Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Saramago. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

josé saramago



JRS - Há uma faceta da sua escrita que é pouco explorada nas conversas que tiveram consigo, que é a questão da tradução - um tradutor é também, de certo modo, um escritor. E o senhor traduziu mais de sessenta obras. Escrever a ficção dos outros ajudou-o a tornar-se melhor escritor?


Saramago - Não, não ajuda nada! Ou tens a tua própria voz ou então não é o tempo que estás ocupado com uma voz alheia, o tempo que dura uma tradução, que te vai influenciar. Não, não é. Podes admirar aquilo que estejas a traduzir: o texto, o romance, o conto ou o que quer que seja. Mas não ao ponto de dizeres: vou fazer disto o meu modelo. Isso nunca me aconteceu.


JRS - Quando estamos a ler uma obra traduzida, estamos a ler o autor ou o tradutor?


Saramago - Eu creio que antes que chegue a essa tradução, já houve outra coisa que é a do próprio autor. O autor é um tradutor.


JRS - Em que sentido?


Saramago - Em que sentido? É alguém que traduz um sistema de sinais: emoções, pensamentos, eonhos, devaneios. Isso é um trabalho de tradução, porque tudo isso constitui uma linguagem que, se não encontrar uma forma comunicável de transmissão, fica cá dentro da cabeça de cada um de nós.

domingo, 3 de julho de 2011

palavras do mundo

um livro que reúne os textos sobre josé saramago, a nível mundial, nos dias do seu falecimento. com prólogo de antónio costa e introdução de pilar del río, observamos a universalidade do escritor: textos da alemanha, argentina, bélgica, barsil, canadá, chile, colômbia, cuba, el salvador, espanhaestados unidos, frança, israel, itália, méxico, moçambique, nicarágua, panamá, paraguai, peru, portugal, reino unido, sara ocidental, uruguai e com uma série de depoimentos, a fundação josé saramago divulga, desta forma, o que de lá de fora, e de cá de dentro, pensaram então sobre o nosso mais do que nobelizado escritor. como nos diz pilar del río na introdução, Palavras para José Saramago "é um livro, claro, mas é também um dever de gratidão e um mapa sentimental e lúcido." e mais à frente: "Este livro pretende colmatar uma falaha, dizer qoa que se dedicaram o seu tempo e a sua sensibilidade a escrever sobre José Saramago que os seus textos foram lidos, guardados, acarinhados, entendidos. É também um roteiro, necessariamente incompleto, que se pode percorrer sentindo as sensações percebidas em cada país e contadas de forma magistral por escritores, jornalistas e professores, por críticos literários e por políticos..." A Fundação José Saramago está de parabéns por oferecer aos leitores saramaguianos esta "geografia sentimental" e universal.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

scarlatti e bartolomeu

“Senhor Scarlatti, disse o padre quando o improviso terminou e todos os ecos ficaram corrigidos, senhor Scarlatti, não me gabo de saber dessa arte, mas estou que até um índio da minha terra, que dela sabe ainda menos do que eu, haveria de sentir-se arrebatado por essas harmonias celestes, Porventura não, respondeu o músico, porque bem sabido é que há-de o ouvido ser educado se quer estimar os sons musicais, como os olhos têm de aprender a orientar-se no valor das letras e sua conjunção de leitura, e os próprios ouvidos no entendimento da fala, São palavras ponderadas, essas, que emendam as levianas minhas, é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente de conhecer os erros, E praticá-los, Não saberei responder à pergunta com um simples sim ou um simples não, mas acredito na necessidade do erro / […] / Tendes razão, disse o padre, mas, desse modo, não está homem livre de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade, respondeu o músico, e logo disse o padre, Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta, Caso em que, sobre esse ponto, estaria Pilatos sendo igual de Jesus, Derradeiramente, sim, Se a música pode ser tão excelente mestra de argumentação, quero já ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu, senhor padre Bartolomeu de Gusmão, que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e concluir como fazem sermão e discurso, Ainda que, reparando bem no que se diz e como, senhor Scarlatti, se exponham e contraponham, as mais das vezes, fumo e nevoeiro, e se conclua coisa nenhuma. A isto não respondeu o músico, e o padre rematou, Todo o pregador honesto o sente quando baixa do púlpito, Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.” (José Saramago, Memorial do Convento, 157-159). Itálicos meus


a visita à passarola



“Na sua frente estava uma ave gigantesca, de asas abertas, cauda em leque, pescoço comprido, a cabeça ainda em tosco, por isso não se sabia se viria a ser falcão ou gaivota., É este o segredo, perguntou, Este é, até hoje de três pessoas, agora de quatro, aqui está Baltasar Sete-Sóis, e Blimunda não se demora, anda na horta. O italiano fez uma pequena vénia na direcção de Baltasar, que respondeu com outra mais profunda, ainda que inábil, sempre era ele o mecânico, e além disso estava sujo, enfarruscado da forja, em todo ele só brilhava o gancho, do muito e constante trabalho. Domenico Scarlatti aproximou-se da máquina, que se equilibrava sobre uns espeques laterais, pousou as mãos numa das asas como se ela fosse um teclado, e, singularmente, toda a ave vibrou apesar do seu grande peso, cavername de madeira, lamelas de ferro, vime entrançado, se houver forças que façam levantar isto, então ao homem nada é impossível, Estas asas são fixas, Assim é, Nenhuma ave pode voar sem bater as asas, A isso Baltasar responderia que basta ter forma de ave para voar, mas eu respondo que o segredo do voo não é nas asas que está, E esse segredo não o posso saber eu, Não posso dar mais que mostrar o que aqui se vê, Já isso basta para que eu agradeça, mas, havendo esta ave de voar, como sairá, se não cabe na porta. / Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora. Blimunda estava ali, com um cesto de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. […] Disse o padre Bartolomeu Lourenço, Não irei revelar o segredo último do voo, mas, tal como escrevi na petição e memória, toda a máquina se moverá por obra de uma virtude colectiva contrária à queda dos graves, se eu largar este caroço de cereja, ele cai para o chão, ora, a dificuldade está em encontrar o que o faça subir. E encontrou. O segredo descobri-o eu, quanto a encontrar, colher e reunir é trabalho de nós três. É uma trindade terrestre, o pai, o filho e o espírito santo, Eu e Baltasar, temos a mesma idade, trinta e cinco anos, não poderíamos ser pai e filho naturais, isto é, segundo a natureza, mais facilmente irmãos, mas, sendo-o, gémeos teríamos de ser, ora ele nasceu em Mafra, eu no Brasil, e as parecenças são nenhumas, Quanto ao espírito, Esse seria Blimunda, talvez seja ela a que mais perto estaria de ser parte numa trindade não terrenal, Trinta e cinco anos é também a minha idade, mas nasci em Nápoles, não poderíamos ser uma trindade de gémeos, e Blimunda que idade tem, Tenho vinte e oito, e sem irmão ou irmã, e isto dizendo levantou Blimunda os olhos, quase brancos na meia penumbra da abegoaria, e Domenico Scarletti ouviu ressoar dentro de si a corda mais grave duma harpa. Ostensivamente, Baltasar levantou o cesto quase vazio com o seu gancho, e disse, Acabou a merenda, vamos trabalhar. / O padre Bartolomeu Lourenço foi encostar uma escada à passarola, Senhor Scarlatti, se quiser ver por dentro a minha máquina de voar. Subiram ambos, o padre levava o desenho, e lá dentro, andando sobre o que parecia um convés de barco, explicou as posições e funções das diversas partes, os arames com o âmbar, as esferas, as lamelas de ferro, repetindo que tudo operaria por atracção mútua, mas não falou do sol nem do que haveriam de conter as esferas, porém o músico perguntou, Que coisa atrairá o âmbar, Talvez Deus, em quem toda a força mora, respondeu o padre, O âmbar atrairá que coisa, O que estiver dentro das esferas, Esse é o segredo, Sim, esse é o segredo, É mineral, vegetal ou animal, Não é mineral, nem vegetal, ou animal, Nem tudo, há coisas que o não são, a música, por exemplo, Padre Bartolomeu de Gusmão, decerto não quer dizer-me que estas esferas vão conter música, Não, mas quem sabe se com ela não subirá também a máquina, tenho de pensar nisso, afinal pouco falta para que me erga eu ao ar quando o ouço tocar no cravo, É um gracejo, Menos do que parece, senhor Scarlatti.” (José Saramago, Memorial do Convento, 164-166) itálicos meus

o voo da passarola



“Agora, sim, podem partir. O padre Bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltasar que segura a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltasar, não o fez logo Baltasar, tremeu-lhe a mão, que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar; para onde, Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltasar, e, num só movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu toda para um lado, o sol bateu em cheio mas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós. A máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido, ouviu-se um rangido geral, eram as lamelas de fero, os vimes entrançados, e de repente, como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia, mal ultrapassara ainda a altura das paredes, até que, firme, novamente equilibrada, erguendo a sua cabeça de gaivota, lançou-se em flecha, céu acima. Sacudidos pelos bruscos volteios, Baltasar e Blimunda tinham caído no chão de tábuas da máquina, mas o padre Bartolomeu Lourenço agarrara-se a um dos prumos que sustentavam as velas, e assim pôde ver afastar-se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas, e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto, se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do meu génio, por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus, um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo. / Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se nervosamente aos prumos, depois à armurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem nenhum susto, Ah, e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda, que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também, subitamente perturbado por uma analogia, assim dissera o italiano, Deus ele próprio, Baltasar seu filho, Blimunda o Espírito Santo, e estavam os três no céu, Só há um Deus, gritou, mas o vento levou-lhe as palavras da boca. Então Blimunda disse, Se não abrirmos a vela, continuaremos a subir, aonde iremos parar, talvez ao sol. / Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco todos temos um pouco. São maneiras de nos assegurarmos do lado de cá, imagine-se, darem os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço. Se abrirmos de repente a vela, cairemos na terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Índias. A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte, se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpeio de remo, as coisas que um homem é capaz de inventar. Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos, excessivos, mas não familiares do Santo Ofício. Desce a passarola um pouco mais, com algum esforço se observa a quinta do duque de Aveiro, é certo que estes aviadores são principiantes, falta-lhes a experiência que permitiria identificar de relance os acidentes principais, os cursos de água, as lagoas, as povoações como estrelas derramadas no chão, as escuras florestas, mas lá estão as quatro paredes da abegoaria, o aeroporto donde levantaram voo, lembra-se o padre Bartolomeu Lourenço de que tem um óculo na arca, em dois tempos o vai buscar e aponta, oh que maravilha é viver e inventar, vê-se claramente, a enxerga ao canto, a forja, só o cravo desapareceu, que foi que aconteceu ao cravo, nós o sabemos e vamos dizer, que indo Domenico Scarlatti à quinta, viu, já chegando perto, levantar-se de repente a máquina, num grande sopro de asas, que faria se elas batessem, e tendo entrado deu com os destroços da largada, as telhas partidas, espalhadas pelo chão, as ripas e os barrotes cortados ou arrancados, não há nada mais triste que uma ausência, corre o avião pista fora, levanta-se ao ar, só fica uma pungente melancolia, esta que fez sentar-se Domenico Scarlatti ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos, e depois, porque muito bem sabe ser perigoso deixar ali o cravo, arrasta-o para fora, sobre o hão irregular, aos solavancos, gemem desencontradas as cordas, agora sim se desacertarão os saltarelos e vai ser para nunca mais, levou Scarlatti o cravo até ao bocal do poço, felizmente que é baixo, e levantando-o em peso, muito lhe custa, o precipita a fundo, bate a caixa duas vezes na parede interior, todas as cordas gritam, e enfim cai na água, ninguém sabe o destino para que está guardado, cravo que tão bem tocava, agora descendo, gorgolojando como um afogado, até assentar no lodo. Do alto já não se vê o músico, vai por aí, por essas azinhagas, porventura desviando o caminho, porventura olhando para cima, torna a ver a passarola, acena com o chapéu, uma vez só, melhor é disfarçar, fingir que não se sabe nada, por isso não o viram da nave, quem sabe se tornarão a encontrar-se. " Itálicos meus

o voo da passarola


O vento está do Sul, uma brisa que mal faz agitar os cabelos de Blimunda, com esta aragem não poderão ir a lado algum, seria o mesmo que querer atravessar o oceano a nado, por isso Baltasar pergunta, Dou ao fole, todas as moedas têm duas faces, primeiro proclamou o padre, Só há um Deus, agora quer Baltasar saber, Dou ao fole, primeiro o sublime, depois o trivial, quando Deus não sopra, tem o homem de fazer força. Mas o padre Bartolomeu Lourenço parece ter sido tocado por um ramo de estupor, não fala, não se mexe, apenas olha o grande círculo da terra, uma parte de rio e mar, uma parte de monte e planície, se aquilo não é espuma, além, será a vela branca duma nau, se não for farrapo de névoa é fumo de chaminé, e contudo dir-se-ia que o mundo acabou, os homens nele, o silêncio aflige, e o vento caiu, nem um cabelo de Blimunda se move, Dá ao fole, Baltasar, disse o padre. / É como a pedaleira de um órgão, tem umas sapatas para encaixe dos pés, e, à altura do peito, fixada ao cavername da máquina, há uma barra para apoio dos braços, não é nenhuma invenção complementar do padre Bartolomeu Lourenço, foi ir à sé patriarcal e imitar do órgão que lá está, a diferença é que neste não há música para ouvir, apenas o resfolgo do sopro atirado para as asas e para a cauda da passarola, que finalmente começa a mover-se, devagar, tão devagar que só de a ver assim cansa, e ainda não chegou a coar um tiro de besta já é Baltasar que está cansado, também desta maneira não vamos a parte alguma. De cara fechada, o padre avalia os esforços de Sete-Sóis, compreende que a sua grande invenção tem um ponto fraco, no espaço celeste não se pode fazer como na água, meter os remos ao ar quando falta o vento, Pára, não dês mais aos foles, e Baltasar, esgotado, senta-se no fundo da máquina. / O susto, o júbilo, cada qual de sua vez, já passaram, agora vem o desânimo, subir e descer sabem eles, estão como homem que fosse capaz de levantar-se e deitar-se, mas não de andar. O sol vai baixando para o lado da barra, já se estendem as sombras na terra. O padre Bartolomeu Lourenço sente uma inquietação cuja causa não causa discernir, mas dela o distrai a súbita observação de que se orientam para o Norte as nuvens de fumo de uma queimada distante, quer isto dizer que, próximo da terra, o vento não deixou de soprar. Manobra a vela, estende-a um pouco mais, de modo a cobrir de sombra outra fileira de bolas de âmbar, e a máquina desce bruscamente, porém não o bastante para apanhar o vento. Mais uma fileira deixa de receber a luz do sol. A queda é tão violenta que o estômago parece querer saltar-lhes pela boca, e agora sim, o vento colhe a máquina com uma mão poderosa e invisível e lança-a para a frente, com tal velocidade que de repente fica Lisboa para trás, já no horizonte, diluída numa bruma seca, é como se finalmente tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os caminhos ocultos, por isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam, que adamastores, que fogos de santelmo, acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas de água que vão sugar os ares e o tornam a dar salgado. Então Blimunda perguntou, Aonde vamos, e o padre respondeu, Lá aonde não possa chegar o braço do Santo Ofício, se existe esse lugar. / Este povo, que tanto espera do céu, olha pouco para o alto onde se diz que o céu é. Anda gente a trabalhar nos campos, as pessoas, nas aldeias, entram e saem das casas, vão ao quintal, à fonte, agacham-se atrás dum pinheiro, sómuma mulher que está deitada num restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passar no céu, mas julga serem visões próprias de quem está a gostar tanto. Só as aves, curiosas, voam, e perguntam, girando em redor da máquina ansiosamente, que é, que é, talvez seja este o messias dos pássaros, em comparação, a águia não passa de um S. João Baptista qualquer, Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, a história da aviação não acaba aqui. Durante algum tempo voaram acompanhados por um milhafre que assustara e fizera fugir todos os pássaros, iam só os dois, o milhafre adejando e pairando, percebe-se que voe, a passarola sem mover as asas, não soubéssemos nós que isto é feito de sol, âmbar, nuvens fechadas, ímanes e lamelas de ferro, e não acreditaríamos no que os nossos olhos vêem, além de que não teríamos a desculpa da mulher que estava deitada no restolho e já não está, acabou-se-lhe o gosto, daqui nem o sítio se vê. / O vento mudou para Sudeste, sopra com muita força, a terra passa em baixo como a superfície móvel de um rio que transportasse na corrente campos, bosques, paredes brancas, velas de moinhos, e também fios de água, que forças seriam capazes de fazer a separação dessas águas, o grande rio que passa e tudo leva consigo, os pequenos regatos que nele procuram caminho, água dentro da água, e não o sabem. / Estão os três voadores à proa da máquina, vão na direcção do poente, e o padre Bartolomeu Lourenço sente que a inquietação regressou e cresce, é pânico já, enfim vai ter voz, e essa voz é um gemido, quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a máquina, talvez caia, talvez se despedace e todos morrerão, É Mafra, além, grita Baltasar, parece o gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra, nunca comparação alguma foi tão exacta, porque esta é a terra de Baltasar, reconhece-a, mesmo nunca a tendo visto do ar, quem sabe se por termos no coração uma orografia particular que, para cada um de nós, acertará com o particular lugar onde nascemos, o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem, terra somos na terra, por isso é que Baltasar grita, É a minha terra, reconhece-a como um corpo. Passam velozmente sobre as obras do convento, mas desta vez há quem os veja, gente que foge espavorida, gente que se ajoelha ao acaso e levanta as mãos implorativas de misericórdia, gente que atira pedras, o alvoroço toma conta de milhares de homens, quem não chegou a ver, duvida, quem viu, jura e pede o testemunho do vizinho, mas provas já ninguém as pode apresentar porque a máquina afastou-se na direcção do sol, tornou-se invisível contra o disco refulgente, talvez não tivesse sido mais que uma alucinação, já os cépticos triunfam sobre a perplexidade dos que acreditaram. / Em poucos minutos, a máquina atinge a costa do mar, parece que a está puxando o sol para a levar ao outro lado do mundo. O padre Bartolomeu Lourenço compreende que vão cair na água, puxa violentamente a corda, a vela corre toda para um lado, fecha-se de golpe, e a subida é tão rápida que a terra se alarga de novo e o sol surge muito acima do horizonte. É demasiado tarde, porém. Para o lado do oriente já se avistam sombras, a noite está-se aproximando, não é possível fugir-lhe. Pouco a pouco, a máquina começa a derivar para nordeste, em linha recta, obliquando na direcção da terra, sujeita à dupla atracção da luz, que rapidamente enfraquece, mas ainda tem forças para a sustentar no espaço, e da escuridão nocturna, que já oculta os vales distantes. Agora não se sente o vento natural, vencido pela violenta corrente de ar provocada pela descida, pelo silvo agudo que a deslocação faz vibrar na cobertura de vime. O sol está pousado no horizonte do mar, como uma laranja na palma da mão, é um disco metálico retirado da forja para arrefecer, já o seu brilho não fere os olhos, foi branco, cereja, rubro, vermelho, ainda fulge, mas sobriamente, está a despedir-se, adeus, até amanhã, se houver amanhã para os três nautas aéreos que tombam como uma ave ferida de morte, mal equilibrada nas asas curtas, com o seu diadema de âmbar, em círculos concêntricos, queda que parece infinita e vai acabar. Na frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada. O padre Bartolomeu Lourenço olha indiferente, está fora do mundo, para além da própria resignação, espera o fim que não vai tardar. Mas de súbito Blimunda solta-se de Baltasar, a quem convulsa se agarrara quando a máquina precipitou a descida, e rodeia com os braços uma das esferas que contêm as nuvens fechadas, as vontades, duas mil são mas não chegam, cobre-as com o corpo, como se as quisesse meter dentro de si ou juntar-se a elas. A máquina dá um salto brusco, levanta a cabeça, cavalo a que puxaram o bridão, suspende-se por um segundo, hesita, depois recomeça a cair, mas menos depressa, e Blimunda grita, Baltasar, Baltasar, não precisou chamar três vezes, já ele se abraçara com a outra esfera, fazia o corpo com ela, Sete-Luas e Sete-Sóis sustentando com as suas nuvens fechadas a máquina que baixava, agora devagar, tão devagar que mal rangeram os vimes quando tocou o chão, só bandeou para um lado, não havia ali espeques para a receber, é que não se pode ter tudo. Frouxos de membros, extenuados, os três viajantes escorregaram para fora, tentaram ainda segurar-se à amurada, não o conseguiram, e, rolando, acharam-se estendidos no chão, sem sequer feridos de raspão, é bem verdade que não se acabaram os milagres, e este foi dos bons, nem foi preciso invocar S. Cristóvão, ele lá estava, vigiando o trânsito, viu aquele avião desgovernado, deitou-lhe a grande mão e evitou a catástrofe, para seu primeiro milagre aéreo não esteve nada mal.” (José Saramago, Memorial do Convento, 191-199). Itálicos meus.




terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

a morte, que não dormia, dormiu, apaixonadamente

"No dia seguinte ninguém morreu." (13, 214)




  • "... o conhecido impulso de recomendar tranquilidade às pessoas a propósito de tudo e de nada, de as manter sossegadas no redil seja como for, esse tropismo que nos políticos, em particular se são governo, se tornou numa segunda natureza, para não dizer automatismo, movimento mecânico..." (18)
  • "Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom povo deste país para seu instrumento..." (20)
  • "Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja, Ó diabo, Não percebi o que acaba de dizer..." (20)
  • "... que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias, Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim, De facto, por essas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental, para perceber que quem diz uma coisa, diz a outra, Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades, Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística, Estou desolado, Eminência, No seu lugar também o estaria." (20-21)
  • "... ao contrário do que se julga, não são tanto as respostas que me importam, senhor primeiro-ministro, mas as perguntas, obviamente refiro-me às nossas, observe como elas costumam ter, ao mesmo tempo, um objectivo à vista e uma intenção que vai escondida atrás, se as fazemos não é apenas para que nos respondam o que nesse momento necessitamos que os interpelados escutem da sua própria boca, é também para que se vá preparando o caminho às futuras respostas. Mais ou menos como na política, eminência, Assim é, mas a vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo." 21-22)
  • "O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que o venha a conseguir, mas a igreja, A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneiras às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga, Desde o princípio que nós não temos feito outra coisa que contradizer a realidade, e aqui estamos, Que irá dizer o papa, Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada..." (22)



  • "Quando os filósofos, divididos, como sempre, em pessimistas e optimistas, uns carrancudos, outros risonhos, se dispunham a recomeçar pela milésima vez a cediça disputa do copo de que não se sabe se está meio cheio ou vazio, a qual disputa, transferida para a questão que ali os chamara, se reduziria no final, com toda a probabilidade, a um mero inventário das vantagens ou desvantagens de estar morto ou de viver para sempre, os delegados das religiões apresentaram-se formando uma frente unida comum com a qual aspiravam a estabelecer o debate no único terreno dialéctico que lhes interessava, isto é, a aceitação explícita de que a morte era absolutamente fundamental para a realização do reino de deus e que, portanto, qualquer discussão sobre um futuro sem morte seria não só blasfema como absurda, porquanto teria de pressupor, inevitavelmente, um deus ausente, para não dizer simplesmente desaparecido." (37)
  • "... interveio um filósofo da ala optimista, porquê vos assusta tanto que a korte tenha acabado, Não sabemos se acabou, sabemos apenas que deixou de matar, não é o mesmo, DE acordo, mas, uma vez que essa dúvida não está resolvida, mantenho a pergunta, Porque se os seres humanos não morressem tudo passaria a ser permitido, E isso seria mau, perguntou o filósofo velho, Tanto como não permitir nada. Houve um novo silêncio. Aos oito homens sentados ao redor da mesa tinha sido encomendado que reflectissem sobre as consequências de um futuro sem morte e que construíssem a partir dos dados do presente uma previsão plausível das novas questões com que a sociedade iria ter de enfrentar-se, além, escusado seria dizer, do inevitável agravamento das questões velhas. Melhor então seria não fazer nada, disse um dos filósofos optimistas, os problemas do futuro, o futuro que os resolva, O pior é que o futuro é já hoje, disse um dos pessimistas, temos aqui, entre outros, os memorandos elaborados pelos chamados lares do feliz ocaso, pelos hospitais, pelas agências funerárias, pelas companhias de seguros, e, salvo o caso destas, que sempre hão-de encontrar maneira de tirar proveito de qualquer situação, há que reconhecer que as perspectivas não se limitam a ser sombrias, são catastróficas, terríveis, excedem em perigos tudo o que a mais delirante imaginação pudesse conceber, Sem pretender ser irónico, o que nas actuais circunstâncias seria de péssimo gosto, observou um integrante não menos conceituado do sector protestante, parece-me que esta comissão já nasceu morta, Os lares do feliz ocaso têm razão, antes a morte que tal sorte, disse o porta-voz dos católicos, Que pensam então fazer, perguntou o pessimista mais idoso, além de propor a extinção imediata da comissão, como parece ser o vosso desejo, Por nossa parte, ogreja católica, apostólica e romana, organizaremos uma campanha nacional de orações para rogar a deus que providencie o regresso da morte o mais rapidamente possível a fim de poupar a pobre humanidade aos piores horrores, Deus tem autoridade sobre a morte, perguntou um dos optimistas, São as duas caras da mesma moeda, de um lado o rei, do outro a coroa, Sendo assim, talvez tenha sido por ordem de deus que a morte se retirou, A seu tempo conheceremos os motivos desta provação, entretanto vamos pôr os rosários a trabalhar, Nós faremos o mesmo, refiro-me às orações, claro está, não aos rosários, sorriu o protestante, E também vamos fazer sair à rua em todo o país procissões a pedir a morte, da mesma maneira que já as fazíamos ad pretendem pluviam, para pedir chuva, traduziu o católico. A tanto não chegaremos nós, essas procissões nunca fizeram parte das manias que cultivamos, tornou a sorrir o protestante. E nós, perguntou um dos filósofos optimistas em um tom que parecia anunciar o seu próximo ingresso nas fileiras contrárias, que vamos fazer a partir de agora, quando parece que todas as portas se fecharam, Para começar, levantar a sessão, respondeu o mais velho, E depois, Continuar a filosofar, já que anscemos para isso, e ainda que seja sobre o vazio, Para quê, Para quê, não sei, Então porquê, Porque a filosofia precisa tanto da morte como as religiões, se filosofamos é por saber que morreremos, monsieur de montaigne já tinha dito que filosofar é aprender a morrer." (38-40


  • "Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas." (69)
  • "... tudo o que possa suceder, sucederá, é uma mera questão de tempo, e, se não chegámos a vê-lo enquanto por cá andávamos, terá sido só porque não tínhamos vivido o suficiente." (87)
  • "Se não voltarmos a morrer não temos futuro." (92)
  • "Tal como estão as coisas, já não sabenos o que está bem e o que está mal." (97)
  • "... que o comboio do mundo regressasse aos carris do costume para fazer a viagem de sempre." (107)
  • "... as palavras se o não sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixarma de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados, aí lhe fica a informação." (118)
  • "... quando nos perguntamos se somos realmente aqueles que fomos..." (157)
  • "Tantas palavras para uma só e triste cousa, É o costume desta gente, nunca acabam de dizer o que querem." (170)
  • "A vida é uma orquestra que sempre está tocando, ainada, desafinada, um paquete titanic que sempre se afunda e sempre volta à superfície..." (173)
  • "... as mãos são dois livros abertos, não pelas razões, supostas ou autênticas, da quiromancia, com as suas linhas do coração e da vida, da vida, meus senhores, ouviram bem, da vida, mas porque falam quando se abrem ou se fecham, quando acariciam ou golpeiam, quando enxugam uma lágrima ou disfarçam um sorriso, quando se pousam sobre um ombro ou acenam um adeus, quando trabalham, quando estão quietas, quando dormem, quando despertam..." (178)
  • "... coitados dos dicionários, que têm de governar-se eles e governar-nos a nós com as palavras que existem, quando são tantas as que ainda faltam..." (178)
  • "As palavras também têm a sua hierarquia, o seu protocolo, os seus títulos de nobreza, os seus estigmas de plebeu." (203)
  • "... e aqui para nós, cépticos e descrentes que somos... as palavras têm muitas vezes efeitos contrários aos que se haviam proposto..." (209)
  • "... afinal não era certo aquele provérbio que dizia que o que os olhos não vêem, não sente o coração. Os provérbios estão constantemente a enganar-nos..." (212)
  • "... as mãos se deram às mãos e não se estranharam." (213)

domingo, 19 de dezembro de 2010

todos os nomes



  • "É mais do que certo e sabido que a morte, quer por incompetência de origem quer por má-fé adquirida na experiência, não escolhe as suas vítimas consoante a duração das vidas que viveram, procedimento este, aliás, entre parêntesis se diga, que, a dar crédito à palavra das inúmeras autoridades filosóficas e religiosas que sobre o tema se pronunciaram, acabou por produzir no ser humano, reflexamente, por diferentes e às vezes contraditórios caminhos, o efeito paradoxal duma sublimação intelectual do temor natural de morrer. Mas, indo ao que nos interessa, aquilo de que a morte nunca poderá ser acusada é de ter deixado ficar indefinidamente no mundo algum esquecido velho, apenas para se ir tornando cada vez mais velho, sem merecimento ou outro motivo visível." (15-16)
  • "... o espírito humano, muitas vezes, toma decisões cujas causas mostra não conhecer, sendo de supor que o faz depois de ter percorrido os caminhos da mente com tal velocidade que depois não é capaz de os reconhecer e muito menos reencontrar." (24)
  • "Só os deuses mortos são deuses sempre." (26)
  • "... não há nada que mais canse uma pessoa que ter de lutar, não com o seu próprio espírito, mas com uma abstracção." (27)
  • "Para anunciar o começo de algo, fala-se sempre do dia primeiro, quando a primeira noite é que deveria contar, ela é que é a condição do dia, a noite seria eterna se não houvesse noite." (28)
  • "A fama, ai de nós, é um ar que tanto vem como vai, é um cata-vento que tanto gira ao norte como ao sul, e tal como sucede passar uma pessoa do anonimato à celebridade sem perceber porquê, também não é raro que depois de ter andado a espanejar-se à calorosa aura pública acabe sem saber como se chama." (29-30)
  • "... sendo a vida biologicamente a mesma, quer dizer, o mesmo ser, as mesmas células, as mesmas feições, a mesma estatura, o mesmo modo aparente de olhar, ver e reparar, e sem que a estatística se tivesse podido aperceber da mudança. essa vida passou a ser outra vida, e outra pessoa essa pessoa." (31)
  • "O sábio é sábio consoante o grau de prudência que o exorne..." (34)
  • "... a prudência só é boa quando se trata de conservar aquilo que já não interessa..." (35)
  • "... Quantos aos pensamentos metafísicos, meu caro senhor, permita-me que lhe diga que qualquer cabeça é capaz de os produzir, o que muitas vezes não consegue é encontrar as palavras." (39)
  • "Em geral não se diz que uma decisão nos aparece, as pessoas são tão zelosas da sua identidade, por vaga que seja, e da sua autoridade, por pouca que tenham, que preferem dar-nos a entender que reflectiram antes de dar o último passo, que ponderaram os prós e os contras, que sopesaram as possibilidades e as alternativas, e que, ao cabo de um intenso trabalho emntal, tomaram finalmente a decisão. Há que dizer que estas coisas nunca se passaram assim. Decerto não entrará na cabeça de ninguém a ideia de comer sem sentir suficiente apetite, e o apetite não depende da vontade de cada um, forma-se por si mesmo, resulta de objectivas necessidades do corpo, é um problema físico-químico cuja solução, de um modo mais ou menos satisfatório, será encontrada no conteúdo do prato. Mesmo um acto tão simples, como é o de descer à rua a comprar o jornal pressupõe, não só um suficiente desejo de receber ingormação, o qual, esclareça-se, sendo desejo, é necessariamente apetite, efeito de actividades físico-químicas específicas do corpo, ainda que de diferente natureza, como pressupõe também, esse acto rotineiro, por exemplo, a certeza, ou a convicção, ou a esperança, não conscientes, de que a viatura de distribuição não se atrasou ou de que o posto de venda de jornais não está fechado por doença ou ausência voluntária do proprietário. Aliás, se persistíssemos em afirmar que as nossas decisões somos nós que as tomamos, então teríamos de principiar por dilucidar, por discernir, por distinguir, quem é, em nós, aquele que tomou a decisão e aquele que depois a irá cumprir, operações impossíveis, onde as houver. Em rigor, não tomamos decisões, são as decisões que nos tomam a nós. A prova encontramo-la em que, levando a vida a executar sucessivamente os mais diversos actos, não fazemos preceder cada um deles de um período de reflexão, de avaliação, de cálculo, ao fim do qual, e só então, é que nos declararíamos em condições de decidir se iríamos almoçar, ou comprar o jornal, ou procurar a mulher desconhecida." (41-42)
  • "O corpo que sonha é real, portanto, salvo opinião mais autorizada, também tem de ser real o sonho que ele estiver a sonhar, O sonho só tem realidade como sonho, Quer dizer que a minha única realidade foi essa, Sim, foi essa a sua única realidade vivida..." (44)
  • "... o tempo, ainda que os relógios queriam convencer-nos do contrário, não é o mesmo para toda a gente." (47)
  • "... O acaso não escolhe, propõe..." (47)
  • "Quem somos nós para falar de consequências, se da fila interminável delas que incessantemente vêm caminhando na nossa direcção apenas podemos ver a primeira, Significa isso que algo pode acontecer ainda, Algo, não, tudo, Não compreendo, Só porque vivemos absortos é que não reparamos que o que nos vai acontecendo deixa intacto, em cada momento, o que nos pode acontecer, Quer isso dizer que o que pode acontecer se vai regenrando constantemente, Não só se regenera como se multiplica, basta que comparemos dois dias seguidos, Nunca pensei que fosse assim, São coisas que só os angustiados conhecem." (48)

  • "... o que à primeira vista é igual para todos e na realidade é diferente para cada um. E diferente também de cada vez..." (56)
  • "... toda a gente sabe que sendo certo que não é com vinagre que se apanham moscas, não é menos certo também que algumas nem com mel se deixam apanhar." (59)
  • "É uma pessoa feliz, pode guardar os seus segredos, Não creio que alguém seja feliz só por guaradar segredos, É feliz, o que eu sou não interessa..." (61)
  • "... perdoa-se porque se ama, ama-se porque se perdoa..." (63)
  • "... seguramente na cabeça de toda a gente, um pensamento autónomo que pensa por sua própria conta, que decide sem a participação do outro pensamento, aquele que conhecemos desde que nos conhecemos e que tratamos por tu, aquele que se deixa guiar por nós para nos levar aonde cremos que conscientemente queremos ir, mas que, afinal de contas, poderá ser que esteja a ser conduzido por outro caminho, noutra direcção, e não para a esquina mais próxima..." (69)
  • "... o que dá o verdadeiro sentido ao encontro é a busca e que é preciso andar muito para alcançar o que está perto. " (69)
  • "... pessoas desconhecidas é o que mais se encontra na vida..." (70)
  • "... o princípio de um desenho como o de todas as vidas, feito de linhas quebradas, de cruzamentos, de intersecções, mas nunca de bifurcações, porque o espírito não vai a lado nenhum sem as pernas do corpo, e o corpo não seria capaz de mover-se se lhe faltassem as asas do espírito." (74)
  • "... há outras pessoas que se não salvam o mundo é só porque o mundo não se deixa salvar..." (87)
  • "Provavelmente, quanto maior é a diferença, maior será a igualdade, e quanto maior é a igualdade, maior a diferença será..." (97)
  • "... alguma razão o povo há-de ter para persistir em afirmar, não obstante as contrariedades da vida, que a má sorte nem sempre há-de estar atrás da porta..." (107)
  • "... ninguém tem o direito de apropriar-se de retratos que não lhe pertençam, salvo se lhe foram oferecidos, levar o retrato duma pessoa no bolso é como levar-lhe um pouco da alma..." (119-120)
  • "... aos múltiplos sentidos das palavras que cautelosamente ia pronunciado, sobretudo aquelas que parecem ter um sentido só, com elas é que é preciso mais cuidado. Ao contrário do que em geral se crê, sentido e significado nunca foram a mesma coisa, o significado fica-se logo por aí, é directo, literal, explícito, fechado em si mesmo, unívoco, por assim dizer, ao paso que o sentido não é capaz de permanecer quieto, fervilha de sentidos segundos, terceiros e quartos, de direcções irradiantes que se vão dividindo e subdividindo em ramos e ramilhos, até se perderem de vista, o sentido de cada palavra parece-se com uma estrela quando se põe a projectar marés vivas pelo espaço fora, ventos cósmicos, perturbações magnéticas, aflições." (133-134)
  • "Sendo a alma humana o que sabemos, e não podemos gabar-nos de saber tudo..." (140)
  • "... a vida tinha-lhe ensinado que a melhor maneira de defender os segredos próprios ainda é guardar respeito aos segredos alheios." (147-148)
  • "... aquilo que ainda é vivo àquilo que já está morto, aquilo que vai morrendo àquilo que vai nascendo, todos os seres a todos os seres, todas as coisas a todas as coisas, eles e elas, mais do que aquilos que à vista os separa..." (155)
  • "Sim, mas o que está a ver de mim também é uma pela, aliás, a +ele é tudo quanto queremos que os outros vejam em nós, por baixo dela nem nós próprios conseguimos saber quem somos." (157)
  • "... em todo o caso lembra-te de que não é só a sabedoria dos tectos que é infinita, as surpresas da vida também o são..." (158)
  • "... tempo a que poderíamos chamar de alma..." (179)
  • "... ignorantes como somos, até onde puderam já alcançar os avanços da ciência, da mesma maneira que as ondas de rádio, que ninguém vê, conseguiram levar os sons e as imagens por ares e ventos, saltando as montanhas e os rios, atravessando os oceanos e os desertos, também não será nada de extraordinário se já estiveram descobertas ou inventadas, ou vierem a sê-lo amanhã, umas ondas leitoras e umas ondas fotógrafas capazes de atravessar as paredes e registar e transmitir para o exterior casos, mistérios e vergonhas da nossa vida que julgaríamos a salvo de indiscrições." (185-186)
  • "É sabido como os nossos pensamentos, tanto os da inquietação como os do contentamento, e outros que nem são disto nem daquilo, acabam, mais tarde ou mais cedo, por cansar-se e aborrecer-se de si mesmos, é só questão de dar tempo ao tempo, é só deixá-los entregues ao preguiçoso devanear que lhes veio da natureza, não lançar na fogueira nenhuma reflexão nova, irritante ou polémica, ter, sobretudo, o supremo cuidado de não intervir de cada vez que diante de um pensamento já por si disposto a distrair-se se apresente uma bifurcação atractiva, um ramal, uma linha de desvio. Ou intervir, sim, mas para o impelir com delicadeza pelas costas, principalmente se é daqueles que incomodam, como se estivéssemos a aconselhá-lo."
  • "... há ocasiões na vida em que nos deixamos ir, em que somos capazes de contar as nossas dores até ao primeiro desconhecido que nos apareça..." 191)
  • "... A felicidade e a infelicidade são como as pessoas famosas, tanto vêm como vão..." (197)
  • "... as águas passadas não movem moinhos..." (198)
  • "Nao se pode imaginar, é impossível, só estando lá..." (199)
  • "... embora não seja capaz de dizer em que consiste a diferença, deve ser coisa de dentro, não de fora." (201)
  • "... a memória, que é susceptível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos factos de cujo acontecer só lhe havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem duma sombra." (201)
  • "... a sabedoria popular a dizer, desde que o mundo é mundo, que o coração não sente o que os olhos não vejam." (214)
  • "... cada um sabe de si e só Deus sabe de todos." (220)
  • "... há mesmo quem afirme que um Cemitério assim é como uma espécie de biblioteca onde o lugar dos livros se encontrasse ocupado por pessoas enterradas..." (230)
  • "As obras do acaso são infinitas." (243)
  • "Em geral as pessoas não conseguem ser justas, nem consigo mesmas, nem com os outros..." (247)
  • "... os tectos das casas são o olhos múltiplo de Deus." (248)
  • "A vida é estranha..." (257-258)
  • "Provavelmente tinha razão quando disse que talvez nenhum suicídio possa ser explicado, Racionalmente explicado, entenda-se, Tudo se passou como se ela não tivesse feito mais do que abrir uma porta e sair, Ou entrar, Sim, ou entrar, conforme o ponto de vista, Pois aí fica uma excelente explicação, Era uma metáfora, a metáfora sempre foi a melhor forma de explicar as coisas." (267)
  • "O espírito humano, porém, quantas vezes será preciso dizê-lo, é o lugar predilecto das contradições, aliás nem se tem observado ultimamente que elas propsperem ou simplesmente tenham condições de existência viáveis fora dele..." (268)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

saramago e a ilha desconhecida


SARAMAGO, José
Ilha Desconhecida. 3.ª ed. Il. Bartolomeu dos Santos. Lisboa: Caminho, 1999.
  • "... também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar. Acabou-se, não há mais nada que ver, é tudo igual." (19)
  • "... não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas..." (21)
  • "... às vezes naufraga-se pelo caminho, mas se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já." (21)
  • "Gostar é provalmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar." (23)
  • "... quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és..." (27)

sábado, 17 de julho de 2010

infinitamente escrever

"Observo-me a escrever como nunca me observei a pintar, e descubro o que há de fascinante neste acto, na pintura, vem sempre o momento em que o quadro não suportra nem mais uma pincelada (mau ou bom, ela irá torná-lo pior), ao passo que estas linhas prolongar-se infinitamente, alinhando parcelas de uma soma que nunca será começada, mas que é, nesse alinhamento, já trabalho perfeito, já obra definitiva porque conhecida. É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina. Poderei escrever sempre, até ao fim da vida..."
José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia

domingo, 11 de julho de 2010

saramago na playboy

O que me ensinas não é prisão, é liberdade.
José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo



O que temos nestas páginas da "Playboy", como tema central de capa dedicado a José Saramago e ao seu "Evangelho", é não só uma entrevista que o escritor deu à "Playboy" do Brasil em 1995, uma reedição, portanto, como também, por outro lado, uma visão desta modernidade pós "Evangelho", significando isto um "Cristo" indiferente à situação da mulher enquanto ser humano, ou melhor, na imagem de todos nós sermos "cristos" redentores, homens e mulheres, indiferentes uns aos outros, na fuga do real. Se no "Evangelho" de Saramago" Jesus e Maria de Magdala se olham, nesta reportagem sensual da "Playboy" portuguesa, Jesus nunca chega a olhar as mulheres que o rodeiam, exóticas, sensuais, belas, eróticas. Mesmo na capa, este "Jesus" da "Playboy olha frontalmente (de forma sisuda, hirto e frio) o ser humano feminino que tem nos seus braços, dando-nos esta a entender o desvio do seu olhar! O que aqui temos é um pouco da sociedade contemporânea, a indiferença pelo outro enquanto outro, naquela totalidade em que ele poderá representar. Não só pelo outro, mas na viagem do outro ao "EU", nesta reviravolta fantasmática da sociedade em que vivemos. Hoje, somos herdeiros dessa antropologia falhada e focada na sombra de uma trilogia vivencial do ser humano sem frutos, desde Buber, passando por Levinas. Há um quadro, apenas, em que este "Jesus" da "Playboy" levanta as mãos, como que dizendo Vinde até mim, ao meu ser, ao meu corpo, ao meu âmago, a mim todo, e ensinai-me as coisas deste mundo, tal como o "Jesus" saramaguiano pede a Maria de Magdala que lhe ensine toda a sexualidade amorosa que o humano pode trasnsportar e doar em si, um ao outro doando os seus proprios mundos. Cada um pode interpretar como quiser. Não evoco, aqui nestas palavras, apenas o sentido corporal e sexual, o exterior, mas sim toda a interioridade que o ser humano transporta em si, e cada um pode doar ao outro na simplas partilha. Mesmo as meninas da Playboy estão completamente indiferentes a esta personagem que pulula (uma até parece, ao carregar uma arma, pretender dar um tiro, sabe-se lá a quem!) e vai pululando pelo seu meio. Mas, sinceramente, e aqui transcrevo, nunca li nada tão poético, tão fulgorante à volta da união de dois seres que se completam no simples acto de amar, esse amor singelo e simples e absoluto que todos nós procuramos e pretendemos alcançar, nas páginas de Saramago que descrevem o encontro do seu "Jesus" com Maria de Magdala. Esta reportagem da "Playboy" pode significar simplesmente isto: que é preciso reinventar Cristo! Não este "Jesus" frio e distante, mas aquele Jesus que reinventou Deus no Novo Testamento, repleto de compaixão pela dignidade humana. Chesterton não deixa de ter razão. Saramago, à sua maneira, tal como Katzantzakis, em "A Última Tentação de Cristo", e assim apresento dois escritores heterodoxos, e um ortodoxo, Chesterton, não deixam de ter a sua razão: a reinvenção de Cristo! E nada melhor, na perspectiva de Chesterton, pela renovação desse figura filosófica do espanto perante o mundo e na simplicidade do próprio mundo, para a renovação do ser humano. Afinal de contas, a Filosofia começou precisamente pelo espanto...











  • Quis, porém, o destino que, passando ele pela cidade de Magdala, se lhe rebentasse ali, do pé, uma ferida que andava renitente em sarar, e em tal jeito que parecia o sangue não querer estancar-se. Também quis o destino que o perigoso acidente tivese ocorrido à saída de Magdala, mesmo em frente, por assim dizer à porta, de uma casa que ali havia, afastada das outras, como se não quisesse aproximar-se delas, ou elas a repelissem. Vendo que o sangue não dava mostras de querer parar, Jesus chamou, Ó de dentro, disse, e acto contínuo, uma mulher apareceu à porta, como se justamente estivesse à porta de que a chamassem, embora, por um leve ar de surpresa que começou por aparecer-lhe na cara, pudéssemos ser levados a pensar que estaria antes habituada a que lhe entrassem pela casa dentro, sem bater, o que, se bem considerarmos as coisas, teria menos razão de ser que em outro qualquer caso, pois esta mulher é uma prostituta e o respeito que deve à sua profissão manda-lhe que feche a porta de casa quando recebe um cliente. Jesus, que estava sentado no chão, comprimindo a desatada ferida, olhou de relance a mulher que se lhe acercava, Ajuda-me, disse, e, tendo segurado a mão que ela lhe estendia, conseguiu põr-se de pé e dar uns passos, coxeando.

  • Não estás em estado de andar, disse ela, entra, que eu trato-te dessa ferida. Jesus não disse nem sim nem não, o odor da mulher entontecia-o, a ponto de ter-lhe desaparecido, de um momento para o outro, a dor que lhe dera ao abrir-se a chaga, e agora, com um braço por cima dos ombros dela e sentindo a sua própria cintura cingida por outro que evidentemente não podia ser seu, apercebeu-se do tumulto que lhe trespassava o corpo em todas as direcções, se não fosse mais aexcato dizer santidos, porque neles, ou em um que tem esse nome, mas que não é o ver nem o ouvir nem o cheirar nem o gostar nem o tocar, podendo no entanto levar de cada um deles uma parte, aí é que ia bater tudo, salvo seja. A mulher ajudou-o a entrar para o pátio, trancou a porta e fê-lo sentar-se, Espera, disse. Foi dentro e voltou com uma bacia de barro e um pano branco. Encheu de água a bacia, molhou o pano e, ajoelhando-se aos pés de Jesus, sustendo na palma da mão esquerda o pé ferido, lavou-o cuidadosamente, limpando-o da terra, amaciando a crosta estalada através da qual surdia, com o sangue, uma matéria amarela, purulenta, de mau aspecto. Disse a mulher, Não vai ser com água que te curarás, e Jesus disse, Só te peço que me ates a ferida de modo a poder chegar a Nazaré, depois lá me trato, ia a dizer, Minha mãe trata-me, mas emendou porque não queria parecer aos olhos desta mulher como um rapazinho que, por dar uma topada numa pedra, vai a chorar, Mãezinha, mãezinha, à espera do afago, um sopro suave no dedo ofendido, um toque dulcificante dos dedos, Não é nada, meu menino, já passou.



  • Daqui a Nazaré ainda tens muito que andar, mas se é assim que queres, espera só que te ponha um unguento, disse a mulher, e entrou em casa, onde iria demorar-se um pouco mais que antes. Jesus olhou em redor do pátio, surpreendido porque em sua vida nunca vira nada tão limpo e arrumado. Está desconfiado que a mulher é uma prostituta, não por particular habilidade sua em adivinhar profissões à primeira vista, ainda não há muitos dias ele próprio poderia ter sido identificado pelo cheiro a gado cabrum que tresandava, e agora todos dirão, É pescador, foi-se aquele cheiro, outro veio, que não tresanda menos.

  • A mulher cheira a perfume, mas Jesus, apesar da sua inocência, que nnão é ignorância, pois não lhe faltaram ocasiões de ver como procediam bodes e carneiros, tem bom senso que chegue para considerar que cheirar bem do corpo não é razão suficiente para afirmar que uma mulher é prostituta. Na verdade, uma prostituta deveria era cheirar ao que frequenta, a homem, como o cabreiro cheira a cabra e o pescador a peixe, mas talvez, sabe-se lá , essas mulheres se perfumem tanto justamente por quererem esconder, disfarçar ou, mesmo, esquecer o cheiro do homem. A mulher reapareceu com um pequeno boião e vinha a sorrir como se alguém, dentro de casa, lhe tivesse contado uma história divertida. Jesus via-a aproximar-se, mas se os olhos o não estavam enganando, ela vinha muito devagar, como acontece às vezes nos sonhos, a túnica movia-se, ondulava, modelando ao andar o balanço rítmico das coxas, e os cabelos pretos da mulher, soltos, dançavam-lhe sobre os ombros como o vento faz às espigas da seara. Não havia dúvida, a túnica, mesmo para um leigo, era de prostituta, o corpo de bailarina, o riso de mulher leviana. Jesus, em aflição, pediu à sua memória que o socorresse com algumas apropriadas máximas do seu célebre homónimo e autor, Jesus, filho de Sira, e a memória serviu-o bem, murmurando-lhe discretamente, do lado de dentro do ouvido, Foge do encontro duma mulher leviana, para não caíres nas suas ciladas, e logo, Não andes muito com uma bailarina, não suceda que pereças por causa dos seus encantos, e finalmente, Nunca te entregues às prostitutas, para que não te percas a ti e aos teus haveres, perder-se este Jesus de agora ben poderá acontecer, sendo homem e tão novo, mas, quanto haveres, esses já sabemos que não correm perigo porque os não tem, pelo que ele próprio se achará salvo, em chegando a hora, quando a mulher, antes de fechar o contrato, lhe perguntar, Quanto tens. preparado para tudo está, portanto, Jesus. e por isso não o apanha de surpresa a pergunta que ela lhe fez enquanto, agora posto o pé dele sobre o joelho dela, lhe cobria de unguento a ferida,



  • Como te chamas, Jesus, foi o que respondeu, e não disse de Nazaré, porque já antes o tinha declarado, como ela, por ser aqui que viva, não disse de Magdala, quando, ao perguntar-lhe ele por sua vez o nome, respondeu que Maria. Com tantos movimentos e observações, acabou Maria de Magdala de fazer o penso ao dorido pé de Jesus, remantando-o com uma sólida e pertinente atadura, Aí tens, disse ela, Como te devo agradecer, perguntou Jesus, e pela primeira vez os seus olhos tocaram os olhos dela, negros, brilhantes comoc arvões de pedra, mas onde perpassava, como uma água que sobre água corresse, uma espécie de volptuosa velatura que atingiu em cheio o corpo secreto de Jesus.


  • Guarda-me na tua lembrança, nada mais, e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti, Porquê, sorriu a mulher, Porque és bela, Não me conheceste no tempo da minha beleza, Conheço-te na beleza desta hora.



  • O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se, Sabes quem sou, o que faço, de que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Sei só isso. A mulher sentou-se junto dele, passou-lhe suavemente a mão pela cabeça, tocou-lhe na boca com a ponta dos dedos, Se queres agradecer-me, fica este dia comigo, Não posso, Porquê, Não tenho com que pagar-te, Grande novidade, Não te rias de mim, Talvez não creias, mas olha que mais facilmente me riria de um homem com a bolsa cheia, Não é só a questão do dinheiro, Que é então. jesus calou-se e voltou a cara ao lado. Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera. Fez-se silêncio, tão denso e profundo que parecia que apenas os dois corações soavam, mais forte e rápido o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação.



  • Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad. A mulher sorriu e ficou calada. Depois Jesus disse, Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim. A mulher sorriu de novo, mas não falou. Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher. Maria segurou-lhe nas mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu, Queres tu ensinar-me, Para que tenhas de agradecer-me outra vez, Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te, E eu nunca acabarei de ensinar-te.
  • Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxílido dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas ancas, de um lado para o outro. Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele, Não tenhas medo, disse Maria de Magdala. Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama, Deita-te, eu volto já. Fez correr um pano cuma corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa, o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu nua. Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa. Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo ardente e suave, e disse, És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos. Hesitando, Jesus, abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aqueles versos do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu vente é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto tudo isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.



  • Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra aindam e dizia, Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção uma da outra, ambas atraidas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, Aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia, Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava girtando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito.

José Saramago















o livro que tinha, depois não, e agora já

Este é um livro que pouco tem sido falado. "Manual de Pintura e Caligrafia" tem a significação notável de romper com a ficcção tradicional portuguesa. Abre as portas para um novo mundo... um romance deslumbrante! Ficam aqui as páginas de um trabalho, dedicado a este livro, que então fiz na licenciatura de Filosofia, em 2002, no âmbito da disciplina Filosofia e Cultura em Portugal no Século XX. Fala-se de "Levantado do Chão", sim, mas este ainda é mais importante na revelação da linguagem saranaguiana. Só tenho pena de ter perdido a edição do "Manual" pelo Círculo de Leitores, já que aqui tinha os meus apontamentos, os meus sublinhados, pistas de leitura, e não seu por onde ele anda! Emprestei-o, já não me lembra a quem, e fiquei sem ele. Um dia destes coloco aqui as frases, os sublinhados, as quais estão num outro caderno.

















sábado, 10 de julho de 2010

saramago na seara nova e tradutor

Conforme já falei, a propósito da tradução de Saramago, da qual não se tem falado, apresento aqui um livro que já tenho há muitos anos, comprado em 1988, a 3.ª edição, dos Paraísos Artificiais de Baudelaire. Uma leitura alucinante! Apresento igualmente as capas de alguns números da Seara Nova que incluem a colaboração de Saramago, descrevendo a mesma.






  • " Livros. A Execução, romance de Júlio Moreira, prelo Editora". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1459 (Maio 1967), p. 153.
  • "Livros. Novas Andanças do Demónio, por Jorge de Sena, Portugália Editora". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1460 (Jun. 1967), p. 181.
  • "Livros. Estreia Literária. Histórias Maldosas, por Luís Sobral, Edição do Autor". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1461 (Jul. 1967), p. 223.




  • "Livros. Pelos caminhos travessos da alegoria. Os Mastins, por Álvaro Guerra, prelo Editora; »Ah, se ousares... Ousa!» O Caso de Zulmira L., por Natália Nunes, Novela, Edição da Autora; A razão do macho. A Faca e o Rio, por Odylo Costa, filho, Novela, Edição Livros do Brasil". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1462 (Ago. 1967), pp. 261-261.
  • "Livros. Onde enxadas se pedem, que fazem sachos? O Conflito, por Manuela Montenegro, Contos, Edição da Sociedade de Expansão Cultural; A meio do caminho do mar. Vida Crioula, por Teobaldo Virgínio, Novela, Edição da Livraria Bertrand". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1463 (Set. 1967), pp. 292-293.
  • "Livros. Quatro Livros e um escritor". In Seara Nova, n.º 1465 (Nov. 1967), p. 365.


  • "Livros. Outro pão mas sempre o mesmo diabo". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1466 (Dez. 1967), p. 400.

  • "Livros. As relações mágicas. As Relações Humanas (Os quatro rios, A dança das espadas, Canção diante de uma porta fechada), por Agustina Bessa Luís, Guimarães Editores". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1467 (Jan. 1968), pp. 29-30.
  • "Livros. Os vivos. O Dom de Estar Vivo, por Alice Sampaio (Editora Arcádia); Os mortos. Vida, Crucificação e Morte dos Cristos, por Manuel de Campos Pereira (Livraria Portugal); Os danados. O Inferno, por Bernardo Santareno Edições Ática)". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1468 (Fev. 1968), pp. 67-68.



  • "Livros. «Passa-se sete vezes uma cargalhada...» Antes do Dilúvio, por Mário Braga, Vértice; «Que virá acontecer-nos?...» Giestas da Memória, por Nelson de Matos, Livraria Bertrand; Contar, mas devagar... A Contagem para o Fim, por Fausto Lopo de Carvalho, Sociedade de Expansão Cultural". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1469 (Mar. 1968), pp. 102-103.
  • "Artes e Letras. No Cinquetenário da Actividade Literária de José Gomes Ferreira". In Seara Nova. Lisboa, n.º 1471 (Maio 1968), pp. 166-169. Contém depoimento de José Saramago.
  • "Livros. Um sorriso e um montedor. Montedor, por Rentes de Carvalho, Ed. Prelo". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1471 (Maio 1968), p. 173.



  • "Livros. As virtudes da ambiguidade. O Ser e o Ter, seguido de Anquilose, por José Marmelo e Silva, Editora Ulisseia". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1472 (Jun. 1968), p. 208.
  • "Livros. Um meio ou um fim? Homens e Mulheres, por Agustina Bessa Luís, Guimarães Editores; Quem é Ruben A.? Páginas (vol. V), por Ruben A., Parceria A. M. Pereira; Edifícios ou edificâncias. Eva, por Sá Coimbra, Editorial Inova". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1473 (Jul. 1968), p. 245.
  • "Livros. Sem armas na floresta. O Instituto Supremo, por Ferreira de Castro, Guimarães Editores, Lisboa, 1968; Os malefícios da cultura. Bolor, por Augusto Abelaira, Livraria Bertrand, Lisboa, 1968". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1474 (Ago. 1968), pp. 281-282.


  • "Livros. Quem gosta deste mundo? O Delfim, por José Cardoso Pires, Livraria Moraes, Lisboa, 1968; Uma nova geração de maravilhas. O Despojo dos Insensatos, por Mário Ventura, Livraria Bertrand, Lisboa, 1968". In Seara Nova. Lisboa, n.º 1476 (Out. 1968), pp. 338-339.
  • "Livros. O saber ocupa lugar. Casa de Correcção, de Urbano Tavares Rodrigues, Livraria Bertrand". In Seara Nova, Lisboa, n.º 1477 (Nov. 1968), p. 371.