sexta-feira, 12 de novembro de 2010

teixeira gomes e júlio brandão

Acabei de receber pelo correio electrónico a informação da exposição "Teixeira Gomes, os Anos Passados no Porto", a qual será inaugurada no próximo dia 15 de Novembro no Museu Nacional Soares dos Reis e estará patente ao público até Março do próximo ano. Aliás, na altura da viagem presidencial ao norte do país, Teixeira Gomes visitaria o museu portuense, então dirigido pelo famalicense Júlio Brandão, que, nesse ano, em 1924, fazia a introdução ao livro de Soror Mariana "Cartas de Amor ao Cavaleiro de Chamilly" e continuava com a sua colaboração no jornal portuense "O Primeiro de Janeiro". As fotos que aqui apresentamos são do Diário de Notícias, de 6 de Fevereiro de 1924, na altura da visita ao museu do então presidente da república Teixeira Gomes. Já aqui fiz referência ao livro "Manuel Teixeira Gomes: ofício de viver". Transcrevo o resumo da notícia que recebi.





"Por ocasião do primeiro centenário da implantação da República, evocamos Manuel Teixeira Gomes no Museu Nacional de Soares dos Reis. Nascido em Portimão, fez a sua formação em Lisboa, Coimbra e Porto, tendo estado aqui entre 1881 e 1884. Durante esse tempo estabeleceu relações de amizade com vultos que mais tarde se destacaram na arte, na literatura e na política. Alguns deles, como Soares dos Reis ou Marques de Oliveira, estão hoje representados neste Museu. / É evocado o Republicano, o Escritor e o Coleccionador que ofereceu ao Museu o seu retrato pintado pelo amigo Marques de Oliveira e o da filha do Visconde de Meneses, a quem o ligaram sentimentos cuja memória não quis deixar apagar. / Em 1924 passa de novo na cidade, agora como Presidente da República. A sua visita é pretexto para, na exposição, se evocar a cidade desses novos anos."

hermann broch












xiv encontros de outono 2010




agustina e camilo

Leio na página de rosto o seguinte apontamento manuscrito, possivelmente para um ensaio sobre Camilo e Agustina: "Camilo, o Fantasma ou o Fantasma de Camilo", e por baixo os seguintes autores, possivelmente a relacionar com Camilo: "Hordelin, Kierkegaard" e a personagem ficcional José Augusto. Alguns apontamentos devo ter escrito naqueles cadernos quadriculados sobre este romance-ensaio de Agustina sobre Camilo, José Augusto e Fanny Owen. Ah, e possivelmente relacionar com Mário de Sá-Carneiro... Mas para lá destas citações que escolho, nada melhor que ler este livro de Agustina sobre Camilo a propósito de amores irreais, do carácter humano. Este livro, "Fanny Owen" só será perceptível com um outro de Agustina, "Camilo, Génio e Figura". Duas leituras fantásticas para este tempo mordacento, de chuva molha-tolos e inteligentes!


  • "Camilo gostava das pessoas que sabem chorar. Debaixo das bravatas irónicas e do dogma do desprezo encontram-se às vezes almas tão vulneráveis que um diabo encartado não sabe que fazer delas. Camilo não era um diabo encartado; tinha poucos anos de ciências médico-cirúrgicas, menos ainda de direito e outro tanto de teologia. As suas relações com Deus eram mais cerimoniosas do que íntimas, como aconteceu com Voltaire. Só que a sua indigestão de cepticismo se mudou com o tempo num delírio embaraçoso, porque tinha não sei quê de desemprego do coração; uma febrícola triste, de quem mata por despeito e por vingança ama."
  • "O orgulho é desprovido de alma; e, no entanto, em tudo a imita. As mulheres possuem esse orgulho angélico e bestial, mesmo quando são humildes, rasas, apagadas."
  • "As melhores tragédias começam com uma simples farsa."
  • "Confidência em que os actos irreais, que nem a imaginação preparara ainda, iam sendo marcados com infalibilidade implacável. Tinha principiado não sabia que aventura brutal e cujo limite só podia ser a morte. Haveria mulheres entre os seus desatinos, pretexto ao sentimento viril que não se satisfazia com desejos, vícios ou sequer a sublimação de tudo isso. O espírito é o que mais se parece ao rosto de Deus; a sua visão enlouquece, o seu brilho paralisa. Mulheres! Não tinha ainda chegado o tempo de se socorrerem delas para consagrarem as ilusões sem nome de que eles,homens, eram feitos. Agora queriam só aprtilhar dos mesmos momentos, do vazio do coração em que cabiam todas as promessas do mundo."
  • " - José Augusto ama. Sabe o que é o amor? É o pulgão da alma, o oídio da vinha íntima do msocatel das ilusões. Ama como se ama na vigésima vez na vida - disse Camilo."
  • "O cinismo é coisa mais velha que a honestidade."
  • "Os olhos do corpo têm uma lógica, e os da alma têm outra."


  • "Nas mulheres, a inteligência ou nasce com o coração, ou o mata, se acontece depois."
  • "... não há mistérios, há só trivialidades mais faiscantes."
  • "A frivolidade esconde coisas sérias."
  • "- Há boas pessoas que nos metem medo."
  • "... um homem maduro sempre se interessa pela originalidade das mulheres, tomando-a como um efeito da sua própria maturidade."
  • " - Quando um triste se si é porque encontrou alguém mais triste ainda. Há uma espécie de infelicidade impura que ataca as pessoas como eu - disse José Augusto... Quando se sofre na idade de ser feliz, nunca mais se acredita na felicidade; nem como acaso, nem como recompensa. Os nossos tormentos tornaram-se num hábito mais querido do que qualquer compensação."
  • " - A infelicidade é uma forma de renúncia, não tem nada que ver com a desgraça. É a mais ardente das amantes e por ela sacrificamos tudo: a honra e os amigos, e até Deus."
  • "A amizade é a única coisa que os deuses invejam nos homens."
  • "O amor não é senão uma cristalização do desejo. Precisa de muitos sacrifícios para inventar a originalidade."
  • "Os grandes segredos não são românticos. Só é romântica a ignorância deles."




  • "Como se escrevem os romances? Muitas vezes, durante a vida, haviam de fazer-lhe essa pergunta: com superficial candura, com desabrimento, com distracção, por mera formalidade e inépcia. Os romances escrevem-se com doses e doses de dissimulação, com virtudes pestilentas porque supuram do medo humano e não são fruto da coragem, do amor ou do ódio. O que é um vício? Um tranger das portas da imaginação, uma conquista sofrida até ao limite da indústria para sobreviver como homem. E ele mentia, com as suas heroínas nobilíssimas, os seus capatzes do pecado, com o mundo patarata como natureza para digerir e amar."
E mais não transcrevo, só lendo mesmo, só lendo, são tantas as citações...

samuel beckett






quinta-feira, 11 de novembro de 2010

josé manuel mendes

Hoje vou escolher um poema e citar outras frases do livro que aqui apresento, e lido na altura, de um poeta não menos notável, e mais conhecido como sendo o Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes. Amigo de V. N. de Famalicão e homenageado no ano passado pelo municipio famalicense, José Manuel Mendes esteve sempre ligado a Famalicão, desde os anos setenta, participando em actividades culturais, como foi em Riba d`Ave, e quando colaborava nos anos oitenta do século passado no jornal famalicense, e que já não existe, "Voz de Famalicão". É uma daquelas vozes de fora cá dentro, entenda-se, uma voz de âmbito nacional e internacional, mas também local, preocupando-se com as raízes culturais do Minho. Apresento um texto de Vítor Aguiar e Silva, o primeiro vencedor do prémio Prado Coelho, instituído pela autarquia famalicense, e publicado no "Jornal de Letras", em 18 de Novembro de 1998 sobre este "Prelúdio de Outono". A última vez que José Manuel Mendes esteve em Famalicão foi na entrega do prémio APE/Câmara Municipal V. N. de Famalicão a Teresa Veiga, no ano passado, de cuja sessão coloco aqui uma foto, tendo atrás de si Camilo, inevitavelmente.





O Gesto à Espera


Por meu sonho e meu amor,
amor de água e de viagem,
te busco, minha ilha em flor,
flor múltipla sob a aragem



de um canto branco e feliz.
Feliz no tempo açodado
em que diz o que não diz,
não diz meu gesto calado.



Meu gesto à espera do olhar,
olhar: fome de viver,
com que enterneces o mar,
o mar onde renascer.





  • "... viajarei outra vez em busca da primeira manhã do mundo."
  • "E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio de luto."
  • "Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo."



  • "Transformar todos os sítios do mundo num só sítio. Algures. No enlevo e nos contrastes do verbo viajar."
  • "Surpreende-nos a harpa do futuro e, não raro, o impossível acontece."
  • "... a desordem dos pensamentos, o poder do sonho."
  • "O chato disto é que ainda não aprendi a ver as coisas do outro lado. Mas só de vez em quando. E a tal pedra na garganta. Na verdade sinto-me onde sempre estive."
  • "Ou será que, à semelhança do passado, o amanhã não existe?"










república e municípios