
"Os livros são as melhores provisões que encontrei para esta humana viagem." (Montaigne)
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
josé manuel mendes
O Gesto à Espera
Por meu sonho e meu amor,
amor de água e de viagem,
te busco, minha ilha em flor,
flor múltipla sob a aragem
de um canto branco e feliz.
Feliz no tempo açodado
em que diz o que não diz,
não diz meu gesto calado.
Meu gesto à espera do olhar,
olhar: fome de viver,
com que enterneces o mar,
o mar onde renascer.

- "... viajarei outra vez em busca da primeira manhã do mundo."
- "E o silêncio depois. O silêncio da angústia, o silêncio de luto."
- "Teremos de imaginar um dia único, diferente dos sete dias da semana, um lugar para a dádiva e os abraços sem porquê, para o que jamais se repete, o insólito, o definitivo."

- "Transformar todos os sítios do mundo num só sítio. Algures. No enlevo e nos contrastes do verbo viajar."
- "Surpreende-nos a harpa do futuro e, não raro, o impossível acontece."
- "... a desordem dos pensamentos, o poder do sonho."
- "O chato disto é que ainda não aprendi a ver as coisas do outro lado. Mas só de vez em quando. E a tal pedra na garganta. Na verdade sinto-me onde sempre estive."
- "Ou será que, à semelhança do passado, o amanhã não existe?"
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
holderlin
- i)
"Cada um de vós é um mundo, como estrelas do céu
Vós viveis, um deus cada qual..." - ii)
"Porque aqueles que nos dão o fogo celeste,
Os deuses, também nos dão a dor sagrada.
Por isso esta fique. Filho da terra
Pareço eu: feito para amar, para sofrer."
- iii)
"Estar assim sózinho com os Celestes, e,
Se passa a luz e a tempestade e o vento, e
O tempo se apressa ao seu termo, ter perante eles
Um olhar firme,
Nada mais feliz sei ou desejo..."
- iv)
"Inda há muito, muito de grande a descobrir, e quem
Assim amou, vai - tem de ir! - pela estrada dos deuses.
E acompanhai-me vós, horas sacrais! vós, graves,
Juvenis! Pressentimentos santos, ficai vós connosco,
Preces devotas! e vós, entusiasmos, e vós todos,
Boms génios, que gostais de acompanhar os que amam;
Ficai connosco até nos encontrarmos no solo comum,
Lá onde os venturosos todos descem de bom grado,
Lá onde as águias estão, os astros, os mensageiros do Pai
E as Musas, lá donde vêm os heróis e os amantes,
Lá, ou aqui mesmo, sobre uma ilha orvalhada
Onde os nossos esperam, flores reunidas em jardins,
Onde os cantos são verdade, e as Primaveras são mais tempo
belas,
E de novo um ano da nossa alma começa!"
- v)
"... tu disseste-me: Também aqui há deuses e reinam,
Grande é a sua medida, mas o homem só gosta de medir a
palmo."
- vi)
"Decerto vivem os deuses,
Mas lá em cima, noutro mundo, por sobre as nossas cabeças.
Infidamente ali agem e pouco parece importar-lhes
Se nós vivemos ou não, tanto os Divinos nos poupam.
Pois nem sempre consegue um vaso fraco prendê-los,
Só de tempo a tempo o homem suporta plenitude divina.
E a vida é depois sonhar com eles.

"A poesia não é nenhum jogo, a relação com ela não é o descanso jocoso que faz com que uma pessoa se esqueça de si própria, mas o despertar e a concentração da essência mais íntima do indivíduo, pela qual ele recua ao fundo do seu ser-aí. Se cada indivíduo vier de lá, a verdadeira concentração dos indivíduos numa comunidade primordial já antecipadamente aconteceu. A interligação grosseira de muitos numa pretensa organização é apenas uma medida provisória, mas não a essência."
t. s. eliot

i)
Porque eu não espero voltar a conhecer
A glória enferma da hora positiva
Porque eu não penso
Porque eu conheço que não conhecerei
O único poder transitório verdadeiro
Porque eu não posso beber
Ali onde estão árvores, e onde há fontes, porque
nada existe uma outra vez
ii)
Porque eu sei que o tempo é sempre tempo
E o lugar é só e sempre só lugar
E o que é real só uma vez o é
E só nesse lugar
Alegro-me que as coisas sejam como são e
Renuncio ao rosto abençoado
E renuncio à voz
Porque eu não espero voltar mais
Isso me alegra já que tenho de ter algo
Que me alegre.
iii)
Se a última palavra se perde, se a palavra dita é dita
Se a palavra não ouvida, não falada,
Se a palavra não falada, não ouvida;
Tranquila é a palavra não dita, a Palavra de dentro
O mundo e para o mundo;
E a luz brilhou na escuridão e
Contra o Mundo o mundo inquieto ainda andava à roda
À volta do centro da Palavra silenciosa.









