quarta-feira, 20 de maio de 2009

Nova Cidadania


APEFP Filo-Café Eutanásia






Aproximadamente com quase meia centena de pessoas, a 5.ª sessão do I Filo-Café organizada pela Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, dedicada ao tema da Eutanásia, e realizada no Museu Bernardino Machado no dia 18 de Maio. decorreu, uma vez mais, para além das expectativas. O Prof. Dr. Costa Pinto, da Faculdade de Filosofia de Braga/Universidade Católica Portuguesa, projectou a mensagem da cultura e de potencializar a vida numa sociedade que proclama a cultura da morte. Brevemente se fará uma reflexão baseada na intervenção do prof. Costa Pinto.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bernardino Machado, Pedagogo

A Educação deve ser rasgadamente liberal.

A Educação deve acelerar a emancipação individual.

O amor da liberdade é a forma sublime do amor-próprio; porque é o amor da nossa integridade para o bem.

Bernardino Machado
I


Retomo, em parte, o título que Joaquim de Oliveira (professor, colaborador assíduo no Estrela do Minho, principalmente nos anos quarenta e princípios dos cinquenta do século passado e um dos divulgadores do Neo-Realismo em V. N. de Famalicão) no citado jornal famalicense publicou em 8 de Abril de 1951 (ano do Centenário de Nascimento de Bernardino Machado), a propósito do pensamento pedagógico do republicano famalicense, o qual, em muitos aspectos, é pioneiro. Veja-se dois casos concretos: o primeiro que posso salientar diz respeito à descentralização educativa, na qual Machado pretende promover a responsabilidade educativa para as autarquias, ao nível do ensino infantil, primário e secundário; por seu turno, o segundo diz respeito a algumas das suas ideias, aqui mais teóricas do que organizativas (como é o caso do primeiro exemplo), particularmente no ensino social, retomado este por este António Sérgio.


Vem isto a propósito da publicação da Obra Pedagógica que a Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e o Museu Bernardino Machado (dirigida e coordenada pelo Prof. Dr. Norberto Cunha, coordenador científico do mesmo Museu) prepara para este ano. Compreendida em três tomos específicos, o primeiro terá textos publicados por Machado entre 1882 a 1896, o segundo será constituído pelas Notas Dum Pai, principalmente com a Introdução da 3.ª edição, o referido texto que publicou na revista de Coimbra O Instituto entre 1896 a 1903 (aliás, Oliveira Marques refere-se apenas à colaboração de Machado até 1899), e, finalmente, o terceiro, que compreende textos publicados entre 1897 a 1930.


Refira-se igualmente que no espaço temporal de 1896 a 1903 Bernardino Machado publicou, nada mais nada menos, do que cinco edições das Notas Dum Pai (1896, 1897, 1899, 1901, 1903), refundindo-as, acrescentando ou emendando-as. No caso das emendas, não só numa perspectiva gramatical ou formal do sentido dos aforismos, só por curiosidade, Machado dá conta do erro que comete com um aforismo na 2.ª edição, o qual reflecte a sua teoria do bem, não tendo até então sentido programático e


teórico. Dizia-nos até então Machado, até ter detectado o erro, que Fazer o bem é realizar a imoralidade, substituindo imoralidade por imortalidade, assim fazendo mais sentido.
O que pretendo com este texto é essencialmente divulgar o pensamento pedagógico de Bernardino Machado, inserindo-me particularmente nas Notas Dum Pai que publicou em O Instituto entre 1896 a 1899.


II

Antes de apresentar o que Bernardino Machado pretende nesses três anos com as Notas Dum Pai, gostava de salientar duas fazes relativamente ao seu pensamento pedagógico: o antes e o depois do Congresso Pedagógico Hispano-Português-Americano realizado em Madrid em 1892, tendo sido ele o seu Vice-Presidente.


Antes de 1892, Machado já tinha publicado O Estado da Instrução Secundária (1882), O Discurso Comemorativo do Marquês de Pombal (1882), a Necessidade de um Ministério de Instrução Pública (1886), Afirmações Públicas: 1882-1886 (1888), Instrução Pública (1890), Introdução à Pedagogia (1892), A Conservação do Ministério da Instrução Pública (1892); e depois do Congresso publica A Crise Política e Financeira e o Ensino (1893), Afirmações Públicas: 1888-1893 (1896), a 1.ª e a 2.ª edição das Notas Dum Pai (1896, 1897), A Socialização do Ensino (1897), O Ensino (1898), O Ensino Profissional e Secundário (1899) e O Ensino Primário e Secundário (1899). À parte destes títulos desta fase, temos os textos e os relatórios de Machado enquanto esteve no Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, relativamente à indústria (1898) e à agricultura (1899), os quais reflectem a base prática da sua teoria pedagógica.


Se, como tal os títulos evidenciam, existe no primeiro momento uma preocupação organizativa em Bernardino Machado de um Ministério da Educação e Instrução Pública em Portugal, no segundo momento surge, de uma forma mais


consistente, a teorização educativa, senão mesmo já antes, promulgando já algumas ideias base. Ora, esta alteração deve-se particularmente à sua participação no Congresso já referido. No seu discurso de encerramento salienta, então, “a necessidade da existência dum Ministério de Instrução Pública, para que o serviço do ensino não corra o risco de ser sacrificado a qualquer outro”, como também evidencia quatro pontos essenciais e reinvindicativos que saíram desse mesmo Congresso. Cito:

i)
"Proclamou a necessidade de que todos os funcionários da administração, do ensino possuam a competência pedagógica; de que a qualquer professor, ainda ao da mais humilde escola, seja lícito ascender por promoção até aos mais altos postos do ensino; e de que se franqueiem as carreiras do magistério não só ao homem mas também à mulher. E, assim constituídos os quadros do ensino, proclamou a necessidade de se reconhecer a legítima autonomia interna das corporações docentes, entregando-lhes a iniciativa na regulamentação dos exercícios escolares e concedendo-lhes uma discreta interferência na organização dos serviços e na distribuição dos fundos que lhes são consignados."


ii)
"Proclamou a necessidade de se ministrar por igual a educação a ambos os sexos; a necessidade de se multiplicarem e diversificarem as formas e os ramos de ensino, de se diversificar mesmo o horário, para que a nenhuma classe social se falte com o pão do espírito, e em especial de. se preparar o magistério por meio de escolas normais, bem como da acentuação do carácter pedagógico das universidades e escolas profissionais; e a necessidade de se acudir com pensões aos talentos deserdados da fortuna para assim se alargar o campo de recrutamento das classes dirigentes, e conjuntamente a de se acudir não apenas com pensões, mas com escolas especiais, aos deserdados da natureza, cegos, surdos-mudos e imbecis."


iii)
"Proclamou a necessidade de se dar um sentido liberal ao ensino, de tornar pessoal e viril o trabalho do aluno, desde a instrução elementar até à superior, e de não cultivar só o seu engenho, o seu gosto ou a sua habilidade oral ou manual, mas


desenvolver-lhe por completo todas as faculdades formá-lo integralmente para o desempenho das suas múltiplas obrigações sociais, de tal modo que não resulte um rotineiro, um diletante ou um ideólogo, mas sim venha a ser um colaborador consciente,. independente e eficaz da obra civilizadora da humanidade. E proclamou a necessidade de se coordenarem os vários graus da instrução o mais perfeitamente possível, para que um indivíduo da classe popular possa, sem desaproveitar a educação que fez, transitar para as escolas de ensino médio, e esse mesmo ainda, ou um indivíduo da classe média, possa, com igual economia de forças, chegar a frequentar as escolas de alto ensino."

iv)
"Proclamou, finalmente, a necessidade de se estreitarem as relações entre professores, entre discípulos e entre professores e discípulos, dum e de outro sexo, para que a escola seja a imagem idealizada da sociedade; e, ao mesmo tempo, a necessidade de se vincular organicamente a vida escolar à vida social para que a escola receba os influxos salutares da sociedade e reciprocamente nela influa; a necessidade, em suma, de se nacionalizar o ensino, de fazer passar pela escola um sopro de ardente patriotismo que tempere as almas juvenis para os rasgos das mais nobres acções."



III

O que as Notas Dum Pai têm representado no contexto do pensamento pedagógico de Bernardino Machado são, particularmente, duas ideias principais, as quais se podem interligar, diferentes entres si e que alguns teóricos têm propugnado. É o caso de Rogério Fernandes, que nos diz “a obra de Machado apresenta afinidades doutrinais com o movimento da “Escola Nova”. Claparède aponta as Notas Dum Pai entre os primeiros contributos para o estudo da criança, mediante a observação directa dos seus


comportamentos, à semelhança do que fizera Darwin na obra a que chamou “Biografia de uma Criança”. Nesta linha, temos também António Figueirinhas, pedagogo, o qual, no princípio do século passado realça nas Notas Dum Pai a “razão clara, a conclusão lógica e natural de toda uma série de reflexões pessoais”, salientando o “produto de uma profunda intuição de psicólogo.” E já no final do século XIX (1899), Severo Portela vai não só na mesma linha, como também salienta que tal livro é útil para os psicólogos.


Em 1897 surge, contudo, uma opinião bem diferente com Gonçalves Cerejeira, famalicense, avô de Armando Bacelar, num texto que publica no jornal de Famalicão O Porvir (4 Ago. 1897), na sua rubrica mais do que famosa Palavras Vermelhas, na recepção que então efectua à 2.ª edição das Notas Dum Pai. Salientando inicialmente o papel de Machado enquanto lutador pela “causa da instrução popular e da educação cívica portuguesa”, salienta, e foco, o seguinte:


"… que muitas daquelas pequenas notas tão grande e original é o seu alcance de actualidade e interesse social, que dariam, desenvolvidas e esplanadas, volumosos tratados relativos aos mais variados ramos da ciência e da filosofia. Porque as Notas dum Pai, metodicamente deduzidas e concatenadas, tratam de tudo em poucas palavras, fazem um livro, por assim dizer, enciclopédico, mas visando singularmente a este objectivo supremo – a educação. O seu autor, porém, evidenciando as suas poderosas faculdades de análises e observação e concomitantemente o seu poder de generalização e síntese, elaborou uma espécie de filosofia da educação, em pequenas notas tão simples, tão claras, tão surpreendentes mesmo pela sua flagrante realidade prática, duma leitura tão atraente, que se torna acessível a todas as inteligências e constituiria uma bela cartilha popular de educação. "(itálicos meus)



Destaco de Cerejeira duas ideias principais: filosofia da educação e realidade prática. Assim, o que pretendo evidenciar, em traços gerais, é particularmente essa mesma filosofia da educação para o civismo da sociedade portuguesa. Neste aspecto, o que encontramos nas Notas Dum Pai entre 1896 a 1899 publicadas na revista coimbrã é, não só, com a observação da psicologia infantil, como também, ao mesmo tempo, desta


evidência prática a elaboração de uma teoria do carácter e da personalidade. Desta forma, preconizando Bernardino Machado vários tipos de educação (real, prática, oral, intelectual, estética (artística, física, cívica e económica), vai estabelecendo uma espécie de um catálogo das virtudes (curiosidade, serenidade, esperança, confiança, simpatia, vontade, esforço, harmonia, cordealidade, bondade, patriotismo, afectividade, etc.) e de vícios (frivolidade, exagero, idiotice, egoísmo, estupidez, preguiça, fraqueza, etc.) para a concretização dessa mesma educação.
Se elabora, paralelamente, e desenvolve três grandes temas, a educação feminina, a educação social e a sua filosofia política, critica Machado a educação humanista dos finais do século XIX, considerando-a egoísta, proclamando uma educação geral nos seguintes termos:


"A concepção reinante da educação, que a divide em duas fases, a da educação humanista e a da educação profissional, é profundamente viciosa. / Assim, como se reconheceu que, para apreender seja o que for, ciência, arte ou indústria, hão-de envidar-se todas as energias do espírito, e à chamada educação progressiva, que amputava o indivíduo, reduzindo-o a cada época do seu crescimento ao exercício exclusivo da faculdade então predominante, sucedeu uma mais bem entendida organização pedagógica, que, sem prejuízo, da evolutiva diferenciação das faculdades, não deixa nenhuma esterilizar-se ao abandono; assim também é necessário compreender que ciência, arte e indústria se devem fundir sempre superiormente na acção moral do homem, e que ninguém virá alcançá-la perfeitamente fazendo ora uma educação humanista que dispense e adie todo e qualquer serviço social, ora uma educação profissional tão estreita que cerre o entendimento e o coração às benéficas influências mútuas dos progressos da civilização. Nem a educação geral deve acabar nunca, nem é nunca cedo para principiar a profissional. Cultura e ofício são inseparáveis."


Neste sentido, surge o papel do professor, o qual se caracteriza para Machado “pela sua capacidade de observação e sugestão dos outros espíritos, isto é, pela capacidade de os sentir e de agir sobre eles. Não é um sábio, nem um artista; mas um industrial. A sua matéria-prima é a alma humana.” Perante a educação profissional e geral e com professores assim preparados, pretende então Machado uma reforma, a qual consiste “em sair-se das escolas para as profissões e só destas para a vida pública”, sendo a educação profissional “mais do que humanista”.
Neste cenário e ideário sócio-educacional e ético, pretendia Bernardino Machado a edificação do cidadão ideal.
AGG

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cronologia Literatura & Cultura V. N. de Famalicão 1205-1825


1205
D. Sancho I no dia 1 de Julho atribui a Vila Nova uma Carta de Foral em benefício dos seus habitantes.

1217
D. Afonso II, em Coimbra, em Novembro, efectua a confirmação do Foral de 1205.

1220
As Inquirições referem Vila Nova de Famalicão por “Santa Maria de Vila Nova”.

1258
Nas Inquirições deste ano surge o termo “Famelicam”, a par de outros textos que mencionavam “in collatione Sancti Adriani de Villa Nova”.

1290
Os textos régios evocam a “freguesia de Villa Nova de Vermui”.



1306
A chancelaria do monarca regista a forma toponómica de “Villa Nova de Familicam”.

1307
O Rei D. Dinis, O Lavrador, menciona “o meu paaço de Villa Nova”.

1531
Famalicão tem 61 moradores, correspondendo, segundo Veríssimo Serrão, a 240 e 265 habitantes.


1611
Nascimento de João Soares de Brito.

1641
João Soares de Brito. “Apologia em que defende a poesia do Príncipe dos Poetas de Espanha Luís de Camões, no Canto VI, da Estância 67 a 75, e Canto I, Estância 21; e responde às censuras de um crítico destes tempos”.

1645
Nascimento do jesuíta Tomás Pereira em S. Martinho do Vale, a 1 de Novembro.

1664
Falecimento de João Soares de Brito.

1682
Nascimento, no Louro, de João da Silva Ferreira.

1688
P. Tomás Pereira. “Vida de Fernando Verbiet”.

1691
P. Tomás Pereira. “Memória”.

1692
P. Tomás Pereira. “Cartas ao Padre Geral”.
P. Tomás Pereira. “Memória”.

1699
Passagem por Famalicão do Frade Capuchinho François de Tours, deixando no seu caderno de viagem a seguinte referência: “Vila Nova, un gros bourg.”

1708
Falecimento em Pequim, a 24 de Dezembro, do jesuíta Tomás Pereira.


1713
P. Tomás Pereira. “Verdadeira Doutrina da Música”, em 5 volumes. Os quatros primeiross volumes desta obra, composta por ordem do imperador, são de autores chineses. O quinto volume é do P. Tomás Pereira e do italiano P. Pedrini, lazarista.

P. Tomás Pereira. “Música Prática e Especulativa”.

1722
João Ferreira da Silva. “Alegações Jurídicas em favor dos Direitos Indubitáveis do Cabido de Braga, para compelir os moradores das Terras de Guimarães e Montelongo, a pagar-lhe os votos de S. Tiago, pertencentes à mesa Capitular”.
João da Silva Ferreira. “Alegações Jurídicas porque se mostra o Indibitavel Direito que tem o everendo Cabido da Sé primaz, para obrigar os Moradores das Terras de Guimarães e Montelongo lhes pagarem os votos de S. Tiago, pertencentes à mesa Capitular”.

1728
João da Silva Ferreira. “Sermão Primeiro da Canonização dps Gloriosos Santos Luís Gonzaga e Stanislau Kostka. Pregado no soleníssimo tríduo que celerou o Colégio de S. Paulo da Companhia de Jesus da Cidade de Braga, em 27 de Junho de 1727”.

1750
João da Silva Ferreira. “Cerimonias da Visitação deste Bispado”.

1754
João da Silva Ferreira. “Compendio da Doutrina Cristã”.

1758
Inácio José Peixoto. “As Memórias Particulares”. Este livro faz referência ao facto do Arcebispo D. Garpar ter sido aguardado em Vila Nova pelo Cabido, Arcediago, o Padre José da Fonseca e outras entidades, que lhe deram as boas vindas.

1775
Falecimento, em Vila Viçosa, de João da Silva Ferreira.

1794-1795
Custódio Vilas-Boas. “Mappa da Provincia”. Famalicão contava com 180 fogos e com 659 almas. A Igreja de Santa Maria Madalena, que tinha como padroeiros os cónegos regrantes de São Vicente de Fora, contava com 116 fogos e com 466 almas.

1798
Censo de Pina Manique. Vila Nova de Famalicão aparece referida na Comarca de Barcelos, como freguesia Santo Adrião, e atribui-se-lhe 191 fogos, estipulando-se 764 e 859 habitantes.

1800
Nascimento de Domingos Joaquim Pereira.

1801-1802
“Cadastro do Reino”. Famalicão tem um total de 758501 fogos, correspondendo a 2935393 habitantes.

1824
Nascimento de João Machado Pinheiro.

1825
Nascimento de Camilo Castelo Branco.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Ética e Política

Eugénio Oliveira, Presidente da Direcção Nacional da Associação Portuguesa de Ética e Filosofia Prática, publicou este texto ultimamente no jornal bracarense Diário do Minho (29 de Abril de 2009), focando não só os aspectos sociais da crise da sociedade contemporânea portuguesa, como também da urgência da ética não só nas instituições (públicas e privadas), como também da mesma na acção educativa, para uma cidadania cada vez mais exemplar.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Apontamentos (quase)secretos

Hoje decidi escrever um pouquito. Resolução tomada já na parte final de mais um dia trabalho, há volta do tomo II da Obra Pedagógica de Bernardino Machado. Sim, decidi escrever umas linhas e logo as ideias foram surgindo, correndo como as águas de um rio, e assim foram aparecendo estas linhas deambulatórias, mentalmente. E estão a ser escritas na biblioteca, mais propriamente no espaço de Prado Coelho, onde, no final de mais um dia de trabalho, me recolho para a investigação da cultura local, a algo que denominei Literatura e Noticiário, ou, como às vezes costumo denominar, para outras coisas mais, uma investigação que já dura há algum tempo pelo Estrela do Minho. Mas também já tive a honra e o prazer de ler e de folhear alguns livros completamente desconhecidos, alguns sabia da sua existência, outros nem tanto, da sua biblioteca, quando investigava alguns textos interpretativos da obra de Marx para aplicar ao meu estudo sobre Armando Bacelar, para uma interpretação dos textos de Bacelar, se teórico ou não do neo-realismo, tal como foi o caso de Habermas e o seu Après Marx, Lucien Goldmann e as suas Recherches Dialectiques, Merleau-Ponty com Les Aventures de la Dialectique, Castoriadis e o seu Le Contenu du Socialisme, Louis Althusser com o seu Pour Marx, ou Michel Henry com o livro Marx: une philosophie de la réalité. Como


que por milagre, lá estavam eles na biblioteca de Prado Coelho, a sorrirem-se para mim, alguns sublinhados e com apontamentos manuscritos do seu próprio punho, o que, diga-se de passagem, até ajuda para realçar o mais importante. Ainda por cima sublinhados e notas do próprio Prado Coelho! Quem diria! De vez em quando lá se pára. O silêncio da escrita, do espaço, connosco próprios, os livros. E olho para eles e tenho uma vontade enorme de os ler todos, infinitamente, viajando para outro mundo. O que é senão a literatura e a filosofia senão esse acto mágico, enquanto leitor, leitores, de me, de nos, elevar para um mundo outro por mim sonhado, por todos nós sonhado? Acto de impossibilidade este. Não será um acto impossível a leitura? A procura da totalidade. Impossível. Da perfeição, outra impossibilidade. No sossego dos livros. Hoje não, não volto a esse jornal mítico famalicense. E tudo começou simplesmente pela simples curiosidade de saber um pouco mais do ilustre director da primeira revista literária (A Alvorada) de Vila Nova, de nome Joaquim de Azuaga, e que, afinal, ainda nada apareceu. Contudo, outras curiosidades têm aparecido, bibliográficas, e não só, e cujas informações têm sido proveitosas para o Dicionário, com o acrescento de Gente Ilustre de Vila Nova de Famalicão, projecto da autarquia famalicense dirigido pelo Prof. Norberto Cunha, projecto que tem a virtude de vir a unir os famalicenses pela sua cultura, a experiência mo tem dito, algumas pessoas até têm ficado perplexas com tal


actividade, têm curiosidade, alguns verbetes têm sido já alterados, como também para a Cronologia denominada Literatura e Cultura de Famalicão, projecto este autónomo, de minha autoria. Trabalhos de resistência, de longa duração. Sempre novidades. A investigação é infinita. Procuramos umas indicações e aparecem-nos outras, infinitamente. Um livro aberto. Mas não só de Prado Coelho e dos seus livros gostaria apenas de escrever algo: também sobre estas comemorações de Abril, sobre o país que sonharam e não realizaram, este país ficcional e tão paradoxal, este país com jovens que emigram e com trabalho precário, se por cá ficam, ou sobre este país subsidiário, numa altura em que muitos politólogos e sociólogos e filósofos já concluíram da falência do estado social, um país que continua com esta política falhada a criar subdependentes – porque não criar trabalho cívico para os desempregados, na perspectiva de novos horizontes de trabalho, não de emprego –, um país que não cria alternativas, um país passivo, sem cidadania, ou então sobre a chantagem politica do Partido Socialista, via Vital Moreira (já solicitada por Sócrates, este, o político, não o filósofo) para a maioria


absoluta, caindo no ridículo de afirmar que se o partido não alcançá-la, demite-se! Que chantagem esta! Lembram-se do Jorge Coelho? Daquela frase mítica de Quem se mete com o PS leva... ? Espantoso, não?! Fica para uma próxima, possivelmente, para o reino dos possíveis. Sim, e cá estamos na sala Prado Coelho, também Vasco de Carvalho. Ao lado, Nuno Simões e Armando Bacelar. Famalicão, nos últimos tempos, nas últimas décadas, transformou-se num centro de investigação por excelência. Posso ser suspeito. Fora desta suspeição, a realidade o demonstra. Cesariny na Fundação Cupertino de Miranda, Alexandre Cabral e Manuel Simões em Seide, ou Alberto Sampaio no Arquivo Histórico, demonstra essa mesma realidade. Ultimamente, foram anunciados mais espólios que serão doados ao Museu Bernardino Machado, de Sá Marques e de Norberto Cunha, ou então há que falar da camiliana de Pinto de Castro que vai para


Seide. Possivelmente outros virão. Os cidadãos, não só os famalicenses, mas do país, têm ao seu alcance grandes espólios para as suas investigações. Destas investigações podem resultar novas mentalidades críticas. Esta é a realidade. Camilianas (Camilo bem precisa de ter uma nova dimensão, parece que estamos a voltar há geração romântica de 1925! A mensagem das comemorações do seu falecimento, um Camilo Vivo (grata expressão esta criada por Manuel Simões), assim como a exigência de um novo camilianismo, parece estar a morrer!), neo-realismo, surrealismo, a história, filosofia e literatura estão ao alcance para grandes trabalhos de investigação, para a originalidade crítica do pensamento, para um novo dizer do mundo. Sim, mas hoje apetece-me falar um pouco dos livros de Prado Coelho. Mesmo aqui ao meu lado, assim de relance, deparo-me com os livros de Augusto Abelaira, Herberto Hélder, Agustina, Ruben A, Hélia Correia, Pessoa, Natália Correia, entre tantos, tantos outros. Aqui há uns tempos, andava a investigar textos sobre o neo-realismo, para o livro de Armando Bacelar que actualmente preparo, e assim, de fugida, peguei no

Diário do Vergílio Ferreira, o primeiro volume, e fiquei espantado com o que vi na página pós-rosto: um índice manuscrito pelo próprio Prado Coelho! Fiquei estupefacto! E questionei-me se os outros diários também teriam um índice. A intenção não correspondeu perante a realidade. Os restantes volumes não tinham índice; possivelmente não precisou deles para os seus trabalhos de escrita, de investigador e de professor. Paciência. Têm de ser lidos, com tempo, trabalhados, para a continuidade de alguma nota explicativa a aplicar ao texto que pretendo escrever sobre a justificação já anunciada de Bacelar. Então, para não falar já daquelas notas curiosas escritas a lápis no livro de Agustina com o título O Susto, biografia ficcional de Pascoaes?! Quantos mais não haverão assim… E de filosofia nem se fala. Que mundo! Os meus livros e filósofos preferidos estão cá praticamente todos: Sartre, Marx, Wittgenstein, Derrida, Russel,


Berlin, Gadamer, Jonas, Steiner, Heidegger, Husserl, Ricoeur, Fernando Gil, Foucault, Kant, entre outros. Possivelmente livros e filósofos uns mais preferidos do que outros, uns mais lidos do que outros, uns mais reflectidos do que outros. Outros livros, de filosofia, também estão presentes, sobre as mais variadas temáticas. A filosofia e a técnica, por exemplo, e sei lá que mais! Eles, os livros e os filósofos, e os escritores, aqui estão há espera de serem lidos e pensados para novos voos filosóficos e literários. O ser humano não pára. A escrita não pára. A literatura hoje pode ser light; alguma filosofia também. O mais que curioso e polémico filósofo francês da actualidade, Michel Onfray, para além de desmistificar algumas ideias feitas sobre o que institucionalmente se pratica nas univAlinhar à direitaersidades e no corpo teórico das próprias investigações filosóficas, propõe, no seu último livro publicado entre nós (A Potência de Existir: manifesto hedonista), que o “filosofar é tornar viável e suportável a existência própria, aí onde nada está dado e tudo está por construir”.
AGG

Famalicão, 09.04.27

quinta-feira, 9 de abril de 2009

José Saramago, pensamentos


A Bagagem do Viajante
“Entendo que cada um de nós é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda.” (11)

“Ser filho de alguém bastante conhecido para que não fiquem em branco as linhas do cartão de identidade, é como vir ao mundo carimbado e com salvo-conduto.” (11)

“Um dia tinha de chegar em que contaria esta coisas.” (13)

“(...) ofício de viver, que não parece sequer requerer aprendizagem.” (15)

“(...) o mundo será de facto transformado mas não por nós.” (15)

“(...) não seremos todos nós transformadores do mundo?” (16)

“Tinha oito anos e já sabia ler muito bem. Escrever, não tanto, mas fazia poucos erros para a idade, só a caligrafia era má, e assim veio a ficar sempre. Escrevia naqueles antigos cadernos de formosas letras desenhadas, e repetia-as com milagres de atenção, mas no fim da linha já começava a inventar um alfabeto novo, que nunca cheguei a organizar completamente. Mas lia muito bem os jornais e sabia tudo quanto se passava no mundo. Julgava eu que era tudo.
Também tinha livros: havia um guia de conversação de português-francês, que ali fora parar não sei como, e cujas páginas, divididas em três partes, eram para mim um enigma que apenas parcialmente decifrava, pois tinha à esquerda uma coluna que eu podia entender, em português, depois outra em francês, que era como chinês, e finalmente a pronúncia figurada, muito pior do que todos os criptogramas do mundo. Havia outro livro, um só, muito grande, encadernado de azul, que eu pousava largamente em cima dos joelhos para poder lê-lo, e no qual se narravam as aventuras românticas duma menina pobre que vivia num moinho e que era tão bela que lhe chamavam A Toutinegra do Moinho: o autor, se a memória não me engana, era um Émile de Richebourg, homem das Arábias para histórias de chorar. E o livro, quando não estava em uso, passava o tempo numa gaveta da cómoda, embrulhado em papel de seda, e largava, ao ser retirado, um cheiro de naftalina que provocava tonturas. Minha mãe entregava-mo com unção e mil recomendações. Talvez venha daí o respeito supersticioso que ainda hoje tenho pelos livros: não suporto que os dobrem, os risquem, os maltratem na minha frente.
Durante muito tempo (dias? Semanas? Meses? Que tamanho tem o tempo na infância?) me intrigou o guia de conversação. Lia nele coisas que me agradavam, que me divertiam: casos passados em caminhos-de-ferro e diligências, cavalos cansados, bagagens perdidas, rodas que se quebravam em sítios descampados, chagadas a estalagens, quartos que era preciso aquecer com grandes fogos de lenha. Apesar de não encontrar casos destes entre a casa e a escola, eu achava que devia ser bom viver assim, com tantos imprevistos da fortuna.
Mas o que mais me fascinava eram uns diálogos às vezes compassados e solenes, outras vezes vivos e rápidos como o reflexo do sol varrido por uma janela que se fecha. Quando tal acontecia, punha-me a sorrir de uma certa maneira que só agora entendo: sorria como o adulto que ainda estava longe. Foi muitos anos depois que descobri que afinal já conhecia Molière desde a água-furtada: conversara comigo, fora meu guia de leitura, enquanto a Toutinegra dormia divorciada entre dois lençóis, na gaveta da cómoda, com cheiro a naftalina e a tempo não de todo perdido.” (20-21)

“O mito do paraíso perdido é o da infância – não há outro. O mais são realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcançavel. E sem elas não sei o que faríamos hoje- Eu não o sei.” (23)

“(...) o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes alic como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidérmica que prefere as vítimas fáceis.” (37)

“Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.” (37)

“A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio?” (37)

“(...) ironia (...) Provavelmente é ela a única porta de saída que me resta, a alternativa da veemência com que eu teria de interpelar não sei quem, não sei onde, por esta obstinação de vistas curtas, por esta falta de capacidade de criar pela nova (...)” (52)

“Ao contrário do que afirmam os ingénuos (todos o somos uma vez por outra), não basta dizer a verdade. De pouco ela servirá ao trato das pessoas se não for crível, e talvez até devesse ser essa a sua primeira qualidade. A verdade é apenas meio caminho, a outra metade chama-se credibilidade. Por isso há mentiras que passam por verdades, e verdades que são tidas por mentiras.” (55)

“Conhecemos sempre muito mais dos outros quando já nos passaram pela porta ilusões parecidas.” (75)

“Escrever é obra doutra perfeição (...)” (76)

“(...) o passado está cheio de vozes que não se calam e ao lado da minha sombra há uma multidão infinita de quantos a justificam.” (84)

“Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará” (95

“Estas coisas também são assim, e no fundo ninguém nos quer mal, a culpa é do tempo que passa, e quando eu morrer as pessoas também vão ter muita pena. A ver.” (104)

“Um delgado fio é a fronteira, e parte-se, e gasta-se, e é logo outro mundo.
Quero eu dizer na minha que estas crónicas são também os dizeres de um fala-só. Que esta continuada comunicação tem qualquer coisa de insensato, porque é uma voz cega lançada para um espaço imenso onde outras vozes monologam, e tudo é abafado por um silêncio espesso e mole que nos rodeia e faz de cada um de nós uma ilha de angústia.” (104)

“Afinal nada é simples. Uma frase numa página de jornal, meia dúzia de palavras insignificantes, impessoais – e vai-se a ver, há nelas motivo de sobra para reflexão. Só me falta recomendar ao leitor que aplique o método no seu dia-a-dia: pegue nas palavras, pese-as., meça-as, veja a maneira como se ligam, o que exprimem, decifre o arzinho velhaco com que dizem uma coisa por outra e venha-me cá dizer se não se sente melhor depois de as ter esfolado.” (109)

“De mais sei eu que a confiança é, em muitos casos, a armadilha que a nós próprios armamos, e para ela é que os outros nos empurram, sorrindo.” (120)

“Um mundo de coisas, se eu estivesse em disposição de escolher uma, encontrar-lhe o jeito, surpreendê-la a olhar para outro lado e caçar-lhe o perfil secreto – que é, afinal, em que se resume a arte de escrever.” (120)

“Mas agora quereria que descesse um pouco mais no fundo e fizesse comigo a descoberta do que representa, para quem escreve, a pública exibição do que sente e do que pensa, do que projecta e do que realizou antes, ou falhou. Sobretudo, o cronista, porque faz da matéria da vida (da sua e da alheia, deste mundo e do outro) a ponte de comunicação e a própria comunicação, acho eu que a muito se atreve e arrisca. Não pode ser um reflexo indiferente, um arranjador de notícias que mesmo quando relatam catástrofes têm sempre alguma coisa de impessoal e distante. Há-de afirmar-se em cada palavra que escreva, de tal maneira que à terceira linha se acabaram os segredos e o leitor não tem mais remédio que uma destas atitudes: ou senta o cronista à sua mesa, como faz aos amigos, ou fecha-lhe a porta na cara, como aos importunos, deixando-o a arranhar desanimadamente a bandurra.” (120-121)

“Saberei que malhas e nós tecem uma existência que não é a minha, esta que aqui ando a contar, e uma vez mais descobrirei, sempre com o mesmo espanto, que todas as vidas são extraordinárias, que todas são uma bela e terrível história.” (121)

“Quem escreve, penso eu que o faz como no interior de um cubo imenso, onde nada mais existe que uma folha de papel e a palpitação de duas mãos, rápidas, hesitantes, asas violentas que de súbito descaem para o lado, cortadas do corpo. Quem escreve tem à sua volta um deserto que parece infinito, reino cuidadosamente despovoado para que só fique a imagem surreal de um capo aberto, de uma mesa de escriturário à sombra da árvore inventada, e um perfil esquinado que tudo faz para assemelhar-se ao homem. Quem escreve, penso eu que procura ocultar um defeito, um vício, uma tara aos seus próprios olhos indecente. Quem escreve, está traindo alguém.” (143)

“Não tenho nenhuma história para contar. Sinto-me cansado de histórias como se subitamente tivesse descoberto que todas foram contadas no dia em que o homem foi capaz de dizer a primeira palavra, se é que houve realmente uma primeira palavra, se é que as palavras não são todas elas, cada uma e em cada momento, a primeira palavra. Então tornarão a ser precisas as histórias, então teremos de reconhecer que nenhuma foi contada ainda.” (144)

“Para lá do risco que separa as areias e o céu, tão longe que sentado as não vejo, andam as pessoas que vão ler as palavras que escrevo, que as vão desprezar ou entender, que as guardarão na memória pelo tempo que a memória consentir e que depois as esquecerão, como se fossem apenas o boquejar sufocado de um peixe fora de água.” (144)

“Também é bom fazer perguntas quando se sabe que não irão ter resposta. Porque depois delas se podem acrescentar outras, tão ciosas como as primeiras, tão impertinentes, tão capazes de consolação no retorno do silêncio que as vai receber.” (145)

“Então se tornarão a contar as histórias que hoje dizemos impossíveis. E tudo (talvez sim, talvez sim), começará a ser explicado e entendido. Como a primeira palavra.” (145)

“(...) sei o que significa este tremor das mãos no virar das páginas: o segredo está em qualquer parte, debaixo dos dedos, numa entrelinha que se esconde.” (152)

“(...) fez o seu devir de obra de arte: ser e agir.” (159)

“(...) talvez a franqueza de cada um de nós não seja irremediável. Avida está aí à nossa espera, quem sabe se para tirar a prova real do que valemos. Saberemos alguma vez quem somos?” (161)

“(...) mais recordo o tempo das palavras de um sentido só (...)” (172)

“(...) um mundo que julgávamos tão pequeno e que, afinal, tem o seu tamanho multiplicado pelo número infinito de instantes que formam, juntos, o tempo do mundo.” (177)

“Claro que não estou a pensar em cultivar-se um tipo de devoção historicista toda voltada para o passado, para os «bons tempos» em que fomos senhores do mundo ou, mais modestamente, do nosso caminho. Tratar-se-ia, antes, de desenredar esse caminho do amontoado do tempo e dos acontecimentos, de modo a encontrarmo-nos, como povo, conscientes, agora sim, de um tempo histórico vivido e assumido, perante a nova sociedade (e quem sabe se a nova civilização) que em todo o mundo se forma, entre os sobressaltos e os estertores do que ainda não há muito tempo parecia tão sólido, tão para durar.” (188)

“(...) o simples cronista que eu sou se deverá dar por satisfeito com aflorar ao de leve as interrogações mais próximas. É o seu modo de estar presente, de intervir, de exprimir a sua cidadania, de querer bem ao país onde nasceu, de amar o povo a que pertence.” (189)

“Se ao cronista compete ser registador do tempo, o seu particular e aquele em que mais alargadamente vive...” (195)

“(...) o silêncio, que é sempre a fascinação de quem escreve, mas a que só raríssimos tiveram a coragem de abrir as portas da sua casa.” (195)

“No fundo, sou um bom sujeito, com uma só confessada fraqueza de má vizinhança: a ironia. Ainda assim, procuro trocar-lhe as voltas e trato de trazê-la (as aliterações dos nossos trisavós estão outra vez na moda) para que a vida não se me torne em demasia desconfortável. Mas devo confessar que ela me vale como receita de bom médico sempre que a outra porta de saída teria de ser a indignação. Às vezes o impudor é tanto, tão maltratada a verdade, tão ridicularizada a justiça, que se não troço, estoiro de justíssimo furor.” (207)

“No meu modesto entendimento, não há nada melhor que caminhar e circular, abrir os olhos e deixar que as imagens nos atravessem como o sol faz à vidraça. Disponhamos dentro de nós o filtro adequado (a sensibilidade acordada, a cultura possível) e mais tarde encontraremos, em estado de inesperada pureza, a maravilhosa cintilação da memória enriquecida.” (211)

“(...) a providência dos cronistas, a qual é (aqui o confesso) a associação de ideias.” (221)

“Falamos destas coisas gravemente, divididos entre o que só a nós pertence e aquilo em que apenas com um respeito infinito podemos tocar.” (228)

“Se passo as minhas lembranças ao papel, é mais para que não se percam (em mim) minutos de ouro, horas que resplandecem como sóis no céu tumultuoso e imenso que é a memória. Coisas que são também, com o mais, a minha vida.” (231)

“O trabalho da memória é conservar estas prodigiosas coisas, defendê-las do desgaste banalíssimo do quotidiano, ciosamente, porque talvez não tenhamos outra melhor riqueza.” (232)