseguir os modelos de excelência que são apropriados a essa forma de actividade e a definem parcialmente, com o resultado da capacidade humana conseguir a excelência e os conceitos humanos dos fins que se extendem sistematicamente.
Alasdair MacIntyre, After Virtue



I
Várias foram as ideias para esta palestra que abre o III Filo-Café, intitulado "O Amor, Corre no Sangue dos Filósofos?", organizado pela Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, e que decorreu na biblioteca da Escola D. Sancho I. Principalmente, o começo, o seu início, permite o propósito que aqui me traz, perante o tema a ser analisado, o amor no sangue dos filósofos, amor que anda tão desencontrado na sociedade contemporânea, palavra gasta e inócua. Resolvi ficar pelo mais simples, isto é, na apresentação das ideias dos discursos de Fedro (faz o elogio do amante), de Pausânias(o mesmo que Fedro), Erixímaco (que tem uma visão científica do amor e, ao mesmo tempo, um amor-cósmico, hoje seria adepto da New-Age!), Aristófanes (proclama a busca do amor-próprio), Ágaton (que se preocupa apenas com a qualidade de Eros e não com o seu ser), Sócrates (o amor como um degrau) e Alcibíades (a apologia a Sócrates), e naquilo que cada discurso poderá significar para os dias de hoje. O livro já se adivinha: "O Banquete", de Platão. No fundo, a mensagem que poderemos ressalvar desses mesmos discursos para uma humanização do amor nos tempos tão conturbados de hoje, tão desencantado que anda, é o amor em diálogo para sua salvaguarda. Paralelamente, algumas reflexões pessoais irão estar patentes ao longo deste texto,, dos paradoxos dos próprios intervenientes no "Banquete", exceptuando, claro, quer aceitemos ou não, o caso de Sócrates, o qual promove a excelência do reencontro de Eros e do Amor consigo mesmo enquanto revelamento de algo misterioso e mágico, no desvelamento do encontro de dois seres.





II


Na página social do Facebook, abri o tema com a seguinte questão, tomada do livro de Agostinho da Silva "Conversações com Diotima". Ei-la: "Como se pode justificar uma criação dos deuses em que a maior parte dos homens não tem possibilidade alguma de seguir o que ensinaste sobre os caminhos do Amor?" A colaboração, por si só, não deixou de ser rentável, mas de fraca participação. Das cinco colaborações, uma foi masculina, as outras restantes femininas. A questão que surge é esta: será que Eros e o Amor só interessa ao mundo feminino? O mundo masculino parece que anda arredado, longe, das questões de Eros e do Amor, no fundo, da sua excelência. Em contrapartida, na altura do debate, na sessão, o mundo masculino revelou-se, não o feminino. Isto apenas significa o quanto de paradoxal a sociedade contemporânea se revela. Talvez. O que revela, se quisermos, é uma certa indiferença da sociedade e, mais concretamente, das páginas sociais da web, as quais são esencialmente, independente da aderência ou nao a projectos sociais apelidados de "Causa", (Junta-te a esta causa), as quais são, essencialmente e, paradigamticamente, individualistas. O que temos é um exacerbamento do "Eu", personalizado em alguns momentos, na busca possível de uma humanidade perdida. A resposta masculina salvou-se, particularmente, no mais do que famoso par romântico Romeu e Julieta, poeticamente. Shakespeare salva o amor e Eros no encontro do pecado: "Romeu, após um abraço beijado: Oh! Os teus lábios apagaram os pecados meus. / Julieta: e os meus lábios guardaram para eles o pecado que encontraram nos teus..." Eis o feminino perante a pureza, não o masculino: o masculino, enquanto lado negro do Amor e de Eros, temos o feminino na imagem de divindade, a de anjo, mas também demónio, na configuração romântica. No mundo de hoje, talvez esta imagem do mundo feminino mereça ser repensada, entre o anjo e o demoníaco, encarnando o feminino no masculino. Sempre houve, é certo, mas hoje perante várias correntes e manifestações de Eros e de Amor desconfiguradas da sua humanidade, busca-se o amor para o rejuvenescimento de uma identidade perdida que não se alcança, numa satisafação amorosa de fluídos para se completar a solidão. Estamos perante, isso sim, na imagem de um novo feminismo, reconvertido na imagem masculina. O desnorte, o sem sentido, é quando o mundo feminino tem consciência de que uma relação (com um homem casado, por exemplo) não leva a lado nenhum! É a imagem da incompletude do humano na perspectiva de Aristófanes. Hoje, e possivelmente como em todos os temos, não sabemos onde se encontra Eros e o Amor, perante o exacerbamento físíco dos corpos, não sabemos onde se encontra a realidade dos valores, entre aquilo que poderá ser eticamente correcto ou não. O comportamento humano encontra-se desvirtualizado, visualizando-se virtualmente, numa fronteira humana que já não existe, pelo menos no privado. Não deixa de ser curioso: o discurso de Aristófanes encontra-se aqui bem vivo, relacionando-se hoje com todos os lobbyes sexuais! Uma das participações femininas salientou que existem vários tipos de amor. Desta forma, devemos amar a nossa família e nos amar propriamente, porque só assim sabemos o tipo de pessoa que nos preenche. Ao conhecermo-nos pessoalmente, mais uma vez o amor-próprio, que não nos fica nada mal, mas, diga-se, sem carimos no narcisismo, é desalutar. Uma vez mais Aristófanes. Uma outra ideia que a mesma pessoa avança é que as pessoas sofrem por Amor porque não se amam, digamos, e acrescento, a elas próprias. Quem nos ama, na mesma ideia, não nos faz sofrer. Sendo o Amor o sentimento mais sublime, o mais puro da condição humana, continua a dizer-nos, que existe preconceito(s) sobre o Amor, assim como também discriminação, porque existem muitas barreiras par serem quebradas. Isto significa, julgo, se, por um lado, não tem nada a ver com as questões homossexuais, por outro lado, é que o ser humano não se revela perante Eros e o Amor quando este se manifesta. No fundo, a mensagem que aqui fica, espantosa mensagem esta, mais do que encontrar o coração puro, o ser humano deve encontrar-se consigo mesmo porque foge de si mesmo e, ao mesmo tempo, da sua própria vida. Uma outra ideia que se configurou perante a questão de Agostinho da Silva foi retirada dele próprio, numa citação, sem indicação de origem, cuja idealização conclusiva se situa entre a belexa sensível e a beleza espiritual, nas palavras de Platão, remetendo-nos parav a caminhada errante de Eros e do Amor em bsuca da felicidade, situada esta, em Silva, na beleza espiritual, entenda-se, no conhecimento. Finalmente, surgiu o seguinte comentário interrogativo, o qual serve o nosso propósito para viajarmos pelo "Banquete", dizendo-nos o seguinte: "De que adianta buscar explicações para o incompreensível, se não somos capazes de exercer o mais humano dos sentimentos?"A resposta preliminar que podemos, ou posso dar, a este comentário interrogativo é a mensagem geral que Platão pretende com o seu "Banquete", e já aqui referida: que o amor surja como acto de conversação para a descoberta mútua e a sublimação do ser humano, para que a sociedade não seja lucreciana, mas mais platónica. É tempo de entrarmos nos diálogos. Amanhã, o mais tarde, colocarei o texto da palestra.





quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

camilo inédito



Jornal de Letras, Artes e Ideias (12 Jan. 2011), pp. 8-9.

do amor nos filósofos


Opinião Pública (26 Jan. 2011), p. 23